segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Diálogos em família: também precisamos falar sobre o que não tá bem.

Quem conhece a minha família, convive com a gente, ou tem um de nós adicionado no Facebook sabe que volta e meia eu compartilho pequenas anedotas que surgem em diálogos rotineiros entre meus familiares e, às vezes, amigos mais próximos. Não é querer me gabar, mas somos ótimos nas tiradas e zoeiras (não é à toa que nosso grupo do Whatsapp, aqui de casa, é intitulado "Casa da Zoeira"). Porém, é claro, que nem tudo são flores - até porque se fosse, coitados de nós, as flores aqui em casa sempre morrem secas ou o Abreu (nosso gato) come, então não seria uma boa coisa. A gente quase sempre grita um com outro, briga, se desentende, fala bastante palavrão, mas estamos aí, vivos, inteiros, aprendendo com a vida e com nossos diálogos. 
Nossos diálogos nem sempre são essas anedotas curtas e divertidas, muitas vezes temos discussões intermináveis e filosóficas sobre a vida, o universo e tudo o mais; um pouco disso é porque temos um administrador na área de engenharia, um administrador na área ambiental e indígena, uma assistente social, uma professora na área de Línguas e um publicitário, então pensem, nada aqui fica só no senso comum, a gente bate o pé, a gente fundamenta discussão até sobre baixar a temperatura do ar condicionado ou aumentar (quem quiser as referências dos dois argumentos é só me avisar, tenho ambos salvos!). Masàs vezes, a gente desiste da argumentação, abre uma cerveja e pede uma pizza, porque acabar em pizza nem sempre é uma coisa ruim.
Mas eu comecei a falar tudo isso pra publicizar um diálogo importante que tivemos aqui em casa. Nós sempre pensamos num momento "certo", ou se estamos "prontos" pra falar sobre isso, ou sobre qualquer outra coisa, mas talvez estejamos muito mais preocupados se os outros estão prontos pra saber de alguma coisa e julgar se é certo ou não. E, nesse caso, se alguém não está pronto pra saber, deveria começar a pensar sobre si mesmo, sobre a vida, o universo e tudo o mais e, principalmente, sobre preconceito, sobre respeito, tolerância e AMOR.
Todo mundo que me conhece há um tempo sabe que passei por poucas e boas e que eu sempre falei do apoio da minha família e dos amigos e isso foi o que me ajudou. Depois da minha última cirurgia e do cortisol controlado eu sou só sorrisos. E foi num dia de sorrisos, no carnaval de 2015 (um ano já!) saindo com meu irmão mais novo, que me pus a refletir, a observar o que eu tinha em minha volta, no caso, ele mesmo: meu irmão caçula. 
Eu sou daquelas que me preocupo exageradamente com as pessoas que gosto e tenho pavor só de pensar (e imaginar) em alguma coisa de ruim que possa acontecer. Digamos que eu seja uma ~bigsisterzilla~, ou qualquer termo que se encaixe nesse contexto. Dito isso, voltando para o carnaval, depois de uma conversa com uma amiga e depois de cair a ficha, cheguei em casa e conversei com a minha mãe, que, no dia seguinte, conversou com meu irmão mais novo, junto do meu pai. E, sim, meu irmão é gay. Já tinha passado pela nossa cabeça, mas como ele nunca tinha falado nada, a gente leva com a barriga e acha que tá tudo bem, mas não tá tudo bem. 
Não tá tudo bem porque ele não contou com medo de represália, não tá tudo bem porque mesmo conhecendo a gente ele achou que a gente poderia ter lidado diferente, não tá tudo bem porque ele ainda tem que se "achar pronto" pra falar sobre isso com as pessoas, não tá tudo bem porque ele tem dúvida se pode postar foto com o namorado, não tá tudo bem porque tem gente que não entende que ninguém tem nada com isso. Só ele. E nós, porque nós fazemos parte da mesma família e se ele tiver qualquer dúvida, ou problema, a gente tá aqui pra ele. A gente tá longe de ser uma família perfeita (põe longe nisso, senhor!) , mas a gente se transforma juntos, a gente aprende juntos, a gente cresce juntos e a gente tenta quebrar barreiras juntos, a gente conversa. Muito. 
Falando sobre isso com um amigo meu, que me conhece há anos, ele me surpreendeu com uma frase dizendo "Ah, Rafa, eu imagino que seja difícil porque nenhuma mãe quer que seu filho faça parte de uma minoria". Quando ele concluiu, logo depois de "quer que seu filho", eu percebi que nós somos cercados de gente querida. Mas nem todos são assim. Quem não está no nosso dia a dia é quem nos preocupa, e até nos dá medo.
Porém, não importa o que aconteça, nossa família exala coisas boas, ou pelo menos a gente tenta. E os diálogos nos ajudam com isso. Os diálogos nos ajudam a nos manter juntos, a nos aceitar, a nos fazer repensar algumas coisas que tínhamos por certo, ou por normal. 
Meus pais nos educaram (eu e meus irmãos) pra sermos pessoas críticas (algumas vezes eles se arrependem disso), seres pensantes e independentes. Por esse motivo, a cada dia nós todos nos "reformulamos". Talvez há um tempo eu não pensasse assim, há um tempo nós lidaríamos diferente com certas situações, mas a gente vai tentando fazer dar certo, ou se der errado, a gente volta lá pra parte de abrir uma cerveja e comer uma pizza e tentamos de novo.
Hoje, eu luto por um mundo em que o diálogo seja normal, seja corriqueiro, seja fundamentado, seja causa e consequência de pessoas mais felizes. Hoje, eu luto para que outros gays, bi, lésbicas, trans, ou qualquer outra minoria não precisem mais se preocupar em "terem que assumir" qualquer coisa sobre sua vida pessoal. Hoje, eu luto para que as pessoas sejam mais tolerantes com diferenças, e que SIM, recebam tratamentos diferenciados, porque cada um precisa de uma coisa diferente, mas que essa diferença seja adequada, que essa diferença seja o respeito, que essa diferença seja resultado de uma pessoa crítica e que também lute por um mundo melhor.
Por esses e tantos motivos, talvez, eu tenha escolhido minha área de atuação - com a Linguagem -, porque, pra mim, os diálogos são fundamentais na convivência social. Os diálogos devem acontecer quando tudo vai bem e quando não tá tudo bem. 
Precisamos de diálogos porque precisamos de amor.
E eu sei que aqui em casa temos muito dos dois.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

sobre ser mulher, andar de ônibus e o medo - não necessariamente nesta ordem.

Eu já tinha planejando há dias (ou talvez meses e até anos) escrever sobre isso, mas a rotina e a falta de motivação estavam me impedindo de tirar um tempo para isso. 
Nos últimos meses, as redes sociais e outras mídias estão bastante lotados de lutas, discussões, reivindicações e divergências. Desde um reboliço após um reality show em que uma menina de doze anos de idade foi assediada virtualmente e a criação da hashtag #MeuPrimeiroAssedio, a guerra dos sexos vem se acirrando cada vez mais. Apesar de eu concordar que tudo na nossa vida faz parte da formação do nosso ser, caráter, personalidade, enfim, falar em "meu" - ou seja, posse de uma coisa negativa - sempre me deixa com um pé atrás. Procuro tentar não carregar carga negativa para que isso não me transforme em alguém desacreditada na bondade das pessoas. Apesar disso, ler a timeline e as notícias não trazem coisas muito positivas. Tudo que me acontece, ou ao meu redor, me instiga a fazer uma anamnese e refletir...

Quando eu tinha - provavelmente - 11 ou 12 anos, estava na sexta série do Ensino Fundamental II, era um dia de sol e fui, como vários outros dias, de bermuda (do uniforme!) para a escola. Estava sentada fazendo atividade em dupla, lembro como se fosse hoje, e de repente... quando sentei e um colega sentou do meu lado, no meio das risadas entre a feitura do exercício pedido, ele deixa cair algo no chão e quando abaixa para buscar, olha para minha coxa e diz: credo, Rafa! Tu não depila a coxa? Eu, com doze anos de idade, que nunca tinha pensado nisso, fiquei quieta, dei risada. A risada pode ter sido uma defesa de uma menina que não sabia lidar com algo que ela não tinha noção que existia até então. Essa menina foi para casa; quando tomou banho, pegou a lâmina da mãe escondida e tirou aqueles pelos que foram motivo de risada e os tira até hoje, porque não se sente bem com eles.

Quando eu tinha 15 anos, estava no segundo ano do Ensino Médio, estudava no Colégio Militar, ficava o dia inteiro no colégio - tinha aulas de reforço, teatro, fazia trabalhos, exercícios de Química infinitos - e voltava tarde para casa. Num desses dias, eu, com sono, sentada no banco do ônibus próximo à janela, olhava as paisagens, enquanto quase dormia e acordava a cada lombada. Passei o percurso todo olhando pela janela. Próximo do ponto que eu ia descer do ônibus, me ajeito para levantar e o homem que estava no meu lado me pede desculpas e para de se masturbar e fecha a calça. Levantei, sem reação, fiquei alguns segundos olhando para todos no ônibus, que pareciam já estar me olhando há tempos, mas não falaram e não fizeram nada. Desci do ônibus chorando, sem saber o que fazer. Cheguei em casa e pedi para minha mãe me trocar de colégio, pois não queria pegar ônibus nunca mais.

Quando eu estava no cursinho pré-vestibular, conversava com um amigo (e ex vizinho do <3), de repente, durante a feitura de exercícios, uma moça levanta a mão para tirar uma dúvida com o professor. Embaixo do seu braço: pelos, muitos pelos. Minha reação foi de surpresa, susto, digo que talvez até repulsa. "Como uma mulher podia ter pelos? Que nojo!". Depois voltamos aos exercícios e nada foi falado.

Entrei na universidade. 
Ia ter que pegar ônibus todos os dias novamente, mas agora eu não sentava do lado de nenhum homem (e costumo ainda evitar isso). Aprendi maneiras de evitar isso: às vezes, colocando a bolsa no banco do lado, nunca fazer contato visual quando um homem entra no ônibus, procurar um assento que já tenha uma mulher do lado, sentar no banco do corredor para dificultar a passagem para o banco da janela, ou até mesmo ficar em pé - mas evitando contato com homens que param do lado, no corredor, e que parecem não ter nenhuma noção de espaço e ficam esfregando as partes íntimas na gente.
Encontrei a menina do cursinho num círculo de amigos anos depois. Ela ainda tinha seus pelos. Eu passei a entender que isso não tinha problema nenhum, que isso é uma opção pessoal e que isso é saudável. Apesar disso, não gosto deles em mim. Se foi um trauma, ainda não superei. Admiro as mulheres fortes o suficiente que combatem essas amarras todos os dias. 

Hoje, sou professora, ainda evito sentar perto de homem no ônibus, ainda atravesso a rua quando vejo homens ao longe, em locais não muito movimentados, ainda sofro periodicamente com depilação com cera quente e lâminas, ainda fico sem reação quando alguma coisa me acontece, como um homem tenta forçar beijo na balada, ou quando eu ando pela calçada e homens nos seguem com o olhar, ou infinitas outras coisas que chamam de "brincadeiras", ou dizem que "o mundo está muito chato, reclamam de tudo agora".

Ontem, uma ex-aluna, que tem doze anos e está no oitavo ano do Ensino Fundamental II, compartilhou no Facebook uma foto da sua coxa com uma marca de mão vermelha, explicando que aquilo era resultado de estar andando na calçada, usando short, e dois caras de moto passarem e darem um tapa e saírem correndo. E ela ficou sem reação imediata, depois apenas chorou, e xingou, sem mudar a situação que ocorreu. E ela conheceu o que eu conheci também há anos, e todas as mulheres conhecem um dia, muitas sem saberem o nome, mas sabem que acontece.

O nome disso é MACHISMO. Isso é resultado histórico de uma sociedade que sempre colocou as mulheres em segundo plano. Eu sempre evito compartilhar coisas polêmicas nas minhas redes sociais por querer evitar discussões que não vão dar em lugar nenhum, mas isso me mata (e mata várias mulheres) aos poucos. Ficar calada quando devia estar gritando. Viver como se estivesse tudo bem, quando na verdade estamos em constantes lutas. Lutas diárias pelo direito de ter direitos. Meus pais sempre me falaram, desde pequena: "Rafa, estuda, luta pelo que tu quer, pra nunca precisar depender de ninguém, principalmente de homem. Tu és capaz!" Levo isso comigo no subconsciente, consciente, ego, superego, etc... assim como tudo que a vida me fez passar. E, como dizem que tudo que passamos é parte de nós, tento ser uma professora que faz muitas perguntas e tenta desestabilizar os conceitos de tudo que os estudantes pensam que é "fixo". Se até a Química afirma que as coisas se transformam, eu, como professora de Linguagens - considerando-me também das Humanas <3 - preciso fazer meu papel pra tentar de alguma forma parar esse ciclo de sofrimento, que meninas de doze anos são iniciadas, sem nem saberem o que é.

Por favor, se for comentar ou querer se defender, antes reflita, coloque-se no lugar das mulheres. Você não vai conseguir sentir nem por um momento o que sentimos todos os dias - o medo de ser mulher - mas podes tentar ajudar a diminuir esse medo. Obrigada por fazer o mínimo.



quarta-feira, 24 de junho de 2015

sobretudo as pretas.

Não, não enlouqueci. Acho que ainda não, pelo menos. O título desse texto poderia ser vários, mas eu achei que esse caberia. 
Há dias (ou meses, sendo sincera) que eu quero escrever sobre uma infinidade de coisas que me vem à cabeça, mas, como eu estou tomada pela rotina, sempre acabo deixando pra depois e esse depois nunca chega. Geralmente, as coisas que vão surgindo na minha cabeça eu anoto em palavras-chave num bloco de notas do celular e depois de um tempo não faço a miníma ideia do que eu queria dizer com aquilo. Nesse momento o que tenho no bloco de notas é: "sobre as cores que vemos o mundo"; auto sabotagem da felicidade"; "filme doador de memórias"; "jogo detetive"; "Schopenhauer sobre amor e as vontades"; "astigmatismo - se meus olhos tirassem fotos" e pra finalizar: uma lista de nomes próprios que me vêm à mente de vez em quando e eu anoto (não faço ideia do porquê, mas é mania, vai entender...). 
Enfim... voltando ao texto e ao título. Esse título foi uma pergunta que um aluno me fez hoje na sala de aula. Sim, isso mesmo, eu cheguei em sala e ele disse "Profe, o que significa "sobretudo as pretas?" e eu fiquei com cara de "Oi?", mas o contexto é que em outra aula ele perguntou a outro professor se ele gostava de azeitonas e o professor respondeu "sobretudo as pretas", o guri ficou intrigado porque não entendeu a resposta e emudeceu e me solta essa no meio da minha explanação sobre o gênero Crônica. Depois de todo contexto explicado e eu ter explicado que "sobretudo" tem papel de advérbio (matéria que eu já tinha dado anteriormente!), pedi que eles escrevessem uma crônica e o menino escreveu sobre o que? Isso mesmo, sobre o "sobretudo as pretas". Isso me faz refletir sobre a forma como vemos o cotidiano, eu sempre tento observar os detalhes, os diálogos, as atitudes das pessoas como se o tempo parasse pra eu ficar vendo o mundo como numa galeria de arte. Pena que não é e o tempo não para pra gente ficar observando. Há uns anos, quando eu estava nas primeiras fases da graduação, lembro de uma discussão sobre o flâneur e sobre a alma das ruas, é mais ou menos isso que sinto quando o mundo passa rápido pela gente, eu paro. Parece paradoxal, e pode até ser que seja, mas é uma espécie de terapia. Observar o tempo passar, as pessoas passarem, o mundo acontecer e você só existir. Esse aluno, quando me fez essa pergunta no meio da aula de outro assunto completamente diverso, fez-me refletir sobre como a gente faz tudo passar correndo e não para um pouco pra pensar nas palavras, pra refletir, pra questionar... "Sobretudo as pretas" poderia ser uma metáfora da vida, "sobretudo" é uma palavra utilizada como advérbio, ou seja, está junto de um verbo, uma ação, modifica uma ação; pode não ter significado dentro de um contexto, mas quando vêm junto de uma especificação, te dá um significado... ou seja, a ação do aluno trouxe uma reflexão, veio junto uma pausa, um momento pra observar. E pensar. A ironia de tudo isso é justamente que o gênero textual de que falávamos em sala tem como ponto de partida assuntos do cotidiano. E não é que gerou pano pra manga? 
Sobre as outras anotações do bloco de notas, lembrei de outro "acontecimento letivo". Dia desses, coincidentemente na mesma turma, ao término da leitura de uma crônica sobre uma "mãe de família" que parecia ter enlouquecido pois todos os produtos que utilizava em casa, ela virava pra uma câmera imaginária e falava sozinha, como em uma propaganda, discutíamos sobre manipulação e consumismo e eu lancei a pergunta "Vocês já jogaram The Sims?", a galera em coro respondeu positivamente e eu "vocês nunca pensaram que podem estar sendo comandados, como os Sims? Que tudo em volta é uma ilusão?". Pronto. Provoquei os pesadelos das crianças. Já começaram a xingar seus supostos "comandantes", outros diziam que seus "players" estavam de sacanagem porque cancelavam a ação de estudar minutos antes da prova etc etc até que um, especial, solta "Profe, tu deveria ser professora de filosofia! Fica fazendo a gente pensar nessas coisas sem resposta". Aí eu fiquei satisfeita. 
Hoje, lendo o bloco de notas e observando a janela do ônibus quando voltei da aula do "sobretudo as pretas", lembrei de uma aula de Filosofia que tive no Ensino Médio, não lembro exatamente em qual ano. Eu costumava adorar as aulas de Filosofia (sim, MUITO mais que de Português), principalmente porque eu poderia colocar pra fora os meus questionamentos sem resposta que eu ficava martelando na minha cabeça olhando pro céu à noite. Numa das aulas, o professor (que eu não lembro nome e se eu ver na rua, não faço ideia de quem seja) falava sobre Schopenhauer; ele sentou em cima da mesa e falava e falava e falava - a turma talvez nem estivesse prestando atenção, porque o pessoal não era muito disso na escola estadual que eu estudava, mas até que eles eram controlados, mas isso é outra história - e ao final da aula ele pediu que, em dupla ou grupo, escrevêssemos um pequeno texto das nossas impressões sobre o filósofo. Eu, como geralmente fazia, escrevi tudo e botei nome dos meus colegas (ou colega, aquele que odiava escrever e eu não me importava de botar o nome dele, porque ele era bom na hora de apresentar trabalho). Lembro até hoje do que pesquisei, da aula, do que li e mais ou menos do que escrevi... resumindo, o filósofo fala sobre as vontades humanas, sobre do que somos movidos, na minha opinião, nossas fraquezas... As vontades são como as expectativas, precisamos supri-las, satisfaze-las, pra poder alcançar a tão desejada felicidade, que é momentânea, mas se isso passar não seríamos mais felizes. É meio profundo pensar que uma aula de ensino médio me fez pensar e escrever um texto constatando que um filósofo disse que a moral da vida é a gente ser frustrado e por alguns momentos sermos felizes. Por que eu tô falando isso tudo? Porque hoje, nessa altura do campeonato, que eu não sou mais aquela aluna de ensino médio, mas sim professora Ensino Fundamental II, eu preciso pensar nessas expectativas e vontades que tenho e que deixo na mente dos alunos... Hoje, eu acredito que Schopenhauer me ajudou a ver que a vida é movida pelas nossas vontades e, às vezes, por algumas frustrações, mas a felicidade almejada não pode ser plena, porque assim não há o contraste e a sensação de objetivo alcançado. Felicidade contínua é apenas estabilidade, é monotonia, é meio tedioso. (não que eu queira levar na cara o tempo todo pra ~~contrastar~~ com a felicidade, né?), enfim... um pouco disso, pode ser ilustrado no filme "O doador de memórias" (é a tradução, não sei o nome original/que citei lá em cima, do bloco de notas), nesse filme as pessoas injetam toda manhã uma droga que as faz esquecer de todas as coisas ruins do mundo, todas as emoções, violência, tudo, eles vivem constantemente na "Paz" (se é que se pode dizer que existe paz, se não  há violência pra contrastar) e [ALERT SPOILER] ao final um senhorzinho doa suas memórias do passado e um menino começa a ter emoções novamente, ter tristezas, alegrias, vontades, VONTADES. Essas vontades que me fazem parar e observar o mundo de vez em quando, que me fazem chorar de vez em (sempre) quando , que me fazem rir... Sim, as vontades, a que nos dão frustrações, aquelas lá que movem montanhas (ou talvez o ditado não seja bem assim...) No fim, a filosofia é tanta na minha cabeça que talvez seja só questão de explicar que "sobretudo as pretas" é só um advérbio numa frase com elipse do verbo, ao invés de inspirar o menino a escrever uma crônica sobre isso...
Ou talvez não. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Primeiro dia de aula: uma história sem fim.

2015 e o primeiro dia de aula dos alunos. 
Novo colégio pra mim, nova professora pra eles. 
Novas turmas, novos alunos, novo programa de ensino. 
Tudo novo. 
Porém, algumas coisas continuam iguais: o novo sempre dá aquele friozinho na barriga, aquele "medinho" do desconhecido, aquela ansiedade... 
Volta de férias em plena quinta-feira pós-carnaval nem é bem uma volta de férias, é mais um reencontro dos amigos/colegas que qualquer coisa - pros alunos. 

Os alunos ainda estão naquele alvoroço, eu só dou uma aula em cada turma e, como desta vez eles são (em média) 40 ao invés de 25, estranhei um pouco este "mísero" detalhe... 
De início, aqueles 40 parecem uma "coisa" só, aqueles rostinhos ainda não foram assimilados pelo meu cérebro, os nomes, então, muito menos; eles juntos parecem um único som: o da bagunça. 
Aí aquele meu frio na barriga foi se transformando em calor no momento em que eu abri e boca e disse: bom dia. (aqueles rostinhos me diziam "bom dia pra quem, cara pálida?") 
Aquela resposta em uníssono me fez pensar nos Iskalnari, da "História sem fim" - os marinheiros da névoa, que viviam em conjunto, sempre juntos, eram iguais; mas por serem iguais não sentiam falta de um "indivíduo", a unidade não era importante. Isso me incomodou. 
Depois de uma breve dinâmica (quem diria, heim? eu fazendo dinâmicas...) pedi que eles escrevessem um pequeno texto, motivados pelo diálogo entre a Lagarta e  a Alice (previsível...), respondendo à pergunta "Quem és tu?" Aula terminada, textos escritos. Voltei pra casa.

Cheguei em casa e fui ler os textos... cada texto, uma letra diferente, uma quantidade de linhas diferente, um nome, uma identidade, algumas risadas, algumas emoções... Aquela unidade do primeiro dia de aula foi se transformando. O "uníssono" agora era "Vários". 

Segundo dia de aula.
Os alunos agora não eram apenas um som, eles eram diferentes rostos que respondiam à chamada pelos diferentes nomes que lhe foram "determinados", mas que não os definem simplesmente. 

Uma semana de aula.
Aqueles rostinhos nomeados já tem idiossincrasias perceptíveis e já me fazem sorrir há alguns dias. Os pequenos seres, que têm entre 12 e 13 anos, já fazem parte dos pensamentos de uma professora motivada por eles e para eles. E isso me faz lembrar que eu sou alguém também porque eles existem. E isso me deixa feliz.

No fim de cada dia de aula, ele sempre é o primeiro, o único, mas não por ser igual aos outros, mas porque fez parte da vida de cada um daqueles indivíduos que estão lá me olhando na frente da sala... E eles, com seus olhares curiosos, fazem eu ter vontade de continuar as aulas, essa história sem fim, sorrindo.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

um quarto de século e as hipóteses.

– A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais [...] A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscados. Cada pisco é um dia. Pisca e mama, pisca e brinca, pisca e estuda, pisca e ama, pisca e cria filhos, pisca e geme os reumatismos, e por fim pisca pela última vez e morre. – E depois que morre?, perguntou o Visconde. – Depois que morre, vira hipótese. É ou não é? 
(LOBATO, Monteiro. Memórias de Emília, 1936)

Começo esse meu post de hoje assim, pensando nas hipóteses. 

Hoje, dia 30 de setembro de 2014, sou uma mulher de 25 anos de idade, tenho um quarto de século vivido. Pensando assim, às vezes me sinto uma velha: já faz 6 anos que tirei CNH (e ainda não pego na direção por medo de seiláoque), espero pra pegar o "próximo" ônibus sentada, recebo ligação da Renner e já acho que é conta atrasada, tenho amigos há mais de 10 anos, a maioria dos meus alunos têm em média 15 anos (socorro!). Por outro lado, me sinto tão próxima dos meus alunos que às vezes acho que não posso ter vivido "tanto", gosto de ver desenhos animados, uso camisetas com estampas da disney ou de super heróis, ainda uso all star, a maioria das roupas no guarda-roupa AINDA é de cor preta (viu, não era uma fase, mãe!) , ainda tenho dúvidas e crises existenciais de quando tinha 15 anos (mas com um pouquinho mais de reflexão teórica, o que não sei se é melhor ou pior), ainda tenho amigos que zoam nos comentários de postagens do facebook (do tipo "a vida me fez rockeira", ou "a Rafa já foi uma gordinha batuta"), ou que postam fotos avacalhadas no dia do meu aniversário, ou que me chamam pra "roubadas"... Por isso, essa citação das "Memórias de Emília" representa bastante do que eu penso da vida. Num piscar de olhos as coisas passam, num piscar de olhos já se passaram 25 anos, num piscar de olhos a gente cresce - ou diminui, num piscar de olhos a vida se vai... Sim, a vida se vai, e a gente tem que ter vivido tudo o que queria - ou o que precisava - pra ela ter valido a pena.
No dia do meu aniversário um tio meu faleceu, passei o dia ao lado da minha família, mas não em clima de festa. Isso me fez refletir sobre muitas coisas que eu acredito, penso, imagino, faço... As pessoas são preparadas para o nascimento, durante 9 meses - tanto os que estão para nascer, quanto os que vão cuidar (ou não) de quem nasce. E para a morte? Nós não nos preparamos devidamente? O que seria nos preparar para a morte? Saber viver a vida? Saber lidar com perdas? São tantas as perguntas que as possíveis respostas são infinitas. Infinitas hipóteses. 
Depois de tudo que passei (com o cushing e etc), comecei a pensar mais no que pode ter "depois" (ou não). As pessoas que nos deixam, que morrem por qualquer motivo que seja, tiveram seu tempo, sua missão, ou seja lá como quiserem chamar. Quem fica sempre vai sentir um vazio enorme, mas quem vai cumpriu o seu tempo. Nunca li muito sobre espiritismo, (sou batizada em igreja católica, fiz 1ª comunhão, nunca mais fui em uma missa) mas acredito que temos um tempo a cumprir e, sim, infelizmente algumas pessoas têm pouco tempo. Infelizmente apenas para quem fica no mundo terreno. Não sei no que eu acredito depois que "saímos daqui", mas me conforta pensar que existe um depois. Depois que morremos, viramos hipótese. Hipóteses infinitas na mente de quem fica. Hipóteses de coisas boas (e ruins) que não aconteceram, hipóteses de um encontro "no além", hipótese de que viraremos energia positiva, hipóteses... Quem me conhece sabe que eu não sou uma pessoa religiosa ou coisa do tipo, mas acredito sim num universo de energias e que estamos cercadas por elas. Por isso, nesse meu um quarto de século eu só posso desejar que as hipóteses da vida sejam todas energias positivas.
25 primaveras vividas com quem me ama, com quem eu amo. Sou grata a todos que já passaram pela minha vida, que ainda estão comigo e que ainda vão aparecer, que ainda são hipóteses ou que já foram. Principalmente, grata aos amigos que terei para sempre, sejam amigos de sangue, amigos de escolha, amigos que amarei nesta e em qualquer das estações. 

Se numa vida temos várias piscadas, desejo que todas essas piscadas sejam bem aproveitadas. Por todos nós. Viva a vida.

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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Run to the hills, run for your lives!

Braço de criança arrancado por um tigre. Assalto à mão armada. Acidente de carro, com morte. Depressão e suicídio. Guerra por territórios. Guerra por religião. Essas foram algumas notícias que recebi nos últimos dias. Quem é o culpado por isso tudo? O ser humano.
Não, eu não tenho vergonha de ser uma "pessoa", mas fico bastante triste por me sentir inútil em tantos momentos, em saber que não há o que fazer, simplesmente certas coisas acontecem. Há uns 4 meses, fui assaltada, à mão armada, saí viva, graças a Deus, a um anjo da guarda, ao acaso, a qualquer coisa maior que eu. Esta semana, meu irmão levou um soco pois o assaltante não conseguiu pegar nada dele e tinha muita gente na rua. Percebam:  MUI-TA GEN-TE NA RUA! Exato. Não há o que impeça alguma ação dessas. Ninguém faz nada, pois têm medo justamente de "sobrar pra eles". O que há para fazer? Em qualquer momento que me pego pensando em como a vida é curta e pode nos ser tirada de uma hora pra outra, eu choro, sim. O que fazer para confortar meu irmão e infinitas outras pessoas? Não sei.
Não sei, porque sei que a vida é incerta. Já passei por problemas de saúde que deixaram isso bem claro, mas agora, a preocupação é outra e envolve muitas pessoas, no mundo inteiro.
Lembrei de uma frase que define exatamente a situação: "O homem é o lobo do homem", que foi falada originalmente por Plauto (na Antiguidade Clássica), e posteriormente por Hobbes (na Idade Moderna). E não é que continua fazendo sentido? Não é à toa que clássico é clássico. Nesse caso, infelizmente. Sobre essa frase, o que se diz é que os homens "num estado natural", o que prevalecia era a lei dos mais fortes, ou seja, uma briga constante por sobrevivência. Posteriormente, o que se disse é que deveria haver um Estado que regulasse essa suposta "briga constante". Fica a reflexão: regula? Essa briga constante acabou?
O homem cria máquinas que trazem facilidades e ao mesmo tempo perigo pra si mesmo, cria produtos e novas necessidades que despertam no outro uma vontade de consumo e desencadeia uma briga para conseguir este produto, ou território, ou "a mulher do próximo". Pode parecer ridículo colocar esses  exemplos no mesmo patamar, mas "Helena, de Troia" não foi o motivo de uma guerra? Pois é, a História se repete ao longo dos anos, nós damos continuidade sem refletir sobre isso. E aquela coisa de que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar é mentira, já foi comprovado cientificamente (não me pergunte de onde eu sei, porque eu li em algum lugar) , então, a metáfora segue o mesmo princípio. Meu irmão foi assaltado duas vezes, eu não quero que aconteça a terceira. Eu fui assaltada duas vezes (sim, a primeira vez quando eu estava na 6ª série do ensino fundamental, também na rua da minha casa!) e não quero que aconteça a terceira. Tenho algum controle sobre isso? Não. Vou parar de viver e me entocar em casa? Não. Até porque se isso acontecer, posso fazer mal a mim mesma e esse é o (novo ?) mal do século. Então o que fazer? Sair correndo para as colinas pra se salvar?
Não, eu não sei a solução pra isso, a vida não é uma redação do ENEM que temos que sugerir solução, mas é também uma questão de "manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo" e seguir em frente.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Sobre não ter mais cushing e ter insuficiência adrenal

O primeiro objetivo deste blog era registrar minha rotina, quando eu estava no hospital em São Paulo, há uns 4 anos. Depois, fui me empolgando, já que gosto de escrever, e fui escrevendo sobre várias coisas. Quando me livrei do cushing, tinha dito pra mim mesma que não falaria mais sobre isso, porém, toda semana recebo e-mails e mensagens de pessoas que passam ou passaram pela mesma situação que eu, ou que têm a doença, ou que gostariam de saber mais sobre as cirurgias e os sintomas.
Não sou médica, nem psicóloga, mas gosto de ajudar as pessoas e quando eu tinha recebido o diagnóstico a primeira coisa que fiz foi ir atrás de informações e também queria saber de outras pessoas com a doença. Infelizmente os primeiros blogs que li, sobre o assunto, eram de pessoas deprimidas que ficavam em casa se lamentando e chorando e brigando consigo mesmo. A parte de brigar consigo mesmo (e com os outros) fiz muito (e ainda faço), mas acho que não tem nada a ver com o cushing. 
Anyway, o motivo de eu estar escrevendo este post agora é justamente para esclarecer algumas decisões que tomei e também alguns procedimentos médicos que fiz. Sobre o cushing, o básico da história - quando descobri - já escrevi neste link. Como na ressonância magnética não apareceu imagem do tumor hiposifário, fiz cateterismo e expliquei neste link. Assim que saiu o resultado do cateterismo, fiz duas cirurgias transesfenoidais, uma em junho de 2010 e outra em novembro de 2011, que expliquei neste link e neste link. Depois disso, não houve resultado e o cortisol continuava aumentando, minha endocrinologista não quis retirar minha hipófise por completo, pois a glândula controla muitos hormônios e eu teria que fazer reposição de todos eles e correria outros riscos. A primeira opção para não comprometer a hipófise completamente seria a radioterapia, que eu teria que fazer um procedimento bastante assustador e acordada e eu já estava ficando traumatizada com essas coisas, expliquei neste link. Portanto, decidimos que eu faria a adrenalectomia bilateral, que expliquei neste link.  Demorou um pouco pra fazer resultado, como expliquei neste link, mas depois de um ano, comecei a emagrecer, fazer reposição hormonal com 5 mg de prednisona  e 0,2 mg de fludrocortisona, minha hipófise deixou minha tireóide um pouco louca e agora tenho que tomar 50 mg de levotiroxina também, mas nada muito extraordinário que eu já não estivesse acostumada. 
Mês passado fez dois anos da minha última cirurgia, de 82 kg passei a 54 kg, sem nenhum esforço (tirando as milhões de cirurgias, pós-operatório, essas coisas todas). Como retirei as duas adrenais que produziam o cortisol, agora tenho insuficiência adrenal primária e ando com uma pulseirinha avisando que, em caso de emergência, eu preciso fazer reposição. 
Hoje em dia a única coisa que tenho de sintoma da insuficiência adrenal é estar mais morena, e acho que devo ter falado sobre isso em algum post também. O tumor hipofisário é secretor de ACTH, que mandava informação para as adrenais (que agora não existem mais), portanto o nível do hormônio ACTH continua aumentando infinitamente e isso provoca melanodermia, que é o escurecimento da pele. Ou seja, o que tenho que lidar é com pessoas perguntando do meu bronzeado (cof cof) em pleno inverno. Agora sou magra e bronzeada, ó a ironia do destino.
Para os que me perguntam se eu recomendo tal e tal cirurgia, eu digo: cada organismo responde de uma maneira diferente, eu, por exemplo, fiz exames de imagem em que não havia imagem, portanto o cateterismo apontou o tumor, não deu certo do mesmo jeito. Fazer o que? O lance é confiar no médico/médica. Demorei bastante para encontrar uma endocrinologista em que eu confiei, e olha que passei por, pelo menos, 15 médicos diferentes até descobrir o cushing. Não sou médica, não fiz nenhum curso na área da saúde, mas se me perguntarem, já sei até diagnosticar cushing de tanto artigos que li (não só por recomendação do Dr. Google, mas por recomendação da minha médica também), e de tantas aulas presenciais que tive no Hospital das Clínicas (que é hospital escola e eu era a cobaia). 

Não me arrependo de ter feito todos esses procedimentos, aprendi bastante coisa em todos esses anos, principalmente a viver a vida, e não a viver a doença. Das pessoas que conheci com o cushing, duas me fizeram muito bem, porque eram/são muito felizes e me fizeram rir muito junto com elas, Jaque e Luci. Elas sorriam o tempo inteiro e isso me fez ver que o importante é procurar pessoas felizes para se relacionar e tirar dúvidas, hoje nós três não temos mais cushing, somos lindas, felizes e saudáveis (na maioria do tempo, claro). 
Então, o que eu recomendo? Encontre um médico em quem confiar, viva a vida e não a doença e boa sorte!