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sexta-feira, 17 de abril de 2020

sentimentos, crises e pandemia


Que loucura. Depois de um ano sem escrever, estou eu aqui de volta, em meio a uma pandemia. Muita coisa mudou nesse ínterim: o mundo inteiro está em quarentena, as aulas agora são online, as pessoas vão ao mercado de máscara, os antigos e famosos "motoboys" (que podem ser girls e podem não estar usando moto, e sim bicicleta, carro, a pé...) agora são os mais procurados e, também, explorados por nós e pelo capitalismo. 
Hoje, em uma aula online com oitavos anos, resolvi parar pra conversar com estudantes sobre o que estavam sentindo, pensando, ou como estavam agindo e transformando suas rotinas nesse período. É incrível como a falta de interação presencial afeta a gente e todas as coisas que estávamos acostumados. 
Muita gente afirma que, agora em tempos de isolamento social, as pessoas têm muito mais tempo para fazer coisas que não faziam antes. Temos mesmo? Ou estamos atolados em trabalho, em tarefas, em culpa por não estarmos sendo "produtivos" o suficiente de acordo com... quem? Me incomoda muito esse discurso de "não te faltava tempo, faltava disciplina" bla bla bla bla! Mais uma baboseira capitalista que exige de nós, em meio a uma pandemia, sermos máquinas de produzir conteúdo, máquinas de criação de ideias supostamente geniais, ou até "oportunistas". Estamos em crise. Crise de saúde. Crise emocional. Crise ambiental. São tantas crises que é difícil saber quais crises vêm primeiro. Inclusive, na atualidade, as pessoas podem ser divididas pelas suas prioridades nas crises. Há quem ache que o que vem primeiro é a crise financeira. Esses, normalmente, exigem dos que estão mais preocupados com a crise de fome que eles trabalhem pra manter o capitalismo girando. 
É tanta crise que eu até esqueci da minha antiga crise da escrita e lembrei que esse blog existia.
Vendo os posts antigos, eu iniciei esse diário virtual em abril de 2010.  DEZ anos atrás. É tempo. É mudança. Quem imaginaria que aquela Rafaella isolada em um quarto de hospital, que estava internada fazendo exames e que depois descobriria um tumor no cérebro, iria estar viva e saudável, passando uma crise mundial de saúde pra contar história...
Quando eu era bem mais nova, lembro de pensar que nada importante ou emocionante acontecia na minha vida. Nunca tinha quebrado um braço. Nunca tinha visto uma revolução. Nunca tinha tido um grande amor. Eis que um tumor no cérebro começou a mudar tudo que eu conhecia e sabia. Depois disso, veio o feminismo. Que baita revolução que o feminismo fez na minha vida! Fez eu entender relações de gênero, fez eu empoderar meninas, fez eu me envolver e me interessar por política. O feminismo fez eu entender que a sociedade é política. Eu me formei. Eu me tornei mestre. Eu descobri que minha mãe tinha uma doença autoimune. Eu casei. Eu trabalhei muito. Eu fui demitida. Eu sofri injustiças. Eu me recuperei. Tudo isso aconteceu pra eu morder a língua da Rafaella do passado que queria emoção. Agora estou eu aqui, há um mês em isolamento social dentro de casa, passando por uma pandemia mundial que daqui a muitos anos estará nos livros de História (junto com várias análises críticas sobre um líder de Estado completamente incompetente).
Lição disso tudo: a gente tem que cuidar com o que deseja. 
Mas a gente tem que aprender a viver, também. Tem que aprender a aproveitar os momentos "pequenos" e ver que isso também importa. Eu tô dentro de casa há um mês, tentando inovar em conteúdos online, morta de dor nas costas de ficar na cadeira em frente ao computador e corrigindo redações. Mas eu também tô vendo minha enteada começar a gostar de ler e ler livros inteiros em pouco tempo, eu tô conseguindo cozinhar com calma, eu não tô perdendo tempo dentro de um ônibus 4 horas por dia, eu tô vivendo bem (dentro do possível e dos meus muitos privilégios, por ter onde morar e ser uma pessoa com emprego) e eu quero lembrar disso daqui uns anos como um aviso pra todos mudarem seus hábitos, sua forma de ver o mundo. 
Acho que, embora eu esteja surtando com pressão psicológica, emocional e tudo o mais por causa de uma pandemia, eu vejo que é o momento da gente refletir, nem que seja 5 minutos, sobre como queremos ser daqui pra frente. Se queremos aceitar toda essa pressão do capitalismo acima de nossa saúde física e mental. Se vamos aceitar tanta gente não podendo escolher entre ficar em casa e correr riscos na rua indo trabalhar. Se vamos tentar mudar. 
Sei que normalmente eu escrevia e sempre finalizava com uma baita reflexão ou tinha um fechamento que me agradava, mas esse texto não tem um fim, porque eu ainda estou no meio de todo esse furacão e não sei quando vai ser o fim. Espero que os livros, ou e-books, de história daqui uns anos falem sobre como essa pandemia foi um divisor de águas.
Falando em água, é o que eu queria agora: um mergulho na água do mar, bem limpinha, depois de não ter ninguém nas ruas sujando...

E o que vocês querem agora? E pro futuro?

terça-feira, 13 de junho de 2017

Como cheguei até aqui: cushing, gordofobia e feminismo.

Dia desses, saí de casa de manhã cedo. Como manezinha conhecedora do clima de minha cidade, fui encapotada trabalhar, com várias camadas de roupa. Porém, eu não ficaria o dia inteiro fora, então não coloquei nenhuma camiseta de manga curta por baixo, saí com uma blusinha preta do pijama mesmo. À tarde, por um acaso, acabei indo me encontrar com uma amiga e fiquei com calor. Ela insistiu pra eu tirar o casaco, eu disse que não, porque estava com uma blusa do pijama, que era muito apertadinha, e ela soltou a máxima "Nossa, tu era a última pessoa que eu ia pensar que se preocupava com essas coisas...". Fiquei pensativa depois disso... O que era "se preocupar com essas coisas"?
Eu penso nessas coisas. Eu penso em várias coisas. Eu também penso no que os outros pensam.
Me acho bonita? Sim, na maioria das vezes, mas não 24h. Feminista sim. Insegura, às vezes, também. Também nasci nessa sociedade cheia dos padrões de comportamento e beleza, já sofri muito pra chegar até aqui. Já tive épocas de me achar feia 24h por dia. Essa época passou, porque encontrei Jesus o feminismo. Mas a gente tem que entender que ninguém é tão desconstruído, tão "superior" a ponto de estar totalmente livre das amarras sociais ou de preocupações diversas... Por que estou falando tudo isso? Pra voltar um pouco no tempo e contar sobre o "chegar até aqui"... Bom, vamos direto ao ponto...

Quem me conhece sabe de toda minha saga contra o cushing e o tumor hipofisário, enfim, passei por muitos procedimentos médicos, por várias mudanças no meu corpo, por muitos problemas hormonais que mudavam meu humor, minha autoestima e, principalmente, meu relacionamento com os outros e comigo mesma. Inicialmente, antes de ter o diagnóstico e perceber visivelmente a mudança que vinha ocorrendo no meu corpo, eu sofria muito. Sofri, dentre muitas outras coisas, preconceito. Esse preconceito me fez, hoje, abrir meus olhos e ter empatia por coisas que eu nunca imaginaria. O preconceito que sofri tem nome e é bem conhecido por aí: GORDOFOBIA.

O próprio nome já é bastante sugestivo e dá para ter uma noção do que representa na sociedade dos padrões de beleza. A gordofobia, muitas vezes, vem disfarçada de cuidado com a saúde, ou de "gosto pessoal", ou de "divergências", mas na verdade é puro preconceito... Eu sofri muito por isso, porque eu também acreditava que não era certo ser gorda, que eu estava ficando feia, que pessoas gordas possivelmente não seriam amadas. Isso é muito forte. A gente propaga essas coisas sem nem pensar e ISSO TÁ TUDO ERRADO.

Não é certo pensar que alguém é bonito em detrimento de outros apenas pelo peso, ou pela cor da pele, ou pela textura do cabelo, ou pela classe social, ou seja lá quais outros muitos preconceitos que a gente ajuda a propagar, porque aprende desde pequena! 
Eu parei para pensar em tudo isso depois que me curei do cushing, mas se eu tivesse acesso a todas essas discussões maravilhosas sobre feminismo - como tenho hoje - tenho certeza que não teria sofrido nem metade do que sofri... 

O problema da gordofobia, no meu caso (e de muita gente, provavelmente), é que aquela frase supostamente inocente que as amigas fala(va)m "ah, tô me sentindo tããão gorda hoje" (pesando 50kg) eram como agulhadas em mim, ou socos no meu estômago. Aquele "me sentindo gorda" soava pra mim como "eu tenho 50kg e me sinto gorda, você está com 80kg e está HORROROSA". Sofri, quando comecei a sentir os sintomas do cushing e fui procurar ajuda médica. Como o cushing faz o organismo aumentar a produção de cortisol no corpo e este hormônio em excesso faz engordar, eu só ouvia dos médicos "você tem que se gostar, precisar emagrecer". Tudo que a gente ouve corrobora com a gordofobia, confirma o medo de ser excluída por mudanças na aparência. Eu estava doente, ser gorda não era minha doença, mas foi o que os médicos até então me faziam acreditar, além de toda a sociedade...

Até meus 16 anos, eu era uma menina bem magra, com 40 e tantos quilos, que tinha problemas de autoestima porque não tinha curvas. Detestava ir à praia, usar roupas curtas, ou qualquer tipo de roupa que mostrasse muito do meu corpo. Depois, com o cushing, meus preconceitos vieram todos à tona e bateram na minha cara pra eu acordar e perceber que todos os corpos são lindos. Feliz ou infelizmente, eu consigo enxergar isso hoje. Infelizmente porque precisei passar por um tumor para ter empatia e para ver como outras pessoas se sentiam. Felizmente porque hoje eu consigo enxergar a beleza com outros olhos (gostaria de já enxergar há tempos...).

O que tudo isso tem a ver com o início da história? Insegurança faz parte da gente, não está errado ter altos e baixos, a gente se desconstrói e se reconstrói aos poucos... mas a gente precisa se fortalecer, a gente precisa olhar pra quem está do nosso lado e pra nós mesmos. Às vezes, nossos preconceitos estão misturados com medo. Não está certo propagar preconceitos. Não está certo ter medo do que é fora do padrão. Não está certo sofrer para se enquadrar em um padrão que exclui e prejudica a todas e todos. Não está certo julgar os outros pelo que são. 

A gente não nasce desconstruído... a bicha lacradora, a negra tombadora e a feminista empoderada também têm inseguranças e não nasceram "prontas", pelo contrário, todo mundo tem sofrimentos e, como diz um amigo meu, cicatrizes na alma (no meu caso, no corpo também, literalmente)... Esses sofrimentos nos fizeram chegar onde estamos, mas esses sofrimentos não são as únicas coisas que nos definem. Gosto de acreditar que são justamente as conversas positivas acerca dos meus sofrimentos que me fizeram enxergar a beleza das coisas e das pessoas. 

Hoje, me sinto muito mais bonita do que quando pesava os 40 e tantos quilos. Hoje, convivo com minhas estrias, com minhas muitas cicatrizes de muitas cirurgias, com celulite, com uma barriga nada chapada e, sim, eu amo meu corpo. Eu tenho inseguranças, muitas, mas eu tenho consciência de ser quem eu sou. Esse amor, porém, não apareceu da noite pro dia. Esse amor foi construído com muito sofrimento, mas também com muitas alegrias e com a ajuda de muitas mulheres maravilhosas que passaram (muitas ainda estão!) pela minha vida e me fizeram entender que eu sou uma pessoa privilegiada, em todos os sentidos.

Minha felicidade hoje é ser uma pessoa saudável - que convive com pessoas lindas - que pode contar sua própria história... 


domingo, 23 de abril de 2017

Eu, tu, nós: treze razões, nove verdades e baleias coloridas.

Nos últimos dias, a internet foi tomada por treze razões, nove verdades, baleias coloridas, muitas mentiras, vários problemas... Como sempre, sendo professora e viciada no mundo virtual, eu reflito sobre as situações e sobre como alguns debates atuais podem contribuir para conscientização e/ou ajudar algum(a) estudante... Pensando nisso tudo, porém, eu voltei alguns anos no tempo e me vi novamente no Ensino Médio. 
Nas redes sociais, tanta gente julga e exige dos outros, mas será que ninguém lembra de como é/foi difícil passar por determinadas fases da vida? 
Eu comecei minha paixão por livros porque, com 8 anos, me sentia sozinha na escola e passava recreios na biblioteca. No Ensino Médio, apesar de não me sentir mais tão sozinha, eu convivia com muitos amigos que se mutilavam; eu chorava sem motivo; eu ficava noites sem dormir pensando que eu deveria ser e fazer tanta coisa e não sabia se valia à pena; eu exigia tanto de mim mesma nos estudos que tinha dores de cabeça intermináveis; eu não admitia que pudesse não passar no vestibular, embora meus pais dissessem que não tinha problema; na minha mente, eu carregava o peso do mundo nas costas; eu odiava que as pessoas dissessem que era "só uma fase"; eu me sentia sozinha mesmo com muitos amigos...
Meu escape sempre foi a escrita e a leitura, comecei a escrever em blog quando eu tinha uns 13 ou 14 anos - antes disso eu já escrevia em diários desde os 8 anos. Também sempre tive apoio dos meus pais, sempre tive alguém para conversar, mas nem sempre isso é possível e tem gente que não dá conta de "sentir demais". Quando estava saindo do Ensino Médio, com crises existenciais (que permanecem) , com exigência do vestibular e logo em seguida um tumor como cereja do bolo, eu pensava em tanta coisa ao mesmo tempo que as lágrimas já eram minhas fiéis companheiras... 
Passar no vestibular, superar o tumor e ser professora foram meus objetivos e apenas por um motivo: eu queria, na minha mente de adolescente, ajudar outras pessoas a passarem por essa fase, eu queria que fosse mais fácil para outras pessoas e, se eu pudesse ajudar de alguma forma, essa seria minha "missão". Fazer este blog, inicialmente, por exemplo, era um escape de quando eu estava internada. Hoje, sei que ele ajuda muitas pessoas que passam ou passaram pelo Cushing. Sei, também, que os debates em sala de aula e conversas com estudantes ajudam muitas e muitos deles a passarem por determinadas coisas que não são conteúdos escolares. Eu não sou a Madre Teresa de Calcutá, mas ajudar outras pessoas me ajuda. Ninguém precisa fazer esforços hercúleos para ajudar alguém, ter empatia já é um começo, escutar o outro já é um começo, sorrir para alguém já é um começo...
Hoje, quando me sinto mal, coloco uma música bem alta, apago a luz e danço sozinha, deixo as lágrimas virem - assim como quando eu era adolescente - porque não preciso me reprimir, sei que colocar pra fora ajuda... mas depois disso, lavo o rosto e me fortaleço, porque sei que lá fora outras pessoas também passam por isso e eu não estou sozinha.

Pode parecer simplório, pode parecer ridículo, pode parecer insignificante, mas fazer as pazes com o espelho nos ajuda a ser melhor, também. Sejamos melhores, sendo nós mesmos, sendo melhores juntos.




sábado, 7 de maio de 2016

Sobre tumor no cérebro, radiocirurgia estereotáxica e paradoxos (ou não).

"Professora, mas a gente sabe que tu tens teus problemas (sim, tenho alunos no Facebook) e mesmo assim tu SEMPRE dá aula de bom humor, tu mostra que gosta de dar aula pra gente!"

E é com essa epígrafe que começo meu texto... 

Toda vez que eu escrevo, não consigo dissociar a "Rafaella ser humano com vida social" da "Rafaella professora", talvez por que maior parte da minha vida - agora - seja dominada pela profissão. Dia desses eu passeava pelo shopping com minha mãe e vi um quiosque de almofadas. Na hora, pensei e falei "deve ser muito deprimente vender almofadas, a vendedora tá ali parada olhando pro além e o tempo não passa", mais rápida ainda, minha mãe responde "mas ela não tem que preparar aulas, não tem que corrigir redações, não leva trabalho pra casa!". Fiquei com isso na cabeça. Pode ser bom que nada aconteça, porque depois nada acontece e tecnicamente se está livre, Mas pode ser bom ter muito o que fazer, porque muito acontece e os dias são mais inspiradores. Parece um paradoxo, não? Mas é simples: algo bom pode ser ruim e algo ruim pode ser bom. (Meus alunos responderiam rapidamente essa com "depende do contexto, né profe?")
E esse basicamente é o resumo do que eu quero falar: uma coisa pode ser positiva ou negativa, dependendo do ponto de vista. 

Bom (ou ruim, né?)... Como muita gente já sabe, eu tenho um tumor no cérebro. Inicialmente (lááááá em 2009), quando eu descobri, não havia imagem nos exames, o diagnóstico de Cushing (sobre isso, clique aqui) em decorrência do tumor hipofisário veio depois de um cateterismo (sobre isso, clique aqui). Depois de toda a Odisseia de tratamento e cura do Cushing (sobre isso, clique aqui), eu sabia que poderiam ocorrer outros problemas posteriores. 
O tumor no cérebro libera(va ?) um hormônio, o ACTH (já falei várias vezes sobre isso em vários posts...). Esse hormônio, em ordem inversa, controlava a produção de cortisol (o famoso hormônio do stress - no caso, ele CONTROLA o stress, quando está em quantidades equilibradas, mas em níveis elevados e descontrolados, obviamente, faz o contrário: estressa muito mais, física ou emocionalmente). Como eu fiz a adrenalectomia bilateral (sobre isso, clique aqui), ou seja, retirei as glândulas que produzem cortisol (porque, no meu caso, o hormônio estava descontrolado) , eu não produzo mais cortisol, maaas continuo (continuava?) produzindo muito ACTH pelo tumor, porque o tumor continuava lá no cérebro brincando de me deixar bronzeada (a melanodermia, que já falei em vários posts). O "porém" do tumor continuar lá produzindo hormônio e mandando "informação" pra lugar nenhum (porque eu não tenho mais as glândulas para quem o tumor mandava informação pra produção de cortisol) é que o tumor poderia crescer, porque estava sendo muito estimulado pela produção hormonal que não era "liberada". A última cirurgia que me curou do Cushing foi em 2012. O tempo passou correndo e não percebi que já se foram 4 anos. Todo ano eu faço ressonância magnética pra controlar o tumor (e nunca tinha aparecido nas imagens, porque o tumor era ínfimo, tinha milímetros insignificantemente problemáticos) e ano passado, não sei por que cargas d'água, não fiz ressonância. No começo deste ano, como sempre fazia, retornei à consulta com minha endócrino e fiz a ressonância e... tchanam! Lá estava o diagnóstico: formação neoplásica recidiva de macroadenoma de hipófise, também conhecido como Síndrome de Nelson (sobre isso, clique aqui). Não me surpreendeu o laudo, eu sabia que ocorreria cedo ou tarde, mas foi muito rápido. Me veio um turbilhão de lembranças sobre todo o tratamento, os exames, as cirurgias e isso me entristeceu. Uma das opções, em 2011, no começo do tratamento e depois da primeira cirurgia, era a radiocirurgia. Naquela época a radio era feita com um arco estereotáxico (clique aqui para ver imagens do que é isso), e quando vi um paciente com aquilo, apavorei e até escrevi um post sobre o filme de terror que  me fez lembrar! (sobre isso, clique aqui) Esse ano, quando o tumor estava lá com seus dois centímetros, a única opção seria a radiocirurgia (para explicações sobre isso, clique aqui), porque o local do tumor não se chega com cirurgia "normal" (como as outras duas que já fiz, a transesfenoidal - clique aqui sobre isso). Claro que lembrando daquela imagem de 2011, apavorei. Quando fui à consulta com o radiologista, porém, ele me acalmou, pois hoje em dia aquele arco foi "aposentado" e o paciente fica com uma máscara não invasiva (ou seja, que não fura minha cabeça). Fiquei feliz da vida com a notícia... até fazer a máscara (para imagem da máscara clique aqui). Nunca tive problemas com claustrofobia para fazer ressonância magnética, mas naquele dia, quando aquele silicone começou a endurecer no meu rosto, preso à maca... comecei a bater loucamente com a mão na parede e pedir pelamordedeus pra tirar aquilo da minha cara que eu não estava conseguindo respirar. Foi só uma mini-crise-de-pânico. Passou. As enfermeiras tiraram, respirei fundo, colocaram de novo e eu comecei a refletir sobre a vida, o universo e tudo o mais, e esqueci onde estava. Saindo dali, imaginei que demoraria, pelo menos, umas duas semanas pra me chamarem pra radiocirurgia, de fato.
Menos de uma semana, eu nem tinha me preparado psicologicamente pra ter crise claustrofóbica de novo e eu já estava lá (ontem, no caso). Pela manhã, dei aula normalmente, segurando o choro, e ouvi aquela frase lá do começo do texto, sem nem ter mencionado absolutamente nada aos alunos. Me acalmou durante as aulas. Chegando em casa, banho e logo em seguida ia para o procedimento. Tenho certeza que todo mundo sabe o que significa banho em momentos de tristeza/medo: lágrimas e reflexões. Saí do banho e lá vamos nós. O médico me acalmou, depois de ter visto minha cara inchada. O procedimento foi relativamente rápido, demorou mais para as enfermeiras e os médicos encontrarem a posição certa para iniciar a irradiação. 
É apavorante ficar com aquela máscara na cara? É! Mas sabe o que mais apavora? A luta contra a própria mente. O problema maior é controlar a mente e os pensamentos, autocontrole, basicamente. A maior parte do tempo fiquei pensando em coisas do cotidiano e o que eu tinha pra fazer na escola, ou em alguns momentos recentes que foram positivos, enfim, abstraindo a situação. Claro, alguns momentos o pensamento escorregava e eu abria os olhos, começava a prestar atenção na minha respiração, na dor que sentia na testa por causa daquela máscara apertando, aí concentrava e passava. No último momento que eu já estava quase desistindo, comecei a sentir a máscara apertar meu nariz, queria chorar, espirrar... acabou. Ufa. Depois do procedimento, só farei ressonância magnética novamente daqui seis meses, para controle. A dose de irradiação foi única. Deu tudo certo... tirando a dor de cabeça extraordinariamente insuportável que me deu à noite, mas que nada tinha a ver com o procedimento, foi supostamente de tensão, (tenho traumas de dor de cabeça, principalmente por causa da última cirurgia) enfim... Acabou. Estou aqui, agora escrevendo este texto sem dor de cabeça. 
E feliz, mesmo na dor (aquela que não dá pra localizar...)

Já devo ter falado sobre isso, todo ano eu escrevo "uma carta para mim mesma", no site "FutureMe.org". Ontem eu recebi uma, e chorei, como sempre... Finalizo como finalizei a carta há um ano:

Corte mais os cabelos se der vontade, seja mais você, não se arrependa, não espere nada de ninguém, confie somente nos seus sentimentos. E só.

Seja feliz em cada momento, mesmo nos ruins.

Amo você. E eu. E nós.



terça-feira, 22 de março de 2016

Is it too late now to say sorry? (ou, sobre aprender a perder)

Quem diria que algum dia eu começaria um texto intitulado com a letra de uma música do Justin Bieber? Eu, há uns tempos, nunca diria. Vejam, porém, como isso é possível.
Eu já falei em algum outro texto sobre minhas fases musicais, não estou na fase belieber, fiquem calmos, (a não ser quando toca na balada, ou quando meu irmão coloca pra tocar em casa, porque.. né? quem é que resiste a esse refrão? - E outra: eu diria até que estou numa fase remember-adolescência-punk rock, por influências externas, mas isso é papo pra outro texto. topic: OFF.) mas eu diria que isso serve de exemplo pra analisar a sociedade atual e o quanto as pessoas pré-julgam e "odeiam" sem saber do potencial das coisas (e pessoas). Não queria falar de política, mas nesses tempos sombrios (como diria Dumbledore) é inevitável. Meu posicionamento aqui, na verdade, vai soar mais como uma reflexão sobre o ensino e sobre a vida (e o universo e tudo o mais, como sempre).
Nos últimos meses aconteceram muitas coisas na minha vida, inclusive perdas. Perdas de gente querida, perdas de certezas e seguranças, muitas perdas. Cada uma delas veio com uma dor, mas também com um ensinamento (nem que fosse o de "toma na cara, levanta e continua andando). Eu já escrevi alguma vez que eu detesto aquele papo de auto-ajuda sobre "só dar valor quando se perde", mas sabe que isso começa a fazer um pouco de sentido? Primeira vez que essa frase fez "plim" na minha cabeça foi num dia que me olhei no espelho: eu usava um short e um top, dentro de casa. Parei e pensei "preciso fazer academia", depois eu pensei "não necessariamente para emagrecer, tô bem assim, afinal já estive com 80 kg, né?" E nisso me veio à mente tudo que eu passei até o momento, agora com meus 60 kg e sem Cushing. Nesse caso, passei por um bocado de coisas ruins e inseguranças e bad-vibes pra poder me sentir bem com meu corpo. Esse exemplo fez eu repensar meus pensamentos, consequentemente, meu olhar sobre o que se passa em minha volta. Minha primeira conclusão foi: a gente não sabe perder. "Perder? Como assim?" É, perder, em todos os âmbitos da vida...
Somos preparados desde o nascimento, durante nove meses, para "Ganhar a vida" e, quem está esperando do lado de fora, também é preparado. Quando alguém morre, porém, ninguém está preparado, não importa o tempo que se passe ao lado da pessoa. Viram? Essa é a perda mais clássica que todos sabem que vão passar e nós não aprendemos a lidar com ela. 
Um adolescente sai do Ensino Médio, estudou bastante, fez vestibular, não passou. Ele se preparou por muito tempo para "ganhar" aquela vaga, mas ele perdeu (porque ficou nervoso, porque não deu tempo, por qualquer motivo). Ninguém sabe o que dizer nesta hora, ninguém consegue tirar o sentimento de fracasso daquela pessoa. 
Traduzindo: nós não somos preparados para perder. 
Essa conclusão reflete no atual quadro político que o nosso país passa, muita gente não sabe "perder", toda e qualquer discussão acaba se transformando numa guerra e não há consenso. Há muito tempo eu não me abro publicamente sobre certos posicionamentos e opiniões minhas por pura preguiça e, também, por prezar pela minha sanidade e integridade física. Já passei por tanta coisa que não vou dar "sorte pro azar". Porém, "ficar quieta" me deixa tão mal quanto "vomitar" tudo que eu gostaria e ser "massacrada" pelos "opositores". 
Enfim... toda essa grande "introdução" sobre esse papo de "não saber perder" veio na minha cabeça quando fui na minha última consulta de rotina com a endocrinologista. Ela pediu exames, como de costume, os de sangue todos OK, mas o resultado da ressonância magnética veio com um "plus a mais" que nunca esteve nas ressonâncias anteriores: formação neoplásica recidiva de macroadenoma de hipófise, com 2cm. 
Há alguns anos, desde a última cirurgia em 2012, eu tinha colocado na minha cabeça que a minha novela em hospitais havia acabado. Aí esse resultado trouxe várias lembranças e isso me botou pra baixo. Aquele sentimento de "estou curada" deu lugar ao "PERDI", de novo. Dessa vez, porém, eu sei o que está acontecendo comigo, confio nos médicos, no diagnóstico e em mim mesma. Infelizmente, a cirurgia transesfenoidal (como as anteriores) não pode ser feita, pois o local que o tumor se encontra não é adequado para isso, mas existe outra possibilidade: a radiocirurgia. Inclusive, eu já falei sobre essa possibilidade (em 2011, vejam só), falei de um jeito meio assustador, mas quem sabe agora eu mude meu olhar (assim como eu mudei em relação ao Bieber, né? VAI QUE) - o link pro post de quando eu já falei sobre o procedimento é: HELLRAISER. Resumindo: o tumor, que antigamente era "invisível", agora cresceu. Isso aconteceu porque esse tumor produz o hormônio ACTH (que já falei algumas vezes, é o responsável por me deixar com esse bronzeado invejável - sqn), que manda(va) "informações" para as adrenais produzirem o cortisol. Como eu tinha o Cushing e meus níveis de cortisol estavam descontrolados, fiz a última cirurgia para a retirada das adrenais e hoje tomo o cortisol em comprimidos (com hormônios sintéticos, obviamente). PORÉM, o tumor continua mandando "informação" para as adrenais, mas elas não estão mais lá, portanto o nível de ACTH sobe exorbitantemente (porque ele era regulado em contraste com a minha produção de cortisol, que agora é inexistente) e esse nível exorbitante de ACTH faz com que o tumor cresça, isso se chama Síndrome de Nelson (e, sim, dá pra perceber que tenho um probleminha com as síndromes raras: Cushing, Addison, Nelson...)
Eu já sabia que isso aconteceria em algum momento, mas o tempo passa tão rápido que eu nem vi que já se passaram quatro anos da última cirurgia e esse tempo se perdeu e eu nem vi... O que eu vi, agora, depois de ter parado pra colocar a cabeça no lugar e "digerir" esse novo diagnóstico, é que eu sou outra pessoa completamente diferente - desde 2009, quando descobri o Cushing, ou 2012 quando fui curada do Cushing e, ser uma nova pessoa, coloca-me em outro posicionamento em relação às doenças e minha vida.
Já que não dá pra gente fugir do destino e das reviravoltas que a vida dá, com essas tragédias dignas da Antiguidade Clássica, nada melhor que escrever, como forma de catarse e isso continuar me dando forças pra lidar com as perdas e enfrentando novas batalhas...
Ah, e sobre aquele papo de política? Ou a gente pede desculpas, ou a gente lida com as perdas, né?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Diálogos em família: também precisamos falar sobre o que não tá bem.

Quem conhece a minha família, convive com a gente, ou tem um de nós adicionado no Facebook sabe que volta e meia eu compartilho pequenas anedotas que surgem em diálogos rotineiros entre meus familiares e, às vezes, amigos mais próximos. Não é querer me gabar, mas somos ótimos nas tiradas e zoeiras (não é à toa que nosso grupo do Whatsapp, aqui de casa, é intitulado "Casa da Zoeira"). Porém, é claro, que nem tudo são flores - até porque se fosse, coitados de nós, as flores aqui em casa sempre morrem secas ou o Abreu (nosso gato) come, então não seria uma boa coisa. A gente quase sempre grita um com outro, briga, se desentende, fala bastante palavrão, mas estamos aí, vivos, inteiros, aprendendo com a vida e com nossos diálogos. 
Nossos diálogos nem sempre são essas anedotas curtas e divertidas, muitas vezes temos discussões intermináveis e filosóficas sobre a vida, o universo e tudo o mais; um pouco disso é porque temos um administrador na área de engenharia, um administrador na área ambiental e indígena, uma assistente social, uma professora na área de Línguas e um publicitário, então pensem, nada aqui fica só no senso comum, a gente bate o pé, a gente fundamenta discussão até sobre baixar a temperatura do ar condicionado ou aumentar (quem quiser as referências dos dois argumentos é só me avisar, tenho ambos salvos!). Masàs vezes, a gente desiste da argumentação, abre uma cerveja e pede uma pizza, porque acabar em pizza nem sempre é uma coisa ruim.
Mas eu comecei a falar tudo isso pra publicizar um diálogo importante que tivemos aqui em casa. Nós sempre pensamos num momento "certo", ou se estamos "prontos" pra falar sobre isso, ou sobre qualquer outra coisa, mas talvez estejamos muito mais preocupados se os outros estão prontos pra saber de alguma coisa e julgar se é certo ou não. E, nesse caso, se alguém não está pronto pra saber, deveria começar a pensar sobre si mesmo, sobre a vida, o universo e tudo o mais e, principalmente, sobre preconceito, sobre respeito, tolerância e AMOR.
Todo mundo que me conhece há um tempo sabe que passei por poucas e boas e que eu sempre falei do apoio da minha família e dos amigos e isso foi o que me ajudou. Depois da minha última cirurgia e do cortisol controlado eu sou só sorrisos. E foi num dia de sorrisos, no carnaval de 2015 (um ano já!) saindo com meu irmão mais novo, que me pus a refletir, a observar o que eu tinha em minha volta, no caso, ele mesmo: meu irmão caçula. 
Eu sou daquelas que me preocupo exageradamente com as pessoas que gosto e tenho pavor só de pensar (e imaginar) em alguma coisa de ruim que possa acontecer. Digamos que eu seja uma ~bigsisterzilla~, ou qualquer termo que se encaixe nesse contexto. Dito isso, voltando para o carnaval, depois de uma conversa com uma amiga e depois de cair a ficha, cheguei em casa e conversei com a minha mãe, que, no dia seguinte, conversou com meu irmão mais novo, junto do meu pai. E, sim, meu irmão é gay. Já tinha passado pela nossa cabeça, mas como ele nunca tinha falado nada, a gente leva com a barriga e acha que tá tudo bem, mas não tá tudo bem. 
Não tá tudo bem porque ele não contou com medo de represália, não tá tudo bem porque mesmo conhecendo a gente ele achou que a gente poderia ter lidado diferente, não tá tudo bem porque ele ainda tem que se "achar pronto" pra falar sobre isso com as pessoas, não tá tudo bem porque ele tem dúvida se pode postar foto com o namorado, não tá tudo bem porque tem gente que não entende que ninguém tem nada com isso. Só ele. E nós, porque nós fazemos parte da mesma família e se ele tiver qualquer dúvida, ou problema, a gente tá aqui pra ele. A gente tá longe de ser uma família perfeita (põe longe nisso, senhor!) , mas a gente se transforma juntos, a gente aprende juntos, a gente cresce juntos e a gente tenta quebrar barreiras juntos, a gente conversa. Muito. 
Falando sobre isso com um amigo meu, que me conhece há anos, ele me surpreendeu com uma frase dizendo "Ah, Rafa, eu imagino que seja difícil porque nenhuma mãe quer que seu filho faça parte de uma minoria". Quando ele concluiu, logo depois de "quer que seu filho", eu percebi que nós somos cercados de gente querida. Mas nem todos são assim. Quem não está no nosso dia a dia é quem nos preocupa, e até nos dá medo.
Porém, não importa o que aconteça, nossa família exala coisas boas, ou pelo menos a gente tenta. E os diálogos nos ajudam com isso. Os diálogos nos ajudam a nos manter juntos, a nos aceitar, a nos fazer repensar algumas coisas que tínhamos por certo, ou por normal. 
Meus pais nos educaram (eu e meus irmãos) pra sermos pessoas críticas (algumas vezes eles se arrependem disso), seres pensantes e independentes. Por esse motivo, a cada dia nós todos nos "reformulamos". Talvez há um tempo eu não pensasse assim, há um tempo nós lidaríamos diferente com certas situações, mas a gente vai tentando fazer dar certo, ou se der errado, a gente volta lá pra parte de abrir uma cerveja e comer uma pizza e tentamos de novo.
Hoje, eu luto por um mundo em que o diálogo seja normal, seja corriqueiro, seja fundamentado, seja causa e consequência de pessoas mais felizes. Hoje, eu luto para que outros gays, bi, lésbicas, trans, ou qualquer outra minoria não precisem mais se preocupar em "terem que assumir" qualquer coisa sobre sua vida pessoal. Hoje, eu luto para que as pessoas sejam mais tolerantes com diferenças, e que SIM, recebam tratamentos diferenciados, porque cada um precisa de uma coisa diferente, mas que essa diferença seja adequada, que essa diferença seja o respeito, que essa diferença seja resultado de uma pessoa crítica e que também lute por um mundo melhor.
Por esses e tantos motivos, talvez, eu tenha escolhido minha área de atuação - com a Linguagem -, porque, pra mim, os diálogos são fundamentais na convivência social. Os diálogos devem acontecer quando tudo vai bem e quando não tá tudo bem. 
Precisamos de diálogos porque precisamos de amor.
E eu sei que aqui em casa temos muito dos dois.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

sobre ser mulher, andar de ônibus e o medo - não necessariamente nesta ordem.

Eu já tinha planejando há dias (ou talvez meses e até anos) escrever sobre isso, mas a rotina e a falta de motivação estavam me impedindo de tirar um tempo para isso. 
Nos últimos meses, as redes sociais e outras mídias estão bastante lotados de lutas, discussões, reivindicações e divergências. Desde um reboliço após um reality show em que uma menina de doze anos de idade foi assediada virtualmente e a criação da hashtag #MeuPrimeiroAssedio, a guerra dos sexos vem se acirrando cada vez mais. Apesar de eu concordar que tudo na nossa vida faz parte da formação do nosso ser, caráter, personalidade, enfim, falar em "meu" - ou seja, posse de uma coisa negativa - sempre me deixa com um pé atrás. Procuro tentar não carregar carga negativa para que isso não me transforme em alguém desacreditada na bondade das pessoas. Apesar disso, ler a timeline e as notícias não trazem coisas muito positivas. Tudo que me acontece, ou ao meu redor, me instiga a fazer uma anamnese e refletir...

Quando eu tinha - provavelmente - 11 ou 12 anos, estava na sexta série do Ensino Fundamental II, era um dia de sol e fui, como vários outros dias, de bermuda (do uniforme!) para a escola. Estava sentada fazendo atividade em dupla, lembro como se fosse hoje, e de repente... quando sentei e um colega sentou do meu lado, no meio das risadas entre a feitura do exercício pedido, ele deixa cair algo no chão e quando abaixa para buscar, olha para minha coxa e diz: credo, Rafa! Tu não depila a coxa? Eu, com doze anos de idade, que nunca tinha pensado nisso, fiquei quieta, dei risada. A risada pode ter sido uma defesa de uma menina que não sabia lidar com algo que ela não tinha noção que existia até então. Essa menina foi para casa; quando tomou banho, pegou a lâmina da mãe escondida e tirou aqueles pelos que foram motivo de risada e os tira até hoje, porque não se sente bem com eles.

Quando eu tinha 15 anos, estava no segundo ano do Ensino Médio, estudava no Colégio Militar, ficava o dia inteiro no colégio - tinha aulas de reforço, teatro, fazia trabalhos, exercícios de Química infinitos - e voltava tarde para casa. Num desses dias, eu, com sono, sentada no banco do ônibus próximo à janela, olhava as paisagens, enquanto quase dormia e acordava a cada lombada. Passei o percurso todo olhando pela janela. Próximo do ponto que eu ia descer do ônibus, me ajeito para levantar e o homem que estava no meu lado me pede desculpas e para de se masturbar e fecha a calça. Levantei, sem reação, fiquei alguns segundos olhando para todos no ônibus, que pareciam já estar me olhando há tempos, mas não falaram e não fizeram nada. Desci do ônibus chorando, sem saber o que fazer. Cheguei em casa e pedi para minha mãe me trocar de colégio, pois não queria pegar ônibus nunca mais.

Quando eu estava no cursinho pré-vestibular, conversava com um amigo (e ex vizinho do <3), de repente, durante a feitura de exercícios, uma moça levanta a mão para tirar uma dúvida com o professor. Embaixo do seu braço: pelos, muitos pelos. Minha reação foi de surpresa, susto, digo que talvez até repulsa. "Como uma mulher podia ter pelos? Que nojo!". Depois voltamos aos exercícios e nada foi falado.

Entrei na universidade. 
Ia ter que pegar ônibus todos os dias novamente, mas agora eu não sentava do lado de nenhum homem (e costumo ainda evitar isso). Aprendi maneiras de evitar isso: às vezes, colocando a bolsa no banco do lado, nunca fazer contato visual quando um homem entra no ônibus, procurar um assento que já tenha uma mulher do lado, sentar no banco do corredor para dificultar a passagem para o banco da janela, ou até mesmo ficar em pé - mas evitando contato com homens que param do lado, no corredor, e que parecem não ter nenhuma noção de espaço e ficam esfregando as partes íntimas na gente.
Encontrei a menina do cursinho num círculo de amigos anos depois. Ela ainda tinha seus pelos. Eu passei a entender que isso não tinha problema nenhum, que isso é uma opção pessoal e que isso é saudável. Apesar disso, não gosto deles em mim. Se foi um trauma, ainda não superei. Admiro as mulheres fortes o suficiente que combatem essas amarras todos os dias. 

Hoje, sou professora, ainda evito sentar perto de homem no ônibus, ainda atravesso a rua quando vejo homens ao longe, em locais não muito movimentados, ainda sofro periodicamente com depilação com cera quente e lâminas, ainda fico sem reação quando alguma coisa me acontece, como um homem tenta forçar beijo na balada, ou quando eu ando pela calçada e homens nos seguem com o olhar, ou infinitas outras coisas que chamam de "brincadeiras", ou dizem que "o mundo está muito chato, reclamam de tudo agora".

Ontem, uma ex-aluna, que tem doze anos e está no oitavo ano do Ensino Fundamental II, compartilhou no Facebook uma foto da sua coxa com uma marca de mão vermelha, explicando que aquilo era resultado de estar andando na calçada, usando short, e dois caras de moto passarem e darem um tapa e saírem correndo. E ela ficou sem reação imediata, depois apenas chorou, e xingou, sem mudar a situação que ocorreu. E ela conheceu o que eu conheci também há anos, e todas as mulheres conhecem um dia, muitas sem saberem o nome, mas sabem que acontece.

O nome disso é MACHISMO. Isso é resultado histórico de uma sociedade que sempre colocou as mulheres em segundo plano. Eu sempre evito compartilhar coisas polêmicas nas minhas redes sociais por querer evitar discussões que não vão dar em lugar nenhum, mas isso me mata (e mata várias mulheres) aos poucos. Ficar calada quando devia estar gritando. Viver como se estivesse tudo bem, quando na verdade estamos em constantes lutas. Lutas diárias pelo direito de ter direitos. Meus pais sempre me falaram, desde pequena: "Rafa, estuda, luta pelo que tu quer, pra nunca precisar depender de ninguém, principalmente de homem. Tu és capaz!" Levo isso comigo no subconsciente, consciente, ego, superego, etc... assim como tudo que a vida me fez passar. E, como dizem que tudo que passamos é parte de nós, tento ser uma professora que faz muitas perguntas e tenta desestabilizar os conceitos de tudo que os estudantes pensam que é "fixo". Se até a Química afirma que as coisas se transformam, eu, como professora de Linguagens - considerando-me também das Humanas <3 - preciso fazer meu papel pra tentar de alguma forma parar esse ciclo de sofrimento, que meninas de doze anos são iniciadas, sem nem saberem o que é.

Por favor, se for comentar ou querer se defender, antes reflita, coloque-se no lugar das mulheres. Você não vai conseguir sentir nem por um momento o que sentimos todos os dias - o medo de ser mulher - mas podes tentar ajudar a diminuir esse medo. Obrigada por fazer o mínimo.



terça-feira, 29 de julho de 2014

Sobre não ter mais cushing e ter insuficiência adrenal

O primeiro objetivo deste blog era registrar minha rotina, quando eu estava no hospital em São Paulo, há uns 4 anos. Depois, fui me empolgando, já que gosto de escrever, e fui escrevendo sobre várias coisas. Quando me livrei do cushing, tinha dito pra mim mesma que não falaria mais sobre isso, porém, toda semana recebo e-mails e mensagens de pessoas que passam ou passaram pela mesma situação que eu, ou que têm a doença, ou que gostariam de saber mais sobre as cirurgias e os sintomas.
Não sou médica, nem psicóloga, mas gosto de ajudar as pessoas e quando eu tinha recebido o diagnóstico a primeira coisa que fiz foi ir atrás de informações e também queria saber de outras pessoas com a doença. Infelizmente os primeiros blogs que li, sobre o assunto, eram de pessoas deprimidas que ficavam em casa se lamentando e chorando e brigando consigo mesmo. A parte de brigar consigo mesmo (e com os outros) fiz muito (e ainda faço), mas acho que não tem nada a ver com o cushing. 
Anyway, o motivo de eu estar escrevendo este post agora é justamente para esclarecer algumas decisões que tomei e também alguns procedimentos médicos que fiz. Sobre o cushing, o básico da história - quando descobri - já escrevi neste link. Como na ressonância magnética não apareceu imagem do tumor hiposifário, fiz cateterismo e expliquei neste link. Assim que saiu o resultado do cateterismo, fiz duas cirurgias transesfenoidais, uma em junho de 2010 e outra em novembro de 2011, que expliquei neste link e neste link. Depois disso, não houve resultado e o cortisol continuava aumentando, minha endocrinologista não quis retirar minha hipófise por completo, pois a glândula controla muitos hormônios e eu teria que fazer reposição de todos eles e correria outros riscos. A primeira opção para não comprometer a hipófise completamente seria a radioterapia, que eu teria que fazer um procedimento bastante assustador e acordada e eu já estava ficando traumatizada com essas coisas, expliquei neste link. Portanto, decidimos que eu faria a adrenalectomia bilateral, que expliquei neste link.  Demorou um pouco pra fazer resultado, como expliquei neste link, mas depois de um ano, comecei a emagrecer, fazer reposição hormonal com 5 mg de prednisona  e 0,2 mg de fludrocortisona, minha hipófise deixou minha tireóide um pouco louca e agora tenho que tomar 50 mg de levotiroxina também, mas nada muito extraordinário que eu já não estivesse acostumada. 
Mês passado fez dois anos da minha última cirurgia, de 82 kg passei a 54 kg, sem nenhum esforço (tirando as milhões de cirurgias, pós-operatório, essas coisas todas). Como retirei as duas adrenais que produziam o cortisol, agora tenho insuficiência adrenal primária e ando com uma pulseirinha avisando que, em caso de emergência, eu preciso fazer reposição. 
Hoje em dia a única coisa que tenho de sintoma da insuficiência adrenal é estar mais morena, e acho que devo ter falado sobre isso em algum post também. O tumor hipofisário é secretor de ACTH, que mandava informação para as adrenais (que agora não existem mais), portanto o nível do hormônio ACTH continua aumentando infinitamente e isso provoca melanodermia, que é o escurecimento da pele. Ou seja, o que tenho que lidar é com pessoas perguntando do meu bronzeado (cof cof) em pleno inverno. Agora sou magra e bronzeada, ó a ironia do destino.
Para os que me perguntam se eu recomendo tal e tal cirurgia, eu digo: cada organismo responde de uma maneira diferente, eu, por exemplo, fiz exames de imagem em que não havia imagem, portanto o cateterismo apontou o tumor, não deu certo do mesmo jeito. Fazer o que? O lance é confiar no médico/médica. Demorei bastante para encontrar uma endocrinologista em que eu confiei, e olha que passei por, pelo menos, 15 médicos diferentes até descobrir o cushing. Não sou médica, não fiz nenhum curso na área da saúde, mas se me perguntarem, já sei até diagnosticar cushing de tanto artigos que li (não só por recomendação do Dr. Google, mas por recomendação da minha médica também), e de tantas aulas presenciais que tive no Hospital das Clínicas (que é hospital escola e eu era a cobaia). 

Não me arrependo de ter feito todos esses procedimentos, aprendi bastante coisa em todos esses anos, principalmente a viver a vida, e não a viver a doença. Das pessoas que conheci com o cushing, duas me fizeram muito bem, porque eram/são muito felizes e me fizeram rir muito junto com elas, Jaque e Luci. Elas sorriam o tempo inteiro e isso me fez ver que o importante é procurar pessoas felizes para se relacionar e tirar dúvidas, hoje nós três não temos mais cushing, somos lindas, felizes e saudáveis (na maioria do tempo, claro). 
Então, o que eu recomendo? Encontre um médico em quem confiar, viva a vida e não a doença e boa sorte! 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

você é você (mas a gente muda)!

Eu poderia começar esse post de diversas maneiras, mas eu já nem sei mais como se começa um post, porque foram dois anos pensando em como começar um novo parágrafo na dissertação e eu mal podia parar pra respirar que já vinha aquela dor na consciência por não estar respirando mestrado.
Hoje, eu posso dizer: eu sou eu, eu sou mestra, eu sou saudável, eu sou linda. Sim. Essa última parte é muito importante. Depois de 3 cirurgias, uma graduação, um namoro fail, muito choro, baixa autoestima e tudo que vem junto com hormônio descontrolado e uma pessoa descontrolada veio então a insuficiência adrenal, a reposição de hormônio, o quase auto-controle, o mestrado, e sim, a maior felicidade de uma mulher com baixa autoestima: emagrecer! :D
Qualquer um que imagine que essa é a última coisa que se pensa quando se está doente está muito enganado, a primeira coisa é brigar com o espelho, depois a gente briga com todo mundo e tudo fica mais difícil. 
Tanto tempo sem escrever sem ninguém pra me julgar que acho que desaprendi, mas enfim... Me deu vontade de escrever hoje, porque mais um ciclo se fechou. Eu iniciei esse blog com o post você não é você, você tem cushing, então nada mais justo que encerrar essa fase de doença dizendo que hoje eu sou eu, mas como diz Alice (sim, a do Carroll, as usual), eu sei quem eu era hoje de manhã, mas já mudei muitas vezes, então, eu sou eu, mas eu estou em constante mudança.
Infelizmente a mudança que todos esperavam é impossível: eu não sou uma menina meiguinha e calma e cheia de paciência pra distribuir, eu sou a Rafaella que aprendi a ser, com experiências e histórias pra contar... Acho muito legal que em todas as fases difíceis da minha vida eu tive apoio de muitas pessoas, acho que uma parte muito importante da dissertação são os agradecimentos, por isso eu vou reescrevê-los aqui e pela primeira vez (pelo que eu me lembro) , vou citar nomes no blog, porque merecem... e lá vai:

“Tenho certeza de que estas não são as palavras certas”, disse Alice, e seus olhos se encheram de lágrimas de novo enquanto continuava. (CARROLL, 2002, p. 22).

A personagem Alice, de Lewis Carroll, na tentativa de recitar poemas ou lembrar-se de palavras que lhe pareciam tão fáceis de dizer, acaba derramando algumas lágrimas por achar que não está falando a coisa certa. Sempre pensamos que não sabemos o que dizer para agradecer alguém especial. Infelizmente, essa não é uma tarefa fácil e, portanto, consideramos que as palavras nunca são suficientes. Contudo, apesar das dificuldades, não posso, absolutamente, deixar de agradecer às pessoas que estiveram por trás desta dissertação, algumas indiretamente, outras diretamente, mas todas de maneira imprescindível.
Agradeço inicialmente aos meus avós paternos, Seu Osvaldo e Dona Rosa Amélia, e maternos, Seu Luiz (in memoriam) e Dona Zenir, por serem tão fortes e terem iluminado minha vida com a criação dos meus pais, o que refletiu na minha criação e inspirou todos os outros netos, netas, bisnetos e bisnetas.
Aos meus pais, Ronaldo e Angelita, por me apoiarem em todos os momentos de minha vida, dando-me forças para seguir em frente em minhas escolhas. Agradeço a eles, também, por escolherem tão bem os meus padrinhos, Renato e Fabiane, que são tão importantes quanto meus pais, e por me darem forças ao se orgulharem de qualquer (mínima que seja) conquista minha.
Aos meus irmãos, Junior e Kaio, por aguentarem meus momentos de irritação de irmã mais velha e serem tão compreensivos com tudo o que passamos.
A todos os meus amigos e, em especial, à Priscila, por entender minhas ausências e me incentivar a trocar alguns “momentos de lazer” pelos “momentos dissertativos”.
À minha médica, Dra. Amely, por ser mais paciente que eu e possibilitar que hoje eu esteja livre do cushing, saudável e forte para continuar.
À professora Tânia Ramos, por me apresentar à minha orientadora.
À minha orientadora, Eliane Debus, por ser tão compreensiva, pela delicadeza com as críticas, por todos os elogios, por acreditar que eu era (sou!) capaz e por exercer tão bem a função de orientadora.
Enfim, cada pessoa que passou por mim deixou uma marca na minha vida, e cada marca positiva se tornou um ponto a mais nesta dissertação. Agradeço a todos e espero que muitos outros pontos sejam acrescentados à minha vida e à de todos que já passaram por mim.

E ainda vale citar alguns agradecimentos de pessoas importantes diretamente na elaboração, que não estão especificadas, mas que foram muito importantes para mim: à Betina Von H. Seger, pelos desenhos maravilhosos que ela fez pra eu deixar minha dissertação mais linda! à Ana Olivo, por ter me ajudado com o abstract! E tantos e tantos outros que eu posso ter esquecido de citar, mas que são importantes do mesmo jeito.

Enfim, agora entro em uma nova fase, a de desempregada a de Mestre em busca do emprego dos sonhos só que não, o que vier é lucro. Claro que eu sempre vou arranjar alguma coisa pra reclamar, mas é porque eu só sou eu se eu tiver alguma coisa pra falar (e olha que isso foi o tempo que me ensinou, porque eu nunca bati nele), como diz meu irmão "agora você não tem mais cushing mestrado!" É, agora eu vou arranjar alguma coisa pra reclamar, mas primeiro eu tenho que agradecer e faço isso sempre, mesmo que às vezes em silêncio, mas agradeço a todos por fazerem parte da minha vida.

O bom de tudo isso é saber que mesmo mudando e mudando e mudando, minha família tá aqui (tanto a de sangue como a que eu escolhi) do meu lado e agora eu fiz as pazes com o espelho, então tá tudo bem. 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

o que será, que será?

E hoje foi mais um dia de consulta médica... o que era pra ser um dia de respostas. 
Mas não foi. 
Quer dizer, foi bem mais ou menos... 
Daqui 3 dias minha "adrenalectomia bilateral" vai fazer aniversário de 2 meses e nenhum quilo a menos. Minha endócrino (leia-se: médica endocrinologista) já me disse infinitas vezes que não tem como essa cirurgia ter dado errado, porque eu simplesmente não tenho como produzir mais cortisol.

Vamos às explicações: eu tenho um tumor hipofisário, no cérebro, e esse tumor produz ACTH em excesso. Esse ACTH é um hormônio que comanda a produção de outros hormônios, entre eles o cortisol. O cortisol é produzido SOMENTE nas glândulas suprarrenais (que é a mesma coisa que 'adrenais'). O ACTH em excesso mandava minhas adrenais produzirem muito cortisol, por isso eu tinha o cushing. Fiz várias cirurgias na hipófise pra tentar tirar o tumor, mas não deram certo, porque o tumor é tão ínfimo que não dava pra ver na minha hipófise mais ínfima ainda. Os médicos não quiseram retirar minha hipófise porque ela comanda a produção de vários outros hormônios, e isso me prejudicaria em muitas outras coisas, eu teria que repor todos os hormônios que o ser humano precisa pra ter uma vida saudável (e não são poucos). Então a opção foi retirar as adrenais que produziam cortisol, pois assim o ACTH não teria mais onde mandar, então não importa se ele está em excesso porque eu não teria como produzir mais cortisol (que era o que me fazia mal). Por esse motivo os exames de ACTH agora tem valores elevados, contrastando com os exames de cortisol (que devem ser) baixos. [eu ainda não sei o valor do meu cortisol, porque o resultado não saiu, mas com certeza deve estar baixo, porque meu ACTH tá bem alto]  

Cheguei na consulta, a médica me pergunta sobre tonturas, náuseas, perda de apetite, de peso e todas aquelas coisas que não aconteceram comigo... eu não tinha o que falar, ela não sabia porque não tinha acontecido e me perguntou se eu tinha certeza que meu remédio era de 5mg e se na farmácia não tinham dado 20mg enganado... Eu disse que tinha certeza (mas quando cheguei em casa fui conferir de novo, era 5mg mesmo, não sei se fiquei feliz ou triste). Aí ela me fala sobre uma paciente que fez cirurgia também há pouco tempo mas que já emagreceu 30kg e ela teve que aumentar a dose de cortisol porque a paciente passava muito mal. Imaginem minha decepção. Não que eu quisesse passar mal, muito menos emagrecer 30kg (porque se eu emagrecer tudo isso eu desapareço), mas aqui estou eu, sem saber se minhas reações são normais, se essa minha falta de concentração, meu sono desregulado, meu apetite normal, meu não-emagrecimento, e todas minhas pseudo-queixas são simplesmente uma reação diferente porque cada organismo é de um jeito, ou se eu tenho algum problema não catalogado ainda pela medicina.

Ah! E o ACTH alto não me prejudica em nada, pelo que a médica disse a única coisa que pode acontecer é o tumor crescer, mas como (acho que eu já disse isso) ele é minúsculo isso não tem problema, porque aí ele vai aparecer e aí é mais fácil fazer cirurgia pra tirar (sim, eu teria que fazer OUTRA cirurgia na hipófise), mas dizem que leva tempo, uns dez anos, ou mais (ou menos, sei lá).

Ah! [2] A única coisa que eu vi uma "mudancinha" foi meu rosto, tá afinando um pouquiiiiiiinho. Eu só fui notar porque parei pra ver fotos e comparar as datas, se não fosse isso eu ia jurar que tô a mesma coisa (porque nunca medi meu rosto com fita métrica, né). Pra não dizer que tô mentindo, vejam com seus próprios olhos clicando aqui.

Ah! [3] Uma informação inútil, mas que TODO mundo me questionava: sim, eu posso ingerir bebida alcoólica! Passei dois meses achando que não, porque eu li na bula da prednisona que não poderia e quando eu mencionava isso pra alguém... AQUELA cara de espanto surgia no rosto de quem quer que fosse, teve gente que me disse "ai, coitada! não pode beber? não queria tá na tua pele!" HELLO, PEOPLE! Eu tinha cushing! Eu tinha pressão alta, cansaço, estrias... TÔ GORDA por culpa do cushing! Beber é o de menos. Nunca fui muito disso mesmo (quando eu achava que não podia beber a minha vontade aumentou 200%, até porque antes eu nem tinha vontade... aquela história de que "o proibido é mais gostoso")
Bom, mas caso eu queira afogar minhas mágoas na bebida, pelo menos eu sei que não vai cortar o efeito do remédio.

Enfim, quer dizer, não tem fim nenhum, eu ainda vivo uma grande incógnita, porque nem sei direito que reações do meu organismo (ou falta delas) vem "a seguir"... daí eu fico naquela...

"Será, que será?
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho..."

sexta-feira, 15 de junho de 2012

adrenalectomia videolaparoscópica bilateral

Toda vez que eu saio de uma cirurgia fico pensando num título apropriado e estou num clima meio autoajuda. Dessa vez eu não tô nesse clima e nem quero pensar num título muito criativo.
Sim, fiz outra cirurgia, a adrenalectomia videolaparoscópica bilateral, traduzindo: tirei as duas glândulas suprarrenais. Agora não produzo mais nadinha de cortisol.
Essa cirurgia foi a última etapa contra o cushing, agora tenho que andar com uma pulseirinha dizendo que eu tenho "Insuficiência adrenal", porque em qualquer situação de estresse eu preciso tomar dose extra de cortisol em comprimido.
Não fiz muito alarde em redes sociais dessa vez, mas como eu não aguento, preciso "colocar pra fora".

Fiquei no Hospital Baía Sul, um dos mais caros de Florianópolis. Bela fachada. De todos os que eu passei, foi o mais despreparado. A cirurgia ocorreu tudo bem, os médicos - que são contratados pelos pacientes e não têm relação direta nenhuma com o hospital - foram ótimos e competentes.
Depois de ter sido diagnosticado o cushing e depois de eu ter passado por tantos médicos, ficamos (eu e o pessoal aqui de casa) calejados de procurar médicos com boas referências. Se tem uma coisa que eu aprendi foi: referência é essencial em tudo na vida.
Esse hospital nós não tínhamos referência, mas o médico (urologista, indicado pela minha endócrino, que eu confio 100%) operava lá e optou por esse por ser mais "Novo" e ter menos riscos de infecção e etc... Tudo bem, menos riscos de infecção por ter menos pacientes, mas em compensação também tem menos preparo e mais descaso.
Minha mãe foi colocar o carregador do celular na tomada, o espelho da tomada caiu. Fomos ligar o ar condicionado porque a janela não abria e tinha uma reforma no prédio do lado e a batição e o barulho eram significativos, aí o botão caiu e não ligou. Pedimos uma toalha de banho à noite, no outro dia de manhã pedimos de novo e a resposta foi "temos uma briga constante com a rouparia" (detalhe: a toalha não veio!)
Daí eu pergunto: como assim isso é um hospital caro? Cadê os gestores desse lugar?

A cirurgia foi na terça-feira, fui direto para a UTI e passei menos de 24 horas.
Mas... aquelas coisas de UTI, impossível dormir, morrendo de dor, aí, pra melhorar: enfermeiros que pensam que só porque estamos imóveis nós somos bonecos e ficam falando alto e fazendo palhaçada como se não tivesse ninguém ali.

Pausa para descrever a cirurgia:
As adrenais são glândulas que ficam próximas dos rins, pra retirada delas (no método por video) foi necessário fazer 5 furos na minha barriga. Um acima do umbigo, um abaixo do seio direito, um entre os seios, um abaixo do seio esquerdo e outro um pouco mais pra baixo do lado esquerdo. Eu não quis perguntar muitos detalhes e preferi saber só do principal, porque já tô cansada de procedimentos cirúrgicos e tudo o mais... o que eu sei é que dentro de um desses furos (do lado esquerdo embaixo do seio, que deve ter uns 2 ou 3 centímetros) foi inserido um tubo pra colocar gás dentro da minha barriga! Esse gás servia pra visualizar melhor os órgãos dentro de mim - pra "separar" os órgãos, dar uma distância pro médico poder mexer, ou algo do tipo - e também pra poder fazer o procedimento com a câmera e tudo o mais... ou seja, minha barriga foi inflada. Nem preciso dizer que esse gás me deixou pior que um baiacu, né?

Pois é, em tese, cirurgia na cabeça é mais perigosa, todo mundo fica apavorado se sabe que fiz cirurgia "no cérebro". Mas, sinceramente? Acho que essa foi bem mais dolorosa. Claro que eu estava sob efeito de anestesia geral, mas a recuperação, por ter cortes e detalhes do tipo, é mais chatinha... Me senti mais inútil que da outra vez, porque até pra levantar da cama precisava de ajuda. Imaginem uma barata de barriga pra cima que fica se debatendo tentando se virar e não consegue. É mais ou menos isso. Ainda tô toda dolorida, com curativos, não durmo desde terça-feira, pareço um zumbi e ainda tô com uma marca roxa que parece que levei uma pá nas costas. E só porque eu não consigo nem rir, porque minha barriga dói horrores, daí tô achando graça em qualquer babaquice que falam aqui em casa. (não é bem "qualquer", mas, dá pra entender, né?)

Como eu sei que o pessoal gosta de ler coisas trágicas, preciso contar uma parte sangrenta - literalmente. Quando eu já tinha saído da UTI, estava no quarto, cheia de fios e soro e aquela coisa toda. Mas o acesso que eu tinha pro soro e pra medicação já estava há muito tempo e precisava ser trocado. Ok. Nunca tive problema pra "ser furada", já tô craque... mas, as queridas em treinamento que tentaram pegar minha veia não estavam craque. Uma tentando e a outra olhando, reclamou mil vezes e fez brincadeirinhas dizendo que deixei as veias em casa e blablabla e eu fingindo que tudo estava bem e percebi que ela tava nervosa, então melhor nem falar nada pra não piorar a situação. Primeira tentativa: minha mão, aí a querida número 1 pede pra querida número 2 abrir o soro, começa a correr e minha mão a inchar, ou seja, tava fora da veia. Nem falei nada. Minha mãe só disse: tá inchando, tá fora, tira isso aí. Querida número 1 tirou e foi atrás de outra veia, ficou batendo no meu braço inteiro e apertou tanto com um garrote que tava quase decepando meu pulso, aí eu falei: tô vendo e sentindo pulsar aqui ó (apontei com o dedo), ela concordou disse que era ótima e que ia conseguir e ficou tagarelando, aí furou, pedi pra tirar o garrote (porque já não precisava mais, já que ela já tinha furado e meu braço já tava doendo, claro que não falei nada disso, só pensei), ela tirou e pediu pra querida número 2 abrir o soro de novo, aí ela abriu, aí minha veia começou a escorrer muito sangue e não deixou o soro correr, aí as duas arregalaram os olhos e pegaram uma toalha de rosto pra tentar estancar o sangue que não parava, a toalha ficou completamente manchada de vermelho. Eu só respirei fundo e falei "posso tomar banho primeiro? depois vocês tentam de novo". Por dentro eu queria arrancar a cabeça delas, mas deixar mais nervosa as pessoas que vão te furar não é uma boa estratégia. Aí ok. Depois tomei banho e tudo o mais, as duas foram chamar a enfermeira chefe pra tentar, pela terceira vez. Deitei na cama, olhei pro outro lado e respirei fundo. AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH, PARA, CACETE, PELO AMOR DE DEUS, NÃO TÔ SENTINDO MEU DEDO! POR FAVOR, EU TOMO OS REMÉDIOS EM COMPRIMIDO!
É, a querida número 3 furou alguma coisa que não era pra ter furado e meus dedos das mãos começaram a se contorcer e eu não estava conseguindo movimentar voluntariamente e doeu tanto que eu xinguei até a última geração da família dela. Pedi desculpas depois, lógico. Mas... só pra me deixar bem mais calma, ela pergunta pras outras duas "qual era a medicação que ela precisava tomar intravenosa agora?" As duas respondem "não sei, vou olhar no prontuário", aí elas voltam e dizem "ela não tem mais medicação", aí ela pergunta de novo "e por que vocês estavam tentando acesso nela?" As duas ficaram se olhando e não sabiam responder!
Ótima situação, heim? Daí ainda dizem que eu não tenho paciência.

Não dá ainda pra todos ficarem felizes porque era pra eu estar mais calma, porque não produzo mais cortisol extra e etc. Na verdade ainda tô com muito cortisol, porque tô tomando uma dose muito alta no pós-operatório.
Enfim, a luta contra o cushing acabou! A nova luta agora é uma surpresa pra mim! (e pra todo mundo que me conhece e está ao meu redor, logicamente)


Bom, acho que chega, não tô muito inspirada e essa dor nas costas e na barriga tá me impossibilitando de me deixar mais tempo na frente do computador.


A cirurgia deu certo, vim pra casa hoje, já consigo levantar sozinha, mas olha... quero distância de cirurgia e hospital por um longo longo longo longo longo tempo!

Espero em breve dizer que tô mais calma e menos chata...
embora eu ache que isso não tinha tanto a ver com cushing e lamento decepcioná-los e confessar assim...

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Post atualizado em 26 de setembro de 2013:
Apenas um adendo, sobre o Hospital Baía Sul. Meses depois da minha cirurgia, minha mãe fez uma cirurgia lá, a experiência dela foi outra completamente diferente, mas o caso é: ela fala muito bem do tratamento que teve e as instalações do hospital haviam melhorado bastante. Meu irmão também fez uma cirurgia lá e eu já fiz outros procedimentos lá depois disso, todos ótimos, sem reclamações. Então, não julguem o Hospital por esse post, cada um pode ter experiências diferentes (até eu mesma, em outro momento!). Meu objetivo aqui não era fazer propaganda contra (absolutamente!!!), mas apenas relatar o meu "momento" e a maneira como eu via a situação na época. Hoje estou bem e essa cirurgia foi a definitiva, que me curou finalmente. (como pode ser visto nos posts posteriores) Enfim, fica aqui a consideração. (:

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

nota explicativa, ou, momentos de "barato"

Não vou me ater muito a tantos detalhes, porque em uma nota explicativa geralmente a pessoa interessada só lê porque sabe do que se trata o assunto principal do texto a que se refere. Por isso, a escolha do título dessa postagem não é a toa (nunca é, mas enfim).

Pra quem acompanha minha novela, já sabe da minha história com o cushing...

Nos últimos dias, várias pessoas que não sabiam da minha "condição" acabaram sabendo das minhas aventuras de saúde por meio de uma forma um pouco sensacionalista, pelas redes sociais. Meus pais davam boletins médicos a todo instante e em meio a zilhões de mensagens de "melhoras, Rafa" mais zilhões de perguntas "o que aconteceu!?" surgiram.  
Resolvi tornar um pouco mais claro e também contar minhas peripécias, porque eu adoro uma fofoca. 
Há quem acredite que ficar dando detalhes da vida pessoal na internet pra todo mundo ver não é legal e etc, eu também acredito, mas ah... como eu fiz uma cirurgia no cérebro vamos jogar a culpa nisso, digamos que fiquei meio louca momentaneamente e vou sair falando (quase) tudo. 

Ok, chega de enrolação e vamos para as partes "sórdidas"... 

Acabou a graduação, começaram as aulas do mestrado, aquela coisa toda,  a discussão sobre o cushing tava meio de lado, mas a dosagem do remédio sempre aumentando e nada de o cortisol baixar... Fui em novas consultas, mais discussões sobre novos procedimentos, outras intervenções  e eis que surge o assunto radiocirurgia. Infeliz, ou felizmente, o convênio do plano de saúde não autorizou esse procedimento alegando coisas como "mas você nunca disse que tinha essa doença quando fez o plano, não podemos cobrir"  
Oi? Eu preciso saber das doenças que eu tenho ou vou ter ao longo dos anos pra poder ter plano de saúde? 
É, foi mais uma novela, tivemos (minha super mãe, logicamente) que ir atrás de advogados, ler direitos, fazer documentos e o escambal... e então  nesse ínterim o médico achou melhor mudar a opção e que eu devesse fazer uma nova intervenção cirúrgica (do mesmo naipe da que fiz ano passado em SP) e foi o que eu fiz. 
Passadas todas as problemáticas com o plano de saúde, finalmente autorizaram.

Primeiro tive que passar numa consulta com anestesista... na sala de espera o diálogo: 
moça aleatória: "oi, é pré-operatório também? o meu é pedra."
minha mãe: "a dela é o cérebro."
cri cri cri cri....
Segundos depois entra um médico falando com a recepcionista:
"ah, tô atrasado, que horas são minhas consultas? qual o consultório hoje?"
recepcionista: não, doutor, você não tem consulta hoje, ainda não liberei sua agenda, pode voltar pra casa"
Apavorei! O anestesista não sabia que dia era e nem onde ele tava! E agora? Quando chegou minha vez, perguntei para a doutora que me consultou se seria ela na minha cirurgia, ela disse que não, mas que o médico que apareceu ali também não consultava mais e que eu podia ficar tranquila. Ufa!

Fui internada no dia 31 de outubro (uuuuuuuuuuhhh!)
A cirurgia foi no dia 1 de novembro, uma terça-feira. Me deram um remedinho pra dormir, fui pra sala de cirurgia vendo flores, coisa mais linda, não lembro de nada. 
Foi aquela coisa, retirada transesfenoidal (= pelo nariz) do adenoma (= tumor) hipofisário (= no cérebro) . Depois fui para a UTI, meio grogue logicamente, meus pais me visitaram por alguns segundos e  voltaram mais tarde. 
Passei a noite na UTI, sem comparação com SP,  o simples fato de saber que eu não estava longe de casa me confortava infinitamente. Mas isso não foi o suficiente. 
O ar condicionado tinha que estar altíssimo e eu, que estava com dois tubos no nariz fazendo pressão até o cérebro, tinha que sentir vontade de espirrar e.... tchanam! Espirrei! 
Imaginem duas rolhas impedindo uma cachoeira de sair do seu cérebro e fazendo ele flutuar e bater nas paredes de seu crânio! Gritei, gritei, gritei... as enfermeiras saíram correndo fecharam as portas do quarto da UTI, que eu estava, e injetaram uma senhora seringa de morfina diretamente na minha veia, fiquei em estado de êxtase, parei completamente olhando pro nada, foi um "barato" só. 
Depois disso aparentemente tudo ok, saí da UTI e  fui para o quarto. O cirurgião passou lá para tirar os tubos e foi aquela euforia... sentei na poltrona e ele disse "preparada?" e eu "vamos lá!" (bem macha!) 
Da maneira que estava inchado meu nariz,  eu imaginava que o tubo ia só até a metade do nariz, mas quando ele começou a puxar (sem anestesia e sem piedade) o negócio não parava mais de sair! Eu, de olho fechado, meus pais e meus irmãos  de plateia olhando aterrorizados aquele cano gigante saindo... tremi. E ainda tinha a outra narina. Mas lá fomos nós e aquele objeto saiu. O médico foi embora, voltei pra cama, familiares foram embora, fica apenas minha mãe de acompanhante durante a noite.... eis que meu nariz começa a escorrer feito torneira e a dor na minha cabeça fica insuportável e sinto como se meu cérebro dançasse dentro da minha cabeça novamente! Dor insuportável, enfermeiras ligam pros médicos, de uma em uma hora me aplicando morfina e o cirurgião informa: amanhã você vai novamente para a cirurgia. 
Eu já sabia  dos riscos da cirurgia (já tinham me falado ano passado), o nome do que ocorreu foi "fístula".  A cola (um pedaço de gordura da minha barriga misturada com uma cola especial pro meu cérebro) da abertura que fizeram no cérebro, em consequência do meu espirro, caiu... e, por isso, o liquor do cérebro estava escorrendo e a pressão disparou e meu cérebro ficou flutuando. Essa fístula é extremamente perigosa porque é uma oportunidade pra tudo que é tipo de doença perigosa (meningite e afins), então, a urgência pra fechar era grande. 
Fui novamente para cirurgia para fechar a fístula. Na manhã seguinte, dessa vez bem acordadinha e sem ver flores, aliás, no caminho para o centro cirúrgico, uma maca com um corpo recém passado dessa pra melhor passou pela minha  frente... 
Deixando a parte mórbida de lado, a nova cirurgia foi toda ok, fui entubada novamente, anestesia geral e tudo o mais... mas dessa vez fiquei com uma sonda em apenas uma narina, no final da sonda (dentro da minha cabeça, na abertura onde estava a cola) tinha um balão para comprimir a cola e não deixar abrir novamente.
 Voltei para o quarto, sem ir para a UTI.  A recuperação foi completamente diferente da vez de SP, lá eu parecia que nem tinha feito cirurgia. Aqui, eu realmente parecia (tô parecendo, né) uma pessoa doente. Recebi massagem nos pés do papai, cuidados 24h da mamãe, visita de irmão mais novo pra ver procedimentos de terror e até irmão do meio foi dormir no hospital comigo.
Os médicos me visitaram todos os dias no quarto, e pareceram dessa vez bastante otimistas. Disseram que conseguiram visualizar o tumor, conseguiram retirar e agora precisamos ver as reações clínicas e rezar para que tudo ocorra como esperado. 
Por mais que eu queira que seja como um episódio do House e acorde no outro dia linda e maravilhosa e curada, os resultados são lentos. 
Fiquei 4 dias com a sonda no nariz e o otorrino (colírio para meus olhos, diga-se de passagem) tirou o balãozinho de mim disse que iria falar com a minha endocrinologista (mais um anjo na minha vida que passou noites sem dormir preocupada comigo!) e eu estava liberada! Agora só estou com o nariz assado de tanto assuar, mas faz parte...
Depois de descrever todas essas "coisas maravilhosas"... eis que faço minha reflexão. Faltei algumas aulas de metodologia de pesquisa, então não vou aplicar teoria nenhuma às minhas observações e vou apenas "falar ao vento"...


Sempre que acontece alguma coisa na nossa vida a gente pensa "o que eu fiz pra merecer isso?" 
Eu pensei nisso novamente essa semana... 
Eu não faço a minima ideia do que eu fiz pra merecer tudo isso...
... tanto cuidado, tantas visitas, tantas mensagens positivas, tanta coisa boa num momento aleatório na vida das outras pessoas. 
O mundo não para quando nós passamos por problemas, mas perceber que as pessoas se importam e significam muito pra gente é uma coisa sem explicações. 
Assim como alguns se perguntam porque acontecem desgraças eu me pergunto "por que acontecem tantas coisas lindas na nossa vida?"
Recebi visitas de amigos que não via há anos, recebi visitas (mais de uma vez) de amigos que vejo sempre, recebi mensagens, recebi energias boas... 

Acho que o grande mistério da humanidade é porque nós passamos a vida buscando explicações. Só acho que o que vale a pena é buscar explicações pras coisas boas que acontecem e perceber que são beeeeeeeeeeeem grandes.
Aquela história do pontinho colorido que se sobressai no meio de um pano branco é bem verdade. O que demora pra gente perceber é que o pontinho colorido é que dá a dimensão pras coisas em volta e nós é que temos que dar o valor certo a elas.
Ok, já comecei a filosofar e falar muito abstratamente, então chega. 
Enfim... em breve (ou não) escreverei mais de outros momentos de "barato", porque agora já tô precisando sair da frente do computador antes que fique uma poça de ranho no meu teclado.


p.s. percebe-se que não fiz nenhuma revisão no texto, né? mas, por favor, deem-me um descontinho... (vou ficar usando essa desculpa um tempão! hahaha)