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sexta-feira, 17 de abril de 2020

sentimentos, crises e pandemia


Que loucura. Depois de um ano sem escrever, estou eu aqui de volta, em meio a uma pandemia. Muita coisa mudou nesse ínterim: o mundo inteiro está em quarentena, as aulas agora são online, as pessoas vão ao mercado de máscara, os antigos e famosos "motoboys" (que podem ser girls e podem não estar usando moto, e sim bicicleta, carro, a pé...) agora são os mais procurados e, também, explorados por nós e pelo capitalismo. 
Hoje, em uma aula online com oitavos anos, resolvi parar pra conversar com estudantes sobre o que estavam sentindo, pensando, ou como estavam agindo e transformando suas rotinas nesse período. É incrível como a falta de interação presencial afeta a gente e todas as coisas que estávamos acostumados. 
Muita gente afirma que, agora em tempos de isolamento social, as pessoas têm muito mais tempo para fazer coisas que não faziam antes. Temos mesmo? Ou estamos atolados em trabalho, em tarefas, em culpa por não estarmos sendo "produtivos" o suficiente de acordo com... quem? Me incomoda muito esse discurso de "não te faltava tempo, faltava disciplina" bla bla bla bla! Mais uma baboseira capitalista que exige de nós, em meio a uma pandemia, sermos máquinas de produzir conteúdo, máquinas de criação de ideias supostamente geniais, ou até "oportunistas". Estamos em crise. Crise de saúde. Crise emocional. Crise ambiental. São tantas crises que é difícil saber quais crises vêm primeiro. Inclusive, na atualidade, as pessoas podem ser divididas pelas suas prioridades nas crises. Há quem ache que o que vem primeiro é a crise financeira. Esses, normalmente, exigem dos que estão mais preocupados com a crise de fome que eles trabalhem pra manter o capitalismo girando. 
É tanta crise que eu até esqueci da minha antiga crise da escrita e lembrei que esse blog existia.
Vendo os posts antigos, eu iniciei esse diário virtual em abril de 2010.  DEZ anos atrás. É tempo. É mudança. Quem imaginaria que aquela Rafaella isolada em um quarto de hospital, que estava internada fazendo exames e que depois descobriria um tumor no cérebro, iria estar viva e saudável, passando uma crise mundial de saúde pra contar história...
Quando eu era bem mais nova, lembro de pensar que nada importante ou emocionante acontecia na minha vida. Nunca tinha quebrado um braço. Nunca tinha visto uma revolução. Nunca tinha tido um grande amor. Eis que um tumor no cérebro começou a mudar tudo que eu conhecia e sabia. Depois disso, veio o feminismo. Que baita revolução que o feminismo fez na minha vida! Fez eu entender relações de gênero, fez eu empoderar meninas, fez eu me envolver e me interessar por política. O feminismo fez eu entender que a sociedade é política. Eu me formei. Eu me tornei mestre. Eu descobri que minha mãe tinha uma doença autoimune. Eu casei. Eu trabalhei muito. Eu fui demitida. Eu sofri injustiças. Eu me recuperei. Tudo isso aconteceu pra eu morder a língua da Rafaella do passado que queria emoção. Agora estou eu aqui, há um mês em isolamento social dentro de casa, passando por uma pandemia mundial que daqui a muitos anos estará nos livros de História (junto com várias análises críticas sobre um líder de Estado completamente incompetente).
Lição disso tudo: a gente tem que cuidar com o que deseja. 
Mas a gente tem que aprender a viver, também. Tem que aprender a aproveitar os momentos "pequenos" e ver que isso também importa. Eu tô dentro de casa há um mês, tentando inovar em conteúdos online, morta de dor nas costas de ficar na cadeira em frente ao computador e corrigindo redações. Mas eu também tô vendo minha enteada começar a gostar de ler e ler livros inteiros em pouco tempo, eu tô conseguindo cozinhar com calma, eu não tô perdendo tempo dentro de um ônibus 4 horas por dia, eu tô vivendo bem (dentro do possível e dos meus muitos privilégios, por ter onde morar e ser uma pessoa com emprego) e eu quero lembrar disso daqui uns anos como um aviso pra todos mudarem seus hábitos, sua forma de ver o mundo. 
Acho que, embora eu esteja surtando com pressão psicológica, emocional e tudo o mais por causa de uma pandemia, eu vejo que é o momento da gente refletir, nem que seja 5 minutos, sobre como queremos ser daqui pra frente. Se queremos aceitar toda essa pressão do capitalismo acima de nossa saúde física e mental. Se vamos aceitar tanta gente não podendo escolher entre ficar em casa e correr riscos na rua indo trabalhar. Se vamos tentar mudar. 
Sei que normalmente eu escrevia e sempre finalizava com uma baita reflexão ou tinha um fechamento que me agradava, mas esse texto não tem um fim, porque eu ainda estou no meio de todo esse furacão e não sei quando vai ser o fim. Espero que os livros, ou e-books, de história daqui uns anos falem sobre como essa pandemia foi um divisor de águas.
Falando em água, é o que eu queria agora: um mergulho na água do mar, bem limpinha, depois de não ter ninguém nas ruas sujando...

E o que vocês querem agora? E pro futuro?

domingo, 19 de novembro de 2017

Sobre distâncias.

A primeira vez, que eu lembro, que tive que lidar com distâncias foi quando eu tinha uns 9 anos de idade e fui morar em Joinville, porque meu pai foi transferido do trabalho. Eu fiquei longe da minha família, dos meus amigos, dos lugares que eu estava acostumada. O pouco tempo, em números, em que fiquei naquela cidade, me pareceu uma eternidade, porque eu estava longe de tudo que - a princípio - me fazia ser eu. A partir daí, eu fui aprendendo a lidar com distâncias do meu jeito: ficando só eu e a escrita, seja lendo ou escrevendo. 
Eu entendi que nada, nem ninguém estava impossibilitado de estar distante. A escrita, sim, poderia não ser distante. Não ser distante de mim.

Depois disso, lembro de ter lidado com distâncias de diversas formas, mas as que mais marcaram foram as distâncias que não eram físicas. Quando eu fiquei internada, eu fiquei longe da minha casa e da minha família de novo, mas não foi só fisicamente. Os relacionamentos não são os mesmos depois que as pessoas passam por problemas que não sabem explicar. A gente fica marcada. As distâncias deixam cicatrizes.
Conforme o tempo vai passando, a vida adulta vai cada vez mais dando as caras, as distâncias vão se tornando mais frequentes. As amizades vão se distanciando fisicamente, cada um toma um caminho que sonhou, planejou, ou que surgiu. As distâncias físicas, aí, se tornam também emocionais, e a gente vai conhecendo outros tipos de distâncias. 
A gente vai descobrindo que uma pessoa do lado pode estar distante. A gente descobre que pode parecer distante, mesmo sem querer. 

A gente descobre que as distâncias deixam tantas marcas que a gente se distancia até de si mesmo.

A gente lê o noticiário, as redes sociais, e tenta se distanciar da realidade. 
A gente se distancia das ideias que um dia passaram na nossa cabeça. 
Eu um dia pensei que se a gente conversasse com qualquer pessoa, as coisas poderiam se resolver.
As distâncias são tão traiçoeiras que elas não esperam muito tempo pra aparecer. 

A gente vive buscando encurtar as distâncias. 

Eu vivo tentando encurtar distâncias. Eu vivo querendo o amor do meu lado. 
Por isso eu escrevo.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Água: remédio pras feridas do corpo e da alma.



Feriadão. Uma semana para o inverno. Florianópolis. Praia. Água gelada. Paz.

Desde pequena, sempre gostei de estar perto do mar, o mar me fez e me faz mais forte. Hoje, quando preciso me acalmar, um passeio à beira mar e fones de ouvido são terapêuticos.

Em muitos momentos de crise, daqueles que a gente acha que não tem solução, longe do mar, eu abri a torneira do chuveiro, me joguei debaixo d'água e deixei os pensamentos me banharem, junto com a água corrente e, às vezes, com as lágrimas. 

A água lava os sentimentos ruins, a dor e faz a gente enxergar melhor. 

Às vezes, um mergulho desobstrui as vias nasais... e os pensamentos.
Às vezes, a gente preferiria que a água não tivesse nos feito enxergar melhor, porque a realidade talvez não seja o que queremos ver.

Aí a gente mergulha outra vez.
Aí a água gelada nos lembra que só estando vivo pra sentir o prazer da água tocando no corpo.

Aquela gota deslizante que percorre todas as curvas é o desejo de liberdade.

Água salgada é liberdade.






terça-feira, 28 de março de 2017

O que eu vou fazer com essa tal liberdade?

No início desse ano, pedi às alunas e alunos dos segundos anos do Ensino Médio, depois de algumas discussões, que escrevessem uma crônica sobre Liberdade. Os textos, dos mais variados pontos de vista, fizeram-me refletir sobre inúmeras coisas e - para variar - estudantes me deram um baile na criatividade e em lições.
Dentre os textos, um deles foi iniciado com muitos desvios de ortografia e de norma padrão da Língua, discorrendo sobre a liberdade de escrever sendo uma pessoa com problemas sociais e psicológicos; à medida que eu ia lendo - e me surpreendendo com a escrita, pois era de estudante que eu já conhecia, com excelentes notas e que normalmente não cometia equívocos de ortografia - eu refletia sobre o assunto. Ao final do texto, nova surpresa: uma assinatura. Texto em primeira pessoa, como se fosse uma carta de despedida de alguém que sofria preconceitos das mais variadas formas, inclusive linguístico. Porém, o eu lírico era de quem achou a carta e a transcreveu, refletindo sobre a situação da falta de liberdade de "ser". Um soco na minha cara. Outro texto, descrição da aula, desde o momento em que entrei na sala, até a hora da escritura, em que eu - com a ~autoridade~ de ser professora, - solicitei o texto, sem que alunas e alunos pudessem escolher a temática, dentre outras reflexões acerca do sistema de ensino (!!!!). 
Próxima aula. Outro assunto. Outra turma. Primeiros anos do Ensino Médio. Dia oito de março. Igualdade de gêneros. Identidades. Feminismo(s). Debates. Perguntas. "Professora, por que as feministas não gostam de receber parabéns no dia da mulher?"; "Professora, por que existe dia da mulher e não do homem?"; "Professora, por que as feministas não lutam para ter alistamento militar, ou pela licença paternidade?"; "Professora, feminismo é o contrário de machismo?"; "Professora, mas qual é o tipo de feminismo que não pode se depilar?"; "Professora, mas como existem mulheres que não são feministas?"; "Professora, mas a gente não tem espaço para dar nossa opinião"; "Professora, como eu sei que não estou sendo preconceituoso?"; "Professora, como uma mulher pode oprimir outra mulher?". Tudo ecoava na minha cabeça e eu só conseguia pensar nos textos escritos pela outra turma. Comecei do início, contando quem eu era, por que eu estava ali e por que eu pedi para todo mundo sentar no chão e fazer perguntas.
Ser professora é lidar com pessoas e dúvidas reais, é todo dia ter desafios. Não é como lidar com comentários raivosos de internet, onde as pessoas não estão olhando nos olhos umas das outras. Ser professora é ter consciência de que meus ideais e meus posicionamentos não são a verdade absoluta, é ter o cuidado de responder perguntas refletindo sobre as escolhas das palavras e deixando claro àquelas pessoas que estão na minha frente que elas são livres para criticarem, questionarem ou reformularem certos conhecimentos. Ser professora é saber que estamos em constante formação, é se desconstruir e aprender com as outras pessoas dentro da sala de aula. Ser professora é estar em constante interação. Ser professora é, basicamente, ser uma pessoa. Isso pode parecer redundante, tautologia, mas muita gente não tem consciência disso. Muita gente acha que ser professor é ser doutrinador. Muita gente acha que ser professor é usar sua autoridade para formar um exército de pessoas que pensam igual. Muita gente acha que ser professor é poder limitar os pensamentos de outras pessoas. Muita gente acha que ser professor é ser ditador. Muita gente que acha essas coisas não tem relação nenhuma com Educação, não estudou para ser educador(a) e - na maioria das vezes - nem defende a Educação. De todas as professoras e professores que eu conheço, nenhum deles faz parte dessa gente. 
As respostas das perguntas lá de cima? Foram construídas em conjunto com todas as pessoas que estavam dentro daquele ambiente. Estudantes entenderam que sala de aula é lugar para perguntas. Estudantes entenderam que uma professora pode ter posicionamentos diversos e respeitar opiniões alheias. Estudantes entenderam que Igualdade pode receber vários nomes, alguns chamam de Feminismo (e que não existe só um tipo de feminismo, assim como não existe só um tipo de mulher!). Estudantes entenderam que existem estereótipos sobre inúmeras coisas, sobre feminismo é só mais uma delas. Estudantes entenderam que às vezes somos preconceituosos, mesmo sem perceber. Estudantes entenderam que existem diferenças entre homens e mulheres, mas também existem diferenças entre as próprias mulheres. Estudantes entenderam o que é privilégio. Estudantes entenderam que na minha sala de aula podem questionar, criticar e serem livres para fazerem escolhas, mas que tudo na vida tem consequências. 
Ser uma professora feminista é ter o objetivo de ensinar que sala de aula é lugar de respeitar opiniões, posicionamentos, histórias de vida. Ser professora linguista e feminista é aprender a aceitar que, às vezes, as pessoas têm nomes diferentes para as mesmas coisas e algumas pessoas têm medo de usar certas palavras, porque podem ser socialmente prejudicadas. Ser professora literata e feminista é entender que as subjetividades existem, mas podem ser desconstruídas e, às vezes, isso acontece naturalmente. Ser professora feminista é entender que estudantes são seres em formação, assim como eu. Ser professora feminista é lutar pelos direitos das e dos estudantes serem o que quiserem. Ser professora feminista é vibrar de felicidade quando estudantes querem ser pessoas melhores e lutar do teu lado para que outras pessoas sejam felizes sendo como quiserem.

P.s. Comecei esse post pensando em falar sobre inúmeros assuntos acumulados, sobre o projeto Marias vão com as outras, sobre eu ser libriana e não saber o que fazer com a tal liberdade, sobre o tumor finalmente estar diminuindo... Mas as palavras saem livremente da minha mente para os meus dedos de forma diferente do que eu planejo, então... o que eu fiz com a liberdade de hoje foi esse post. :)

sábado, 7 de maio de 2016

Sobre tumor no cérebro, radiocirurgia estereotáxica e paradoxos (ou não).

"Professora, mas a gente sabe que tu tens teus problemas (sim, tenho alunos no Facebook) e mesmo assim tu SEMPRE dá aula de bom humor, tu mostra que gosta de dar aula pra gente!"

E é com essa epígrafe que começo meu texto... 

Toda vez que eu escrevo, não consigo dissociar a "Rafaella ser humano com vida social" da "Rafaella professora", talvez por que maior parte da minha vida - agora - seja dominada pela profissão. Dia desses eu passeava pelo shopping com minha mãe e vi um quiosque de almofadas. Na hora, pensei e falei "deve ser muito deprimente vender almofadas, a vendedora tá ali parada olhando pro além e o tempo não passa", mais rápida ainda, minha mãe responde "mas ela não tem que preparar aulas, não tem que corrigir redações, não leva trabalho pra casa!". Fiquei com isso na cabeça. Pode ser bom que nada aconteça, porque depois nada acontece e tecnicamente se está livre, Mas pode ser bom ter muito o que fazer, porque muito acontece e os dias são mais inspiradores. Parece um paradoxo, não? Mas é simples: algo bom pode ser ruim e algo ruim pode ser bom. (Meus alunos responderiam rapidamente essa com "depende do contexto, né profe?")
E esse basicamente é o resumo do que eu quero falar: uma coisa pode ser positiva ou negativa, dependendo do ponto de vista. 

Bom (ou ruim, né?)... Como muita gente já sabe, eu tenho um tumor no cérebro. Inicialmente (lááááá em 2009), quando eu descobri, não havia imagem nos exames, o diagnóstico de Cushing (sobre isso, clique aqui) em decorrência do tumor hipofisário veio depois de um cateterismo (sobre isso, clique aqui). Depois de toda a Odisseia de tratamento e cura do Cushing (sobre isso, clique aqui), eu sabia que poderiam ocorrer outros problemas posteriores. 
O tumor no cérebro libera(va ?) um hormônio, o ACTH (já falei várias vezes sobre isso em vários posts...). Esse hormônio, em ordem inversa, controlava a produção de cortisol (o famoso hormônio do stress - no caso, ele CONTROLA o stress, quando está em quantidades equilibradas, mas em níveis elevados e descontrolados, obviamente, faz o contrário: estressa muito mais, física ou emocionalmente). Como eu fiz a adrenalectomia bilateral (sobre isso, clique aqui), ou seja, retirei as glândulas que produzem cortisol (porque, no meu caso, o hormônio estava descontrolado) , eu não produzo mais cortisol, maaas continuo (continuava?) produzindo muito ACTH pelo tumor, porque o tumor continuava lá no cérebro brincando de me deixar bronzeada (a melanodermia, que já falei em vários posts). O "porém" do tumor continuar lá produzindo hormônio e mandando "informação" pra lugar nenhum (porque eu não tenho mais as glândulas para quem o tumor mandava informação pra produção de cortisol) é que o tumor poderia crescer, porque estava sendo muito estimulado pela produção hormonal que não era "liberada". A última cirurgia que me curou do Cushing foi em 2012. O tempo passou correndo e não percebi que já se foram 4 anos. Todo ano eu faço ressonância magnética pra controlar o tumor (e nunca tinha aparecido nas imagens, porque o tumor era ínfimo, tinha milímetros insignificantemente problemáticos) e ano passado, não sei por que cargas d'água, não fiz ressonância. No começo deste ano, como sempre fazia, retornei à consulta com minha endócrino e fiz a ressonância e... tchanam! Lá estava o diagnóstico: formação neoplásica recidiva de macroadenoma de hipófise, também conhecido como Síndrome de Nelson (sobre isso, clique aqui). Não me surpreendeu o laudo, eu sabia que ocorreria cedo ou tarde, mas foi muito rápido. Me veio um turbilhão de lembranças sobre todo o tratamento, os exames, as cirurgias e isso me entristeceu. Uma das opções, em 2011, no começo do tratamento e depois da primeira cirurgia, era a radiocirurgia. Naquela época a radio era feita com um arco estereotáxico (clique aqui para ver imagens do que é isso), e quando vi um paciente com aquilo, apavorei e até escrevi um post sobre o filme de terror que  me fez lembrar! (sobre isso, clique aqui) Esse ano, quando o tumor estava lá com seus dois centímetros, a única opção seria a radiocirurgia (para explicações sobre isso, clique aqui), porque o local do tumor não se chega com cirurgia "normal" (como as outras duas que já fiz, a transesfenoidal - clique aqui sobre isso). Claro que lembrando daquela imagem de 2011, apavorei. Quando fui à consulta com o radiologista, porém, ele me acalmou, pois hoje em dia aquele arco foi "aposentado" e o paciente fica com uma máscara não invasiva (ou seja, que não fura minha cabeça). Fiquei feliz da vida com a notícia... até fazer a máscara (para imagem da máscara clique aqui). Nunca tive problemas com claustrofobia para fazer ressonância magnética, mas naquele dia, quando aquele silicone começou a endurecer no meu rosto, preso à maca... comecei a bater loucamente com a mão na parede e pedir pelamordedeus pra tirar aquilo da minha cara que eu não estava conseguindo respirar. Foi só uma mini-crise-de-pânico. Passou. As enfermeiras tiraram, respirei fundo, colocaram de novo e eu comecei a refletir sobre a vida, o universo e tudo o mais, e esqueci onde estava. Saindo dali, imaginei que demoraria, pelo menos, umas duas semanas pra me chamarem pra radiocirurgia, de fato.
Menos de uma semana, eu nem tinha me preparado psicologicamente pra ter crise claustrofóbica de novo e eu já estava lá (ontem, no caso). Pela manhã, dei aula normalmente, segurando o choro, e ouvi aquela frase lá do começo do texto, sem nem ter mencionado absolutamente nada aos alunos. Me acalmou durante as aulas. Chegando em casa, banho e logo em seguida ia para o procedimento. Tenho certeza que todo mundo sabe o que significa banho em momentos de tristeza/medo: lágrimas e reflexões. Saí do banho e lá vamos nós. O médico me acalmou, depois de ter visto minha cara inchada. O procedimento foi relativamente rápido, demorou mais para as enfermeiras e os médicos encontrarem a posição certa para iniciar a irradiação. 
É apavorante ficar com aquela máscara na cara? É! Mas sabe o que mais apavora? A luta contra a própria mente. O problema maior é controlar a mente e os pensamentos, autocontrole, basicamente. A maior parte do tempo fiquei pensando em coisas do cotidiano e o que eu tinha pra fazer na escola, ou em alguns momentos recentes que foram positivos, enfim, abstraindo a situação. Claro, alguns momentos o pensamento escorregava e eu abria os olhos, começava a prestar atenção na minha respiração, na dor que sentia na testa por causa daquela máscara apertando, aí concentrava e passava. No último momento que eu já estava quase desistindo, comecei a sentir a máscara apertar meu nariz, queria chorar, espirrar... acabou. Ufa. Depois do procedimento, só farei ressonância magnética novamente daqui seis meses, para controle. A dose de irradiação foi única. Deu tudo certo... tirando a dor de cabeça extraordinariamente insuportável que me deu à noite, mas que nada tinha a ver com o procedimento, foi supostamente de tensão, (tenho traumas de dor de cabeça, principalmente por causa da última cirurgia) enfim... Acabou. Estou aqui, agora escrevendo este texto sem dor de cabeça. 
E feliz, mesmo na dor (aquela que não dá pra localizar...)

Já devo ter falado sobre isso, todo ano eu escrevo "uma carta para mim mesma", no site "FutureMe.org". Ontem eu recebi uma, e chorei, como sempre... Finalizo como finalizei a carta há um ano:

Corte mais os cabelos se der vontade, seja mais você, não se arrependa, não espere nada de ninguém, confie somente nos seus sentimentos. E só.

Seja feliz em cada momento, mesmo nos ruins.

Amo você. E eu. E nós.



terça-feira, 22 de março de 2016

Is it too late now to say sorry? (ou, sobre aprender a perder)

Quem diria que algum dia eu começaria um texto intitulado com a letra de uma música do Justin Bieber? Eu, há uns tempos, nunca diria. Vejam, porém, como isso é possível.
Eu já falei em algum outro texto sobre minhas fases musicais, não estou na fase belieber, fiquem calmos, (a não ser quando toca na balada, ou quando meu irmão coloca pra tocar em casa, porque.. né? quem é que resiste a esse refrão? - E outra: eu diria até que estou numa fase remember-adolescência-punk rock, por influências externas, mas isso é papo pra outro texto. topic: OFF.) mas eu diria que isso serve de exemplo pra analisar a sociedade atual e o quanto as pessoas pré-julgam e "odeiam" sem saber do potencial das coisas (e pessoas). Não queria falar de política, mas nesses tempos sombrios (como diria Dumbledore) é inevitável. Meu posicionamento aqui, na verdade, vai soar mais como uma reflexão sobre o ensino e sobre a vida (e o universo e tudo o mais, como sempre).
Nos últimos meses aconteceram muitas coisas na minha vida, inclusive perdas. Perdas de gente querida, perdas de certezas e seguranças, muitas perdas. Cada uma delas veio com uma dor, mas também com um ensinamento (nem que fosse o de "toma na cara, levanta e continua andando). Eu já escrevi alguma vez que eu detesto aquele papo de auto-ajuda sobre "só dar valor quando se perde", mas sabe que isso começa a fazer um pouco de sentido? Primeira vez que essa frase fez "plim" na minha cabeça foi num dia que me olhei no espelho: eu usava um short e um top, dentro de casa. Parei e pensei "preciso fazer academia", depois eu pensei "não necessariamente para emagrecer, tô bem assim, afinal já estive com 80 kg, né?" E nisso me veio à mente tudo que eu passei até o momento, agora com meus 60 kg e sem Cushing. Nesse caso, passei por um bocado de coisas ruins e inseguranças e bad-vibes pra poder me sentir bem com meu corpo. Esse exemplo fez eu repensar meus pensamentos, consequentemente, meu olhar sobre o que se passa em minha volta. Minha primeira conclusão foi: a gente não sabe perder. "Perder? Como assim?" É, perder, em todos os âmbitos da vida...
Somos preparados desde o nascimento, durante nove meses, para "Ganhar a vida" e, quem está esperando do lado de fora, também é preparado. Quando alguém morre, porém, ninguém está preparado, não importa o tempo que se passe ao lado da pessoa. Viram? Essa é a perda mais clássica que todos sabem que vão passar e nós não aprendemos a lidar com ela. 
Um adolescente sai do Ensino Médio, estudou bastante, fez vestibular, não passou. Ele se preparou por muito tempo para "ganhar" aquela vaga, mas ele perdeu (porque ficou nervoso, porque não deu tempo, por qualquer motivo). Ninguém sabe o que dizer nesta hora, ninguém consegue tirar o sentimento de fracasso daquela pessoa. 
Traduzindo: nós não somos preparados para perder. 
Essa conclusão reflete no atual quadro político que o nosso país passa, muita gente não sabe "perder", toda e qualquer discussão acaba se transformando numa guerra e não há consenso. Há muito tempo eu não me abro publicamente sobre certos posicionamentos e opiniões minhas por pura preguiça e, também, por prezar pela minha sanidade e integridade física. Já passei por tanta coisa que não vou dar "sorte pro azar". Porém, "ficar quieta" me deixa tão mal quanto "vomitar" tudo que eu gostaria e ser "massacrada" pelos "opositores". 
Enfim... toda essa grande "introdução" sobre esse papo de "não saber perder" veio na minha cabeça quando fui na minha última consulta de rotina com a endocrinologista. Ela pediu exames, como de costume, os de sangue todos OK, mas o resultado da ressonância magnética veio com um "plus a mais" que nunca esteve nas ressonâncias anteriores: formação neoplásica recidiva de macroadenoma de hipófise, com 2cm. 
Há alguns anos, desde a última cirurgia em 2012, eu tinha colocado na minha cabeça que a minha novela em hospitais havia acabado. Aí esse resultado trouxe várias lembranças e isso me botou pra baixo. Aquele sentimento de "estou curada" deu lugar ao "PERDI", de novo. Dessa vez, porém, eu sei o que está acontecendo comigo, confio nos médicos, no diagnóstico e em mim mesma. Infelizmente, a cirurgia transesfenoidal (como as anteriores) não pode ser feita, pois o local que o tumor se encontra não é adequado para isso, mas existe outra possibilidade: a radiocirurgia. Inclusive, eu já falei sobre essa possibilidade (em 2011, vejam só), falei de um jeito meio assustador, mas quem sabe agora eu mude meu olhar (assim como eu mudei em relação ao Bieber, né? VAI QUE) - o link pro post de quando eu já falei sobre o procedimento é: HELLRAISER. Resumindo: o tumor, que antigamente era "invisível", agora cresceu. Isso aconteceu porque esse tumor produz o hormônio ACTH (que já falei algumas vezes, é o responsável por me deixar com esse bronzeado invejável - sqn), que manda(va) "informações" para as adrenais produzirem o cortisol. Como eu tinha o Cushing e meus níveis de cortisol estavam descontrolados, fiz a última cirurgia para a retirada das adrenais e hoje tomo o cortisol em comprimidos (com hormônios sintéticos, obviamente). PORÉM, o tumor continua mandando "informação" para as adrenais, mas elas não estão mais lá, portanto o nível de ACTH sobe exorbitantemente (porque ele era regulado em contraste com a minha produção de cortisol, que agora é inexistente) e esse nível exorbitante de ACTH faz com que o tumor cresça, isso se chama Síndrome de Nelson (e, sim, dá pra perceber que tenho um probleminha com as síndromes raras: Cushing, Addison, Nelson...)
Eu já sabia que isso aconteceria em algum momento, mas o tempo passa tão rápido que eu nem vi que já se passaram quatro anos da última cirurgia e esse tempo se perdeu e eu nem vi... O que eu vi, agora, depois de ter parado pra colocar a cabeça no lugar e "digerir" esse novo diagnóstico, é que eu sou outra pessoa completamente diferente - desde 2009, quando descobri o Cushing, ou 2012 quando fui curada do Cushing e, ser uma nova pessoa, coloca-me em outro posicionamento em relação às doenças e minha vida.
Já que não dá pra gente fugir do destino e das reviravoltas que a vida dá, com essas tragédias dignas da Antiguidade Clássica, nada melhor que escrever, como forma de catarse e isso continuar me dando forças pra lidar com as perdas e enfrentando novas batalhas...
Ah, e sobre aquele papo de política? Ou a gente pede desculpas, ou a gente lida com as perdas, né?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Diálogos em família: também precisamos falar sobre o que não tá bem.

Quem conhece a minha família, convive com a gente, ou tem um de nós adicionado no Facebook sabe que volta e meia eu compartilho pequenas anedotas que surgem em diálogos rotineiros entre meus familiares e, às vezes, amigos mais próximos. Não é querer me gabar, mas somos ótimos nas tiradas e zoeiras (não é à toa que nosso grupo do Whatsapp, aqui de casa, é intitulado "Casa da Zoeira"). Porém, é claro, que nem tudo são flores - até porque se fosse, coitados de nós, as flores aqui em casa sempre morrem secas ou o Abreu (nosso gato) come, então não seria uma boa coisa. A gente quase sempre grita um com outro, briga, se desentende, fala bastante palavrão, mas estamos aí, vivos, inteiros, aprendendo com a vida e com nossos diálogos. 
Nossos diálogos nem sempre são essas anedotas curtas e divertidas, muitas vezes temos discussões intermináveis e filosóficas sobre a vida, o universo e tudo o mais; um pouco disso é porque temos um administrador na área de engenharia, um administrador na área ambiental e indígena, uma assistente social, uma professora na área de Línguas e um publicitário, então pensem, nada aqui fica só no senso comum, a gente bate o pé, a gente fundamenta discussão até sobre baixar a temperatura do ar condicionado ou aumentar (quem quiser as referências dos dois argumentos é só me avisar, tenho ambos salvos!). Masàs vezes, a gente desiste da argumentação, abre uma cerveja e pede uma pizza, porque acabar em pizza nem sempre é uma coisa ruim.
Mas eu comecei a falar tudo isso pra publicizar um diálogo importante que tivemos aqui em casa. Nós sempre pensamos num momento "certo", ou se estamos "prontos" pra falar sobre isso, ou sobre qualquer outra coisa, mas talvez estejamos muito mais preocupados se os outros estão prontos pra saber de alguma coisa e julgar se é certo ou não. E, nesse caso, se alguém não está pronto pra saber, deveria começar a pensar sobre si mesmo, sobre a vida, o universo e tudo o mais e, principalmente, sobre preconceito, sobre respeito, tolerância e AMOR.
Todo mundo que me conhece há um tempo sabe que passei por poucas e boas e que eu sempre falei do apoio da minha família e dos amigos e isso foi o que me ajudou. Depois da minha última cirurgia e do cortisol controlado eu sou só sorrisos. E foi num dia de sorrisos, no carnaval de 2015 (um ano já!) saindo com meu irmão mais novo, que me pus a refletir, a observar o que eu tinha em minha volta, no caso, ele mesmo: meu irmão caçula. 
Eu sou daquelas que me preocupo exageradamente com as pessoas que gosto e tenho pavor só de pensar (e imaginar) em alguma coisa de ruim que possa acontecer. Digamos que eu seja uma ~bigsisterzilla~, ou qualquer termo que se encaixe nesse contexto. Dito isso, voltando para o carnaval, depois de uma conversa com uma amiga e depois de cair a ficha, cheguei em casa e conversei com a minha mãe, que, no dia seguinte, conversou com meu irmão mais novo, junto do meu pai. E, sim, meu irmão é gay. Já tinha passado pela nossa cabeça, mas como ele nunca tinha falado nada, a gente leva com a barriga e acha que tá tudo bem, mas não tá tudo bem. 
Não tá tudo bem porque ele não contou com medo de represália, não tá tudo bem porque mesmo conhecendo a gente ele achou que a gente poderia ter lidado diferente, não tá tudo bem porque ele ainda tem que se "achar pronto" pra falar sobre isso com as pessoas, não tá tudo bem porque ele tem dúvida se pode postar foto com o namorado, não tá tudo bem porque tem gente que não entende que ninguém tem nada com isso. Só ele. E nós, porque nós fazemos parte da mesma família e se ele tiver qualquer dúvida, ou problema, a gente tá aqui pra ele. A gente tá longe de ser uma família perfeita (põe longe nisso, senhor!) , mas a gente se transforma juntos, a gente aprende juntos, a gente cresce juntos e a gente tenta quebrar barreiras juntos, a gente conversa. Muito. 
Falando sobre isso com um amigo meu, que me conhece há anos, ele me surpreendeu com uma frase dizendo "Ah, Rafa, eu imagino que seja difícil porque nenhuma mãe quer que seu filho faça parte de uma minoria". Quando ele concluiu, logo depois de "quer que seu filho", eu percebi que nós somos cercados de gente querida. Mas nem todos são assim. Quem não está no nosso dia a dia é quem nos preocupa, e até nos dá medo.
Porém, não importa o que aconteça, nossa família exala coisas boas, ou pelo menos a gente tenta. E os diálogos nos ajudam com isso. Os diálogos nos ajudam a nos manter juntos, a nos aceitar, a nos fazer repensar algumas coisas que tínhamos por certo, ou por normal. 
Meus pais nos educaram (eu e meus irmãos) pra sermos pessoas críticas (algumas vezes eles se arrependem disso), seres pensantes e independentes. Por esse motivo, a cada dia nós todos nos "reformulamos". Talvez há um tempo eu não pensasse assim, há um tempo nós lidaríamos diferente com certas situações, mas a gente vai tentando fazer dar certo, ou se der errado, a gente volta lá pra parte de abrir uma cerveja e comer uma pizza e tentamos de novo.
Hoje, eu luto por um mundo em que o diálogo seja normal, seja corriqueiro, seja fundamentado, seja causa e consequência de pessoas mais felizes. Hoje, eu luto para que outros gays, bi, lésbicas, trans, ou qualquer outra minoria não precisem mais se preocupar em "terem que assumir" qualquer coisa sobre sua vida pessoal. Hoje, eu luto para que as pessoas sejam mais tolerantes com diferenças, e que SIM, recebam tratamentos diferenciados, porque cada um precisa de uma coisa diferente, mas que essa diferença seja adequada, que essa diferença seja o respeito, que essa diferença seja resultado de uma pessoa crítica e que também lute por um mundo melhor.
Por esses e tantos motivos, talvez, eu tenha escolhido minha área de atuação - com a Linguagem -, porque, pra mim, os diálogos são fundamentais na convivência social. Os diálogos devem acontecer quando tudo vai bem e quando não tá tudo bem. 
Precisamos de diálogos porque precisamos de amor.
E eu sei que aqui em casa temos muito dos dois.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

sobre ser mulher, andar de ônibus e o medo - não necessariamente nesta ordem.

Eu já tinha planejando há dias (ou talvez meses e até anos) escrever sobre isso, mas a rotina e a falta de motivação estavam me impedindo de tirar um tempo para isso. 
Nos últimos meses, as redes sociais e outras mídias estão bastante lotados de lutas, discussões, reivindicações e divergências. Desde um reboliço após um reality show em que uma menina de doze anos de idade foi assediada virtualmente e a criação da hashtag #MeuPrimeiroAssedio, a guerra dos sexos vem se acirrando cada vez mais. Apesar de eu concordar que tudo na nossa vida faz parte da formação do nosso ser, caráter, personalidade, enfim, falar em "meu" - ou seja, posse de uma coisa negativa - sempre me deixa com um pé atrás. Procuro tentar não carregar carga negativa para que isso não me transforme em alguém desacreditada na bondade das pessoas. Apesar disso, ler a timeline e as notícias não trazem coisas muito positivas. Tudo que me acontece, ou ao meu redor, me instiga a fazer uma anamnese e refletir...

Quando eu tinha - provavelmente - 11 ou 12 anos, estava na sexta série do Ensino Fundamental II, era um dia de sol e fui, como vários outros dias, de bermuda (do uniforme!) para a escola. Estava sentada fazendo atividade em dupla, lembro como se fosse hoje, e de repente... quando sentei e um colega sentou do meu lado, no meio das risadas entre a feitura do exercício pedido, ele deixa cair algo no chão e quando abaixa para buscar, olha para minha coxa e diz: credo, Rafa! Tu não depila a coxa? Eu, com doze anos de idade, que nunca tinha pensado nisso, fiquei quieta, dei risada. A risada pode ter sido uma defesa de uma menina que não sabia lidar com algo que ela não tinha noção que existia até então. Essa menina foi para casa; quando tomou banho, pegou a lâmina da mãe escondida e tirou aqueles pelos que foram motivo de risada e os tira até hoje, porque não se sente bem com eles.

Quando eu tinha 15 anos, estava no segundo ano do Ensino Médio, estudava no Colégio Militar, ficava o dia inteiro no colégio - tinha aulas de reforço, teatro, fazia trabalhos, exercícios de Química infinitos - e voltava tarde para casa. Num desses dias, eu, com sono, sentada no banco do ônibus próximo à janela, olhava as paisagens, enquanto quase dormia e acordava a cada lombada. Passei o percurso todo olhando pela janela. Próximo do ponto que eu ia descer do ônibus, me ajeito para levantar e o homem que estava no meu lado me pede desculpas e para de se masturbar e fecha a calça. Levantei, sem reação, fiquei alguns segundos olhando para todos no ônibus, que pareciam já estar me olhando há tempos, mas não falaram e não fizeram nada. Desci do ônibus chorando, sem saber o que fazer. Cheguei em casa e pedi para minha mãe me trocar de colégio, pois não queria pegar ônibus nunca mais.

Quando eu estava no cursinho pré-vestibular, conversava com um amigo (e ex vizinho do <3), de repente, durante a feitura de exercícios, uma moça levanta a mão para tirar uma dúvida com o professor. Embaixo do seu braço: pelos, muitos pelos. Minha reação foi de surpresa, susto, digo que talvez até repulsa. "Como uma mulher podia ter pelos? Que nojo!". Depois voltamos aos exercícios e nada foi falado.

Entrei na universidade. 
Ia ter que pegar ônibus todos os dias novamente, mas agora eu não sentava do lado de nenhum homem (e costumo ainda evitar isso). Aprendi maneiras de evitar isso: às vezes, colocando a bolsa no banco do lado, nunca fazer contato visual quando um homem entra no ônibus, procurar um assento que já tenha uma mulher do lado, sentar no banco do corredor para dificultar a passagem para o banco da janela, ou até mesmo ficar em pé - mas evitando contato com homens que param do lado, no corredor, e que parecem não ter nenhuma noção de espaço e ficam esfregando as partes íntimas na gente.
Encontrei a menina do cursinho num círculo de amigos anos depois. Ela ainda tinha seus pelos. Eu passei a entender que isso não tinha problema nenhum, que isso é uma opção pessoal e que isso é saudável. Apesar disso, não gosto deles em mim. Se foi um trauma, ainda não superei. Admiro as mulheres fortes o suficiente que combatem essas amarras todos os dias. 

Hoje, sou professora, ainda evito sentar perto de homem no ônibus, ainda atravesso a rua quando vejo homens ao longe, em locais não muito movimentados, ainda sofro periodicamente com depilação com cera quente e lâminas, ainda fico sem reação quando alguma coisa me acontece, como um homem tenta forçar beijo na balada, ou quando eu ando pela calçada e homens nos seguem com o olhar, ou infinitas outras coisas que chamam de "brincadeiras", ou dizem que "o mundo está muito chato, reclamam de tudo agora".

Ontem, uma ex-aluna, que tem doze anos e está no oitavo ano do Ensino Fundamental II, compartilhou no Facebook uma foto da sua coxa com uma marca de mão vermelha, explicando que aquilo era resultado de estar andando na calçada, usando short, e dois caras de moto passarem e darem um tapa e saírem correndo. E ela ficou sem reação imediata, depois apenas chorou, e xingou, sem mudar a situação que ocorreu. E ela conheceu o que eu conheci também há anos, e todas as mulheres conhecem um dia, muitas sem saberem o nome, mas sabem que acontece.

O nome disso é MACHISMO. Isso é resultado histórico de uma sociedade que sempre colocou as mulheres em segundo plano. Eu sempre evito compartilhar coisas polêmicas nas minhas redes sociais por querer evitar discussões que não vão dar em lugar nenhum, mas isso me mata (e mata várias mulheres) aos poucos. Ficar calada quando devia estar gritando. Viver como se estivesse tudo bem, quando na verdade estamos em constantes lutas. Lutas diárias pelo direito de ter direitos. Meus pais sempre me falaram, desde pequena: "Rafa, estuda, luta pelo que tu quer, pra nunca precisar depender de ninguém, principalmente de homem. Tu és capaz!" Levo isso comigo no subconsciente, consciente, ego, superego, etc... assim como tudo que a vida me fez passar. E, como dizem que tudo que passamos é parte de nós, tento ser uma professora que faz muitas perguntas e tenta desestabilizar os conceitos de tudo que os estudantes pensam que é "fixo". Se até a Química afirma que as coisas se transformam, eu, como professora de Linguagens - considerando-me também das Humanas <3 - preciso fazer meu papel pra tentar de alguma forma parar esse ciclo de sofrimento, que meninas de doze anos são iniciadas, sem nem saberem o que é.

Por favor, se for comentar ou querer se defender, antes reflita, coloque-se no lugar das mulheres. Você não vai conseguir sentir nem por um momento o que sentimos todos os dias - o medo de ser mulher - mas podes tentar ajudar a diminuir esse medo. Obrigada por fazer o mínimo.



quarta-feira, 24 de junho de 2015

sobretudo as pretas.

Não, não enlouqueci. Acho que ainda não, pelo menos. O título desse texto poderia ser vários, mas eu achei que esse caberia. 
Há dias (ou meses, sendo sincera) que eu quero escrever sobre uma infinidade de coisas que me vem à cabeça, mas, como eu estou tomada pela rotina, sempre acabo deixando pra depois e esse depois nunca chega. Geralmente, as coisas que vão surgindo na minha cabeça eu anoto em palavras-chave num bloco de notas do celular e depois de um tempo não faço a miníma ideia do que eu queria dizer com aquilo. Nesse momento o que tenho no bloco de notas é: "sobre as cores que vemos o mundo"; auto sabotagem da felicidade"; "filme doador de memórias"; "jogo detetive"; "Schopenhauer sobre amor e as vontades"; "astigmatismo - se meus olhos tirassem fotos" e pra finalizar: uma lista de nomes próprios que me vêm à mente de vez em quando e eu anoto (não faço ideia do porquê, mas é mania, vai entender...). 
Enfim... voltando ao texto e ao título. Esse título foi uma pergunta que um aluno me fez hoje na sala de aula. Sim, isso mesmo, eu cheguei em sala e ele disse "Profe, o que significa "sobretudo as pretas?" e eu fiquei com cara de "Oi?", mas o contexto é que em outra aula ele perguntou a outro professor se ele gostava de azeitonas e o professor respondeu "sobretudo as pretas", o guri ficou intrigado porque não entendeu a resposta e emudeceu e me solta essa no meio da minha explanação sobre o gênero Crônica. Depois de todo contexto explicado e eu ter explicado que "sobretudo" tem papel de advérbio (matéria que eu já tinha dado anteriormente!), pedi que eles escrevessem uma crônica e o menino escreveu sobre o que? Isso mesmo, sobre o "sobretudo as pretas". Isso me faz refletir sobre a forma como vemos o cotidiano, eu sempre tento observar os detalhes, os diálogos, as atitudes das pessoas como se o tempo parasse pra eu ficar vendo o mundo como numa galeria de arte. Pena que não é e o tempo não para pra gente ficar observando. Há uns anos, quando eu estava nas primeiras fases da graduação, lembro de uma discussão sobre o flâneur e sobre a alma das ruas, é mais ou menos isso que sinto quando o mundo passa rápido pela gente, eu paro. Parece paradoxal, e pode até ser que seja, mas é uma espécie de terapia. Observar o tempo passar, as pessoas passarem, o mundo acontecer e você só existir. Esse aluno, quando me fez essa pergunta no meio da aula de outro assunto completamente diverso, fez-me refletir sobre como a gente faz tudo passar correndo e não para um pouco pra pensar nas palavras, pra refletir, pra questionar... "Sobretudo as pretas" poderia ser uma metáfora da vida, "sobretudo" é uma palavra utilizada como advérbio, ou seja, está junto de um verbo, uma ação, modifica uma ação; pode não ter significado dentro de um contexto, mas quando vêm junto de uma especificação, te dá um significado... ou seja, a ação do aluno trouxe uma reflexão, veio junto uma pausa, um momento pra observar. E pensar. A ironia de tudo isso é justamente que o gênero textual de que falávamos em sala tem como ponto de partida assuntos do cotidiano. E não é que gerou pano pra manga? 
Sobre as outras anotações do bloco de notas, lembrei de outro "acontecimento letivo". Dia desses, coincidentemente na mesma turma, ao término da leitura de uma crônica sobre uma "mãe de família" que parecia ter enlouquecido pois todos os produtos que utilizava em casa, ela virava pra uma câmera imaginária e falava sozinha, como em uma propaganda, discutíamos sobre manipulação e consumismo e eu lancei a pergunta "Vocês já jogaram The Sims?", a galera em coro respondeu positivamente e eu "vocês nunca pensaram que podem estar sendo comandados, como os Sims? Que tudo em volta é uma ilusão?". Pronto. Provoquei os pesadelos das crianças. Já começaram a xingar seus supostos "comandantes", outros diziam que seus "players" estavam de sacanagem porque cancelavam a ação de estudar minutos antes da prova etc etc até que um, especial, solta "Profe, tu deveria ser professora de filosofia! Fica fazendo a gente pensar nessas coisas sem resposta". Aí eu fiquei satisfeita. 
Hoje, lendo o bloco de notas e observando a janela do ônibus quando voltei da aula do "sobretudo as pretas", lembrei de uma aula de Filosofia que tive no Ensino Médio, não lembro exatamente em qual ano. Eu costumava adorar as aulas de Filosofia (sim, MUITO mais que de Português), principalmente porque eu poderia colocar pra fora os meus questionamentos sem resposta que eu ficava martelando na minha cabeça olhando pro céu à noite. Numa das aulas, o professor (que eu não lembro nome e se eu ver na rua, não faço ideia de quem seja) falava sobre Schopenhauer; ele sentou em cima da mesa e falava e falava e falava - a turma talvez nem estivesse prestando atenção, porque o pessoal não era muito disso na escola estadual que eu estudava, mas até que eles eram controlados, mas isso é outra história - e ao final da aula ele pediu que, em dupla ou grupo, escrevêssemos um pequeno texto das nossas impressões sobre o filósofo. Eu, como geralmente fazia, escrevi tudo e botei nome dos meus colegas (ou colega, aquele que odiava escrever e eu não me importava de botar o nome dele, porque ele era bom na hora de apresentar trabalho). Lembro até hoje do que pesquisei, da aula, do que li e mais ou menos do que escrevi... resumindo, o filósofo fala sobre as vontades humanas, sobre do que somos movidos, na minha opinião, nossas fraquezas... As vontades são como as expectativas, precisamos supri-las, satisfaze-las, pra poder alcançar a tão desejada felicidade, que é momentânea, mas se isso passar não seríamos mais felizes. É meio profundo pensar que uma aula de ensino médio me fez pensar e escrever um texto constatando que um filósofo disse que a moral da vida é a gente ser frustrado e por alguns momentos sermos felizes. Por que eu tô falando isso tudo? Porque hoje, nessa altura do campeonato, que eu não sou mais aquela aluna de ensino médio, mas sim professora Ensino Fundamental II, eu preciso pensar nessas expectativas e vontades que tenho e que deixo na mente dos alunos... Hoje, eu acredito que Schopenhauer me ajudou a ver que a vida é movida pelas nossas vontades e, às vezes, por algumas frustrações, mas a felicidade almejada não pode ser plena, porque assim não há o contraste e a sensação de objetivo alcançado. Felicidade contínua é apenas estabilidade, é monotonia, é meio tedioso. (não que eu queira levar na cara o tempo todo pra ~~contrastar~~ com a felicidade, né?), enfim... um pouco disso, pode ser ilustrado no filme "O doador de memórias" (é a tradução, não sei o nome original/que citei lá em cima, do bloco de notas), nesse filme as pessoas injetam toda manhã uma droga que as faz esquecer de todas as coisas ruins do mundo, todas as emoções, violência, tudo, eles vivem constantemente na "Paz" (se é que se pode dizer que existe paz, se não  há violência pra contrastar) e [ALERT SPOILER] ao final um senhorzinho doa suas memórias do passado e um menino começa a ter emoções novamente, ter tristezas, alegrias, vontades, VONTADES. Essas vontades que me fazem parar e observar o mundo de vez em quando, que me fazem chorar de vez em (sempre) quando , que me fazem rir... Sim, as vontades, a que nos dão frustrações, aquelas lá que movem montanhas (ou talvez o ditado não seja bem assim...) No fim, a filosofia é tanta na minha cabeça que talvez seja só questão de explicar que "sobretudo as pretas" é só um advérbio numa frase com elipse do verbo, ao invés de inspirar o menino a escrever uma crônica sobre isso...
Ou talvez não. 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Run to the hills, run for your lives!

Braço de criança arrancado por um tigre. Assalto à mão armada. Acidente de carro, com morte. Depressão e suicídio. Guerra por territórios. Guerra por religião. Essas foram algumas notícias que recebi nos últimos dias. Quem é o culpado por isso tudo? O ser humano.
Não, eu não tenho vergonha de ser uma "pessoa", mas fico bastante triste por me sentir inútil em tantos momentos, em saber que não há o que fazer, simplesmente certas coisas acontecem. Há uns 4 meses, fui assaltada, à mão armada, saí viva, graças a Deus, a um anjo da guarda, ao acaso, a qualquer coisa maior que eu. Esta semana, meu irmão levou um soco pois o assaltante não conseguiu pegar nada dele e tinha muita gente na rua. Percebam:  MUI-TA GEN-TE NA RUA! Exato. Não há o que impeça alguma ação dessas. Ninguém faz nada, pois têm medo justamente de "sobrar pra eles". O que há para fazer? Em qualquer momento que me pego pensando em como a vida é curta e pode nos ser tirada de uma hora pra outra, eu choro, sim. O que fazer para confortar meu irmão e infinitas outras pessoas? Não sei.
Não sei, porque sei que a vida é incerta. Já passei por problemas de saúde que deixaram isso bem claro, mas agora, a preocupação é outra e envolve muitas pessoas, no mundo inteiro.
Lembrei de uma frase que define exatamente a situação: "O homem é o lobo do homem", que foi falada originalmente por Plauto (na Antiguidade Clássica), e posteriormente por Hobbes (na Idade Moderna). E não é que continua fazendo sentido? Não é à toa que clássico é clássico. Nesse caso, infelizmente. Sobre essa frase, o que se diz é que os homens "num estado natural", o que prevalecia era a lei dos mais fortes, ou seja, uma briga constante por sobrevivência. Posteriormente, o que se disse é que deveria haver um Estado que regulasse essa suposta "briga constante". Fica a reflexão: regula? Essa briga constante acabou?
O homem cria máquinas que trazem facilidades e ao mesmo tempo perigo pra si mesmo, cria produtos e novas necessidades que despertam no outro uma vontade de consumo e desencadeia uma briga para conseguir este produto, ou território, ou "a mulher do próximo". Pode parecer ridículo colocar esses  exemplos no mesmo patamar, mas "Helena, de Troia" não foi o motivo de uma guerra? Pois é, a História se repete ao longo dos anos, nós damos continuidade sem refletir sobre isso. E aquela coisa de que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar é mentira, já foi comprovado cientificamente (não me pergunte de onde eu sei, porque eu li em algum lugar) , então, a metáfora segue o mesmo princípio. Meu irmão foi assaltado duas vezes, eu não quero que aconteça a terceira. Eu fui assaltada duas vezes (sim, a primeira vez quando eu estava na 6ª série do ensino fundamental, também na rua da minha casa!) e não quero que aconteça a terceira. Tenho algum controle sobre isso? Não. Vou parar de viver e me entocar em casa? Não. Até porque se isso acontecer, posso fazer mal a mim mesma e esse é o (novo ?) mal do século. Então o que fazer? Sair correndo para as colinas pra se salvar?
Não, eu não sei a solução pra isso, a vida não é uma redação do ENEM que temos que sugerir solução, mas é também uma questão de "manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo" e seguir em frente.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

você é você (mas a gente muda)!

Eu poderia começar esse post de diversas maneiras, mas eu já nem sei mais como se começa um post, porque foram dois anos pensando em como começar um novo parágrafo na dissertação e eu mal podia parar pra respirar que já vinha aquela dor na consciência por não estar respirando mestrado.
Hoje, eu posso dizer: eu sou eu, eu sou mestra, eu sou saudável, eu sou linda. Sim. Essa última parte é muito importante. Depois de 3 cirurgias, uma graduação, um namoro fail, muito choro, baixa autoestima e tudo que vem junto com hormônio descontrolado e uma pessoa descontrolada veio então a insuficiência adrenal, a reposição de hormônio, o quase auto-controle, o mestrado, e sim, a maior felicidade de uma mulher com baixa autoestima: emagrecer! :D
Qualquer um que imagine que essa é a última coisa que se pensa quando se está doente está muito enganado, a primeira coisa é brigar com o espelho, depois a gente briga com todo mundo e tudo fica mais difícil. 
Tanto tempo sem escrever sem ninguém pra me julgar que acho que desaprendi, mas enfim... Me deu vontade de escrever hoje, porque mais um ciclo se fechou. Eu iniciei esse blog com o post você não é você, você tem cushing, então nada mais justo que encerrar essa fase de doença dizendo que hoje eu sou eu, mas como diz Alice (sim, a do Carroll, as usual), eu sei quem eu era hoje de manhã, mas já mudei muitas vezes, então, eu sou eu, mas eu estou em constante mudança.
Infelizmente a mudança que todos esperavam é impossível: eu não sou uma menina meiguinha e calma e cheia de paciência pra distribuir, eu sou a Rafaella que aprendi a ser, com experiências e histórias pra contar... Acho muito legal que em todas as fases difíceis da minha vida eu tive apoio de muitas pessoas, acho que uma parte muito importante da dissertação são os agradecimentos, por isso eu vou reescrevê-los aqui e pela primeira vez (pelo que eu me lembro) , vou citar nomes no blog, porque merecem... e lá vai:

“Tenho certeza de que estas não são as palavras certas”, disse Alice, e seus olhos se encheram de lágrimas de novo enquanto continuava. (CARROLL, 2002, p. 22).

A personagem Alice, de Lewis Carroll, na tentativa de recitar poemas ou lembrar-se de palavras que lhe pareciam tão fáceis de dizer, acaba derramando algumas lágrimas por achar que não está falando a coisa certa. Sempre pensamos que não sabemos o que dizer para agradecer alguém especial. Infelizmente, essa não é uma tarefa fácil e, portanto, consideramos que as palavras nunca são suficientes. Contudo, apesar das dificuldades, não posso, absolutamente, deixar de agradecer às pessoas que estiveram por trás desta dissertação, algumas indiretamente, outras diretamente, mas todas de maneira imprescindível.
Agradeço inicialmente aos meus avós paternos, Seu Osvaldo e Dona Rosa Amélia, e maternos, Seu Luiz (in memoriam) e Dona Zenir, por serem tão fortes e terem iluminado minha vida com a criação dos meus pais, o que refletiu na minha criação e inspirou todos os outros netos, netas, bisnetos e bisnetas.
Aos meus pais, Ronaldo e Angelita, por me apoiarem em todos os momentos de minha vida, dando-me forças para seguir em frente em minhas escolhas. Agradeço a eles, também, por escolherem tão bem os meus padrinhos, Renato e Fabiane, que são tão importantes quanto meus pais, e por me darem forças ao se orgulharem de qualquer (mínima que seja) conquista minha.
Aos meus irmãos, Junior e Kaio, por aguentarem meus momentos de irritação de irmã mais velha e serem tão compreensivos com tudo o que passamos.
A todos os meus amigos e, em especial, à Priscila, por entender minhas ausências e me incentivar a trocar alguns “momentos de lazer” pelos “momentos dissertativos”.
À minha médica, Dra. Amely, por ser mais paciente que eu e possibilitar que hoje eu esteja livre do cushing, saudável e forte para continuar.
À professora Tânia Ramos, por me apresentar à minha orientadora.
À minha orientadora, Eliane Debus, por ser tão compreensiva, pela delicadeza com as críticas, por todos os elogios, por acreditar que eu era (sou!) capaz e por exercer tão bem a função de orientadora.
Enfim, cada pessoa que passou por mim deixou uma marca na minha vida, e cada marca positiva se tornou um ponto a mais nesta dissertação. Agradeço a todos e espero que muitos outros pontos sejam acrescentados à minha vida e à de todos que já passaram por mim.

E ainda vale citar alguns agradecimentos de pessoas importantes diretamente na elaboração, que não estão especificadas, mas que foram muito importantes para mim: à Betina Von H. Seger, pelos desenhos maravilhosos que ela fez pra eu deixar minha dissertação mais linda! à Ana Olivo, por ter me ajudado com o abstract! E tantos e tantos outros que eu posso ter esquecido de citar, mas que são importantes do mesmo jeito.

Enfim, agora entro em uma nova fase, a de desempregada a de Mestre em busca do emprego dos sonhos só que não, o que vier é lucro. Claro que eu sempre vou arranjar alguma coisa pra reclamar, mas é porque eu só sou eu se eu tiver alguma coisa pra falar (e olha que isso foi o tempo que me ensinou, porque eu nunca bati nele), como diz meu irmão "agora você não tem mais cushing mestrado!" É, agora eu vou arranjar alguma coisa pra reclamar, mas primeiro eu tenho que agradecer e faço isso sempre, mesmo que às vezes em silêncio, mas agradeço a todos por fazerem parte da minha vida.

O bom de tudo isso é saber que mesmo mudando e mudando e mudando, minha família tá aqui (tanto a de sangue como a que eu escolhi) do meu lado e agora eu fiz as pazes com o espelho, então tá tudo bem. 

terça-feira, 5 de março de 2013

sobre memória e esquecimento, ou, sobre felicidade e dor, ou ao contrário.


Conversando com a minha mãe, no hospital essa semana, a gente falava sobre a maravilha que é "esquecer". Ela teve que passar por uma cirurgia, em consequência da doença que ela tem, Crohn. No hospital é sempre um clima ruim, enquanto pacientes, ficamos de baixo astral e o mal-estar é constante. No entanto, eu, que passei por 4 cirurgias delicadas em +/- 3 anos, tentei de alguma maneira animá-la, dizendo que já não lembro das dores e do sofrimento que foi ficar no hospital. Ela passou a pior noite da minha vida junto comigo, quando meu cérebro dançava na minha cabeça. Foi uma sensação terrível, mas hoje já não sei mais descrevê-la, porque meu corpo esqueceu (ainda bem!). O caso é que esse processo de lembrar e esquecer é uma coisa tão louca, mas tão necessária e tão automática na nossa vida que a gente nem percebe e nem dá valor. Aliás, a gente não dá valor a inúmeras coisas quando estamos saudáveis, mas eu lembro de já ter falado disso e lembro também de comentar que odeio esses comentários do tipo "ah, mas às vezes a gente precisa passar por uma coisa ruim pra dar valor"... Eu acho que não precisa não! Assim como eu acho que não precisamos lembrar de tudo (que já passamos) pra saber o que queremos ou não pras nossas vidas. Imagina só o que seria da nossa cabeça se nós lembrássemos de TUDO pelo que passamos, precisaríamos de um cérebro imenso, íamos parecer aquele personagem de animação "MegaMente"... Prefiro esquecer. Às vezes a gente briga consigo mesmo porque a memória não é tão boa e não decoramos "aquela matéria pra prova", ou esquecemos o guarda-chuva em casa e caiu uma tempestade na hora de voltar do trabalho... Mas aí vamos pensar como a Pollyanna, imaginem que pior seria se a gente esquecesse como respirar? E vamos problematizar a situação... enquanto fazemos qualquer coisa no dia-a-dia, esquecemos que estamos respirando, mas nosso corpo inteligente lembra sozinho pra nós podermos lembrar de outras coisas que julgamos mais importantes. 
Olha que interessante, julgamos que 'OUTRAS COISAS' são mais importantes que respirar, mas quando estamos num hospital, respirar parece uma coisa extraordinária, uma benção, uma dádiva, qualquer coisa genial e maravilhosa. Dei o exemplo de 'respirar', pra não dar um exemplo mais nojento, porque sou uma garota comedida (cof cof). 
Semestre passado, a última matéria que eu fiz no mestrado, por coincidência ou não, era sobre memória. (e várias outras coisas, que não convém ficar enumerando e que, óbvio, algumas coisas eu esqueci mesmo) Não lembro qual autor exatamente, Pollak ou Halbwachs ou...?, discutia a questão da memória silenciada... é um caso complicadinho, parece paradoxal... existem as lembranças que geralmente atribuímos às coisas boas, nostalgias, mas existem lembranças que não são bem-vindas... Nem toda "ativação de lembrança" é boa como a Madeleine de Proust. Algumas memórias querem não ser lembradas, essas são as dores (no meu caso, a dor no cérebro dançarino, que eu lembro só da situação, mas não quero lembrar da dor nunca!). É engraçado como as pessoas geralmente querem falar das lembranças boas, mas as lembranças ruins preferem que sejam "apagadas" e, por isso, calam. O mais estranho é que geralmente, pras coisas ruins existem mais ouvintes que pras coisas boas. 
Vê-se o fenômeno "compartilhamento em redes sociais", compartilha-se muito mais desgraça que coisas boas. As redes sociais são como o Big Brother (não o da TV, o de Orwell mesmo), mas pioradas. As pessoas compartilham na rede a todo instante informações desnecessárias, como quem diz "oi, estou aqui! Lembrem que eu existo!". O que me intriga é saber se lembraríamos (bem ou mal) dessas 'tais pessoas' se a vida privada não fosse tão pública, como hoje em dia. Como as pessoas viviam antes da internet? Eu já tinha nascido antes disso. Nem eu lembro! 
Lembrar e esquecer são coisas tão comuns e ao mesmo tempo tão complexas. Essa necessidade de compartilhar a vida nas redes sociais deve ser consequência de algum tipo de medo de ser esquecido, ou de não ser lembrado (e isso não é a mesma coisa! e eu já falei disso! e eu acho que tô muito repetitiva. não. vamos dizer que eu só tô lembrando)
Eu, com meu blog e redes sociais e tudo o mais, faço parte dessa "massa" apavorada que compartilha a vida por aí, pra ser lembrada. E, como diz a Emília (sim, a do Monteiro Lobato), o escrevedor de memórias escreve de um jeito que o leitor fique fazendo grande ideia do escrevedor. Óbvio que eu seleciono o que quero que seja mostrado, assim como nosso cérebro seleciona o que a gente quer (e/ou precisa) lembrar... Porém, ao contrário das teorias sobre a memória silenciada - geralmente as memórias ruins são silenciadas - , (sem entrar no mérito do que seriam memórias ruins, academicamente falando os exemplos eram as memórias da guerra, assim como na crise do "Narrador" do Benjamin e aí eu lembro de já ter falado da "crise dos ouvintes") eu saio distribuindo memórias mucho loucas de situações pessoais relacionadas a momentos em hospital e etc. Pra uma pessoa normal, memórias em hospital não são coisas boas (pra mim também não, óbvio!), mas a questão é: eu ajeito as minhas memórias como eu quero, registro lembranças e torno públicas da maneira como eu gostaria que elas ficassem na memória de outras pessoas. Eu acho memórias de hospital coisas ruins, mas eu transformo (ou tento, né) em coisas não tão ruins, digamos que sejam despojos de guerra. Os outros é que julguem da maneira como quiserem.
(Ultimamente o que parece que eu tento mostrar pras pessoas é que hospital pra mim é fichinha, difícil mesmo é a vida acadêmica, mas... né?)
Convenhamos que a maneira como as pessoas querem ser lembradas hoje em dia é um pouco bizarra e o mais bizarro é a incrível habilidade de sair julgando e falando sobre a vida pública dos outros, como se não tivessem teto de vidro. Eu nem lembro mais porque eu comecei a falar disso (olha, que incrível!), mas lembrei de um monte de outras coisas e também lembrei de olhar no relógio e lembrei que eu preciso dormir, porque amanhã cedo eu vou pro hospital de novo, pra ficar com a minha mãe e pra lembrá-la que dor é passageira, como tudo na vida. menos o amor, principalmente o de filha. e desse eu não esqueço. :)


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

tentativa de postar um PDF





Com ajuda de um primo meu, muito querido, consegui colocar o PDF direto no post! Vivas!

Esse livro eu fiz numa disciplina enquanto eu ainda estava na graduação.
Observação importante: Miguel é meu afilhado.







sexta-feira, 16 de abril de 2010

observando.

A MENINA DE OLHOS FITOS


(Tim Burton)


Sempre de olhos fixos, arregalados:
Uma menina assim eu conheci.
Olhava com ar parado,
Ar de quem nã
o está nem aí.



Olhava pra baixo.



Olhava pro alto.



Punha os olhos um tempão em você,
Sem que ficasse claro o porquê.



Mas depois de ganhar a finalíssima
Do Prêmio G
arota que Não Pisca,



Ela deu finalmente às suas vistas
Umas férias mais que merecidas.