sábado, 9 de abril de 2011

eu(s)

Costumo escrever aqui coisas que saem da minha cabeça, mas na realidade é impossível dizer que alguma coisa sai apenas da nossa cabeça, nós somos feitos de infinitos "eu(s)"...
Ultimamente estou mais leitora do que escrevedora... mas como diria Barthes, nós costumamos ter o "desejo da escritura" se nos relacionamos positivamente com determinada leitura...
Estava eu lendo um livro da Marina Colasanti e me peguei chorando de tão lindo que é "Uma ideia toda azul" e eu poderia até explicar todas as relações que eu fiz com os contos do livro, mas aí as outras pessoas se prenderiam a alguma coisa que talvez não fosse o que "eu quis dizer", então eu resolvi escrever o conto aqui, exatamente como está no livro, mas transformando em meu. Afinal, como diria Jorge Luis Borges, em "Pierre Menard, o autor do Quixote", pode parecer que é uma simples cópia, mas não é...
enfim...

A Primeira Só

Era linda, era filha, era única. Filha de rei. Mas de que adiantava ser princesa se não tinha com quem brincar?
Sozinha, no palácio, chorava e chorava. Não queria saber de bonecas, não queria saber de brinquedos. Queria uma amiga para gostar.
De noite o rei ouvia os soluços da filha. De que adiantava a coroa se a filha da gente chora à noite? Decidiu acabar com tanta tristeza. Chamou o vidraceiro, chamou o moldureiro. E em segredo mandou fazer o maior espelho do reino. E em silêncio mandou colocar o espelho ao pé da cama da filha que dormia.
Quando a princesa acordou, já não estava sozinha. Uma menina linda e única olhava para ela, os cabelos ainda desfeitos do sono. Rápido saltaram as duas da cama. Rápido chegaram perto e ficaram se encontrando. Uma sorriu e deu bom dia. A outra deu bom dia sorrindo.
- Engraçado – pensou uma - , a outra é canhota.
E riram as duas.
Riram muito depois. Felizes juntas, felizes iguais. A brincadeira de uma era a graça da outra. O salto de uma era o pulo da outra. E quando uma estava cansada, a outra dormia.
O rei, encantado com tanta alegria, mandou fazer brinquedos novos, que entregou à filha numa cesta. Bichos, bonecas, casinhas e uma bola de ouro. A bola no fundo da cesta. Porém tão brilhante, que foi o primeiro presente que escolheram.
Rolaram com ela no tapete, lançaram na cama atiraram para o alto. Mas quando a princesa resolveu jogá-la nas mãos da amiga, a bola estilhaçou jogo e amizade.
Uma moldura vazia, cacos de espelho no chão.
A tristeza pesou nos olhos da única filha do rei. Abaixou a cabeça para chorar. A lágrima inchou, já ia cair, quando a princesa viu o rosto que tanto amava. Não um só rosto de amiga, mas tantos rostos de tantas amigas. Não na lágrima que logo caiu mas nos cacos que cobriam o chão.
- Engraçado são canhotas – pensou.
E riram.
Riram por algum tempo depois. Era diferente brincar com tantas amigas. Agora podia escolher. Um dia escolheu uma e logo se cansou. No dia seguinte preferiu outra, e esqueceu-se dela logo em seguida. Depois outra e outra, até achar que todas eram poucas. Então pegou uma, jogou contra a parede e fez duas. Cansou das duas, pisou com o sapato e fez quatro. Não achou mais graça nas quatro, quebrou com o martelo e fez oito. Irritou-se com as oito partiu com uma pedra e fez doze.
Mas duas eram menores do que uma, quatro menores do que duas, oito menores do que quatro, doze menores do que oito.
Menores cada vez menores.
Tão menores que não cabiam em si, pedaços de amigas com as quais não se podia brincar. Um olho, um sorriso, um pedaço de si. Depois, nem isso, pó brilhante de amigas espalhado pelo chão.
Sozinha outra vez a filha do rei.
Chorava Nem sei.
Não queria saber das bonecas, não queria saber dos brinquedos.
Saiu do palácio e foi correr no jardim para cansar a tristeza.
Correu, correu, e a tristeza continuava com ela. Correu pelo bosque, correu pelo prado. Parou à beira do lago.
No reflexo da água a amiga esperava por ela.
Mas a princesa não queria mais uma única amiga, queria tantas, queria todas, aquelas que tinha tido e as novas que encontraria. Soprou na água. A amiga encrespou-se, mas continuou sendo uma.
Então a linda filha do rei atirou-se na água de braços abertos, estilhaçando o espelho em tantos cacos, tantas amigas que foram afundando com ela, sumindo nas pequenas ondas com que o lago arrumava sua superfície.

sábado, 19 de março de 2011

e agora?

E agora e depois e ainda há pouco e o tempo todo...
O tempo todo acontecem coisas com a gente, que supostamente são desconexas, mas o que as conecta é o fato de pensarmos nessas coisas... sim, nós somos o centro do nosso universo. Acho que eu já comentei isso algum dia, não é egocentrismo, é só ponto de vista... Mas acho que em um determinado momento esse meu ponto de vista se perdeu pelo caminho... Na vontade de ter "tudo" organizado, de querer tudo controlado, o foco se perde e ao invés de controlar a nossa própria vida a gente quer controlar outras coisas que estão fora de nosso alcance. O primeiro passo para mudanças é "querer", mas o segundo passo é "fazer" e não "continuar querendo", ou, esperar que "outros colaborem". Talvez muitas pessoas tenham repetido isso pra mim infinitas vezes, mas eu precisava ouvir não apenas com os ouvidos, talvez a melhor forma de entender certas coisas seja lembrando das palavras em um momento apropriado. E não, nunca é tarde para mudanças (mudanças positivas, sejamos otimistas!).
Eu sou supersticiosa e geralmente prefiro falar das coisas depois que elas aconteceram, mas aconteceu tanta coisa neste ínterim que agora me questiono o que é digno de ser narrado e o que não é.
Repito várias vezes que detesto psicologia de auto-ajuda e que desprezo livros do gênero e etc, mas passei por um tratamento "de introspecção" que valeu a pena... É bom se colocar em primeiro lugar, às vezes. Difícil é continuar fazendo isso, mas é possível.
Eu queria viver minha vida normalmente como se não tivesse ficado doente, porque vi depoimentos de pessoas que deixaram se dominar pela doença e viviam em função disso. Eu não queria parar de fazer nada do que eu gosto e fazia, mas eu me lembrei que eu já parei de fazer algumas coisas e que minha vida mudou e eu tenho que me adaptar... Me disseram que eu não tenho que fingir que a doença não existe, eu tenho que aceitar que estive doente porque as coisas só podem ir embora depois que elas chegam. Depois que comecei a tomar o remédio, meu cortisol estava controlado e num belo dia descontrolou-se e subiu absurdamente... O que isso significa? Sei lá!
Em parte eu acho que deixei "por conta" do medicamento e esqueci que o cushing existia. Mas a verdade é que remédios não fazem milagres, eu que preciso fazer mudanças. Mas essas mudanças não devem acontecer pra estar dentro das expectativas de outras pessoas, devem acontecer só pra mim e o resto é consequência...
Me dei o direito de ficar cinco dias "offline" (parece pouco, mas isso é uma grande batalha pra alguém que fica o dia inteiro, todos os dias, conectada à internet) O que eu descobri? Descobri que massagem nos pés é ótimo pra pensar (!!!) e que nós podemos aproveitar melhor o nosso tempo, se realmente quisermos...
Algumas vezes me senti como a Alice, com o pedacinho de bolo que dizia "coma-me" que fazia ela crescer e o líquido com o frasco que dizia "beba-me" que fazia ela diminuir, e me afoguei nas minhas próprias lágrimas pensando que "eu deveria seguir meus conselhos".
Não tenho todas as respostas pras minhas dúvidas (e se eu tivesse é lógico que eu não postaria abertamente num veículo da internet) mas a gente precisa externalizar de vez enquando... De novo presenciei a necessidade das pessoas de falar, ou de expressar seus sentimentos até mesmo no silêncio. Essa semana de tratamento complementar foi diferente de quando fiquei em SP, em tese, acredito que era pra ter sido mais fácil, mas foi um bom fight... Quando a gente tem que lutar contra e a favor de nós mesmos - ao mesmo tempo - o caso complica, mas a boa notícia é que a gente sempre vai sair ganhando.

e agora, um novo começo... (que assim seja!)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

filosofia do improviso - ou, comentários (im)pertinentes

O estágio de docência acabou. Quer dizer, as aulas acabaram, porque o semestre ainda está aí e tenho zilhões de coisas relacionadas ao estágio para fazer. Mas, assim como meus alunos tiveram que escrever um texto de memórias sobre algo que ainda não tinha acabado, aqui estou eu fazendo (quase) a mesma coisa.
Confesso que estou com uma preguicinha aguda, parece que quanto mais tempo livre temos, mais preguiça dá. Não que eu tenha tanto tempo livre assim, mas já tive meus dias mais atolados...
A questão é: me forcei a escrever novamente para não perder a força do hábito.
Nesses últimos dias eu estava mais para "revisora" do que "escritora", e não é fácil não, quem é que disse que professor vai para sala de aula por que não gosta de revisão? Professor é revisor! (e também decifrador, porque tem cada hieróglifo, inacreditável!)
Foi uma tarefa árdua e satisfatória. Foi maravilhoso, na verdade, acho que devo ter uma pontinha de masoquista... Mentira. Não sofri com a tarefa de revisão, sofri com qualquer outra coisa que não é explicável em palavras educadas.
Bom (esse "bom" me lembra o início dos textos de um aluno #nostalgia), uma coisa que trabalhamos (é, "trabalhamos", porque meu estágio não fiz sozinha, foi com uma dupla de três, mas enfim, foi em DUPLA.) com os alunos foram "as dificuldades do começo", do começo de escrever, escrever sobre memórias... discutimos horrores, e quando começaram a escrever, adivinhem o que eles mais falavam "não sei começar!" É, a orientação aconteceu continuamente, e depois eles conseguiram começar (e continuar e acabar e ficou lindo!)
O que esses relatos tem a ver com o título? Então... por aqui, por mais que não pareça, tudo tem embasamento!

Conversando com uma (am)Ada amiga, cheguei a conclusão que improvisos são muito bem fundamentados. No meio do nervosismo de ministração de aulas também participei da ministração de um minicurso de Direito e Literatura, e pra que melhor do que usar o mesmo texto que foi usado na oitava série, mas com estudantes de Direito? Sim, texto sobre as memórias da Emília.
Minutos antes de iniciarmos o minicurso, conversavamos sobre a possibilidade de surgir perguntas absurdas e/ou incabíveis (ou que não soubessemos a resposta! hahaha), cada um reagiu de um jeito e no fim combinamos uma espécie de "saída de fininho", caso ficassemos em uma situação não muito agradável o jargão seria: "convidamos para participar das reuniões e discutirmos melhor essas questões, pois o minicurso tem outro foco".
No meio das apresentações das minhas colegas de minicurso, eis que surge uma pergunta, pronto, comecei a gelar (e acredito que as outras colegas também), não lembro qual era o teor da pergunta, a única coisa que eu lembro é que desatei a falar e minhas colegas acompanharam o raciocínio, numa espécie de improviso ensaiado... e desenvolvemos maravilhosamente a discussão! Apesar do pouco público e de nossa preparação ter sido às cegas, conseguimos dar conta...
O que mais foi maravilhoso - para mim, é claro - foi justamente a situação em que "tudo" se encaixa... um ser com cara de pré-adolescente, mas que pelo que parecia estava na graduação de direito, prestava atenção às nossas exposições/discussões sobre a Linguagem, e sobre discursos que teriam a pretensão de serem neutros e blablabla e, então solta um comentário "ah, mas meus amigos que fazem Letras dizem que os professores falam que uma poesia, por exemplo, TEM que ter aquela interpretação, senão tá errado"
Lógico que esse ser não sabia com quem estava falando e como pisou no meu calo eu não fiquei quieta... "Olha, eu faço Letras e não é bem assim" e aí a discussão desenrolou e foi muito produtiva!
Todas as minhas queridas colegas citaram (devidamente) Roland Barthes e por dentro eu chorava de felicidade! E Roland Barthes ao mesmo tempo em que era citado, fundamentava minha análise sobre o "improviso"...
A questão é: soubemos "improvisar" porque estavamos bem preparadas, não foi um comentário ao acaso, não eram simples enrolações... e o comentário (im)pertinente do serzinho foi o que suscitou a discussão que fez o minicurso render... Essas coisas (im)pertinentes é que dão mote às melhores conversas, pois ao invés de simplesmente ignorar um comentário, tranforma o comentário em algo produtivo!
No estágio aconteceu algo parecido... uma aula específica foi salva por causa de um comentário de uma aluna "não tô entendendo o que isso tem a ver com Português", pronto! Foi a minha deixa... ao invés de me apavorar terrivelmente, desenvolvi essa questão com eles...
Barthes também fala de repulsa (da leitura) e desejo (da escritura)... a Repulsa em relação à leitura acontece quando alguma coisa é imposta (no caso da discussão do minicurso, seria a tal interpretação que o ser disse que os professores de Letras impunham aos alunos, o que não procede, tanto é que estou aqui expondo meu ponto de vista sem impor nada a ninguém, mas sempre lembrando: nada é neutro, haha) e aí o leitor não vê possibilidades de estabelecer relações com determinado texto, e acaba fazendo daquela leitura algo insignificante (ou, pior, acaba detestando um texto só por causa da maneira como ele foi tratado)
No caso da aula, talvez a forma como as informações estavam sendo tratadas (não, não foi por mim - posso parecer tendenciosa ou o que for, mas é fato) naquela hora estavam parecendo imposições e isso assusta, obviamente.
Não é por nada, mas, por exemplo, a maneira como tratei os textos no estágio foi tão linda, que até eu gostei mais deles! haha
Com certeza, depois de algumas ressalvas, suscitamos o desejo da escritura nos alunos... Esse desejo é a vontade de falar alguma coisa sobre o que se leu, é algum comentário específico que foi ponto de partida para discussões e para se estabelecer relações com outras coisas...
Minhas divagações podem parecer bastante abstratas, mas as minhas aulas foram bastante ilustrativas... O segredo: (que nem é segredo, é só uma habilidade que as pessoas deveriam ter) estabelecer relações.
Preciso até fazer uma confissão, acho que fui bastante "didática"! Não que didatismo seja uma coisa ruim, mas apenas gostaria de retratar alguns comentários antigos sobre "Didática", na realidade, acho que tive traumas com essa disciplina na universidade, e tenho minhas rixas com "pedagogia", talvez eu apenas não tive uma experiência muito boa, não é preconceito, é conceito formado, infelizmente.
Voltando ao tópico, nem sei mais qual era o tópico exatamente, mas tudo bem, memórias são assim, vêm fora de ordem e não são muito claras... Ah! repulsa, desejo, relações... Vou justificar minha retratação sobre a crítica à didática...
Para "ilustrar" um texto em sala, fiz uma dinâmica, é, pasmem! Eu tive ideia de envolver os alunos em uma dinâmica de grupo! Euzinha... e deu certo! Ah, e pior (ou, melhor, na verdade...) não foi apenas uma aula, a maioria das aulas foram interativas!
Eu, que sempre tive pé atrás, quando estava na escola, com essas atividades que os professores faziam os alunos participarem em sala... Acho que eu tinha razão de não gostar, porque as atividades pareciam sem sentido e ninguém me explicava nada...
Nossos alunos tiveram explicações dos objetivos das aulas! E... tchanan! Como mágica, todos gostaram! Todos participaram!
Não falo isso sem embasamento, eles avaliaram! Ouvimos críticas e elogios deles... e nunca tive melhor avaliação na minha vida! Como diria Barthes (novamente), nossa orientação para leitura não foi imposta, fez eles participarem, por isso ao invés de repulsa, eles desejaram relacionar a leitura com críticas maravilhosas, e ao longo do estágio escreveram textos dignos de serem publicados!
Ainda vou publicar em algum lugar, acho que vou abrir uma editora só pra mostrar como os alunos são geniais! Isso que foi só a minha primeira experiência como professora, só tive 25 alunos!
Claro que as aulas não acabaram simplesmente quando acabaram (?!)
É, eu tive a brilhante ideia de fazer uma colcha de retalhos com as memórias deles... Pois, falamos sobre a etimologia da palavra "texto", que vem do verbo latino "tecere", e então nós íamos "tecer os textos" deles, cada aluno = um retalho, todos os retalhos juntos = colcha = texto. Foi lindo, maravilhoso, todos trabalharam em seus retalhos, mas... e depois quem costurou todos os retalhos? eu e minha dupla, LÓGICO! Quem tinha inventado isso mesmo? me diz quem! Porque eu ia matar!
Literalmente, dei meu sangue para costurar essa colcha! Sim, me cortei... e por pouco não manchei um retalho com um retalho do meu dedo! Mas como disse uma aluna "até as rosas tem espinhos, ou seja, tudo na vida tem as rosas e os espinhos."
Não seria tão perfeito se não tivesse imperfeições!
Os alunos escreveram suas avaliações, alguns colocaram nome, outros não (mas, segredinho... nós conhecemos as letras e sabemos quem escreveu o que!)
O que constatei... Nós sabemos os nomes deles, mas eles confudem nossos nomes, recebi uma crítica maravilhosa, mas não em meu nome.
Na verdade fiquei até me perguntando se era pra mim mesmo, senti que eu estava convencida demais, mas todos os indícios apontam para uma simples troca de nomes, condenem-me, fiquei martelando isso o dia inteiro e resolvi me conformar com a troca de nomes...
Como diz a Emília (que eu já citei no post anterior), o escrevedor de memórias coloca as memórias de jeito que o leitor fique fazendo uma alta ideia dele, então eu posso dizer aqui que foi tudo lindo, porque da forma como eu lembro e coloco, eu faço uma alta ideia das minhas memórias, afinal, elas são minhas... e segundo algumas alunas as aulas foram muito "glamurosas", porque eu sou muito "IXperta e fashion" e tudo porque eu sigo a minha filosofia de vida, a filosofia do improviso...



sábado, 18 de setembro de 2010

Feliz desaniversário!

É. Mudei.

Não por algum motivo especial e nem por que algum milagre aconteceu. Só acho que preciso fazer algumas mudanças nos "layouts" da minha vida de vez enquando...
Em relação ao cushing, nem sei mais o que as pessoas sabem. Acho que precisam saber apenas que eu optei por abandonar a doença, não, não achei uma cura milagrosa e muito menos abandonei o tratamento, pelo contrário... Viajei novamente para São Paulo - pela última vez com esse propósito - fui a nova consulta e me deram o resultado dos exames da cirurgia: foram retirados dois fragmentos tumorais (!?), porém, não foi o suficiente, alguma coisa restou lá (lá = minha hipófise) e continuei produzindo o inconveniente cortisol. Os próximos encaminhamentos se restringiram a poucas opções... Decidi continuar o tratamento com medicamentos na minha cidadezinha maravilhosa - que não é o Rio de Janeiro e muito menos São Paulo! - Essa MINHA opção está resultando no controle do nível de cortisol, vejam só! Não me importo de ter que tomar o cetoconazol (que é o remédio que controla o cortisol) até não sei quando, um comprimido é muito menos estressante do que viagens!
Defini o cetoconazol como meu antidepressivo. Não preciso de uma data específica ou de algum acontecimento marcante pra lembrar que estou bem, os dias estão mais bonitos e por incrível que pareça, estou mais tranquila, MESMO. É mais ou menos como quando Alice conversa com Humpty Dumpt e ele diz que gosta de ganhar presentes de desaniversário, porque todos os dias do ano - tirando um - são desaniversários, então seria muito melhor se comemorassemos todos os dias...
Pode ser que eu adore viver num conto-de-fadas, mas é porque não consigo conter o meu encantamento quando faço relações "teoria-prática".
Junto com minhas decisões e resultados positivos de exames de cortisol, vieram as aulas. Sim, estou no estágio de docência! Darei aula para uma turma de oitava série do ensino fundamental. A escola é boa, os alunos são bons, a professora da turma é boa, é uma situação ideal, no sentido estrito do termo! E o tema que nos ficou designado para trabalhar com eles, também não poderia ser mais perfeito: "memória"! Posso relacionar experiências com a teoria, colocar em prática o que eu idealizo, utilizar exemplos... memórias!
O início do estágio começou com uma oportunidade de irmos (eu e minha dupla de três) para Minas Gerais visitar as cidades históricas junto com os alunos do colégio. Fomos pedir auxílio financeiro e etc, mas... como num Processo Kafkiano, por impedimentos burocráticos não fomos viajar - a Universidade tinha o dinheiro mas não tinha como repassar a verba (????) - é, não conseguimos entrar n"O Castelo". Acompanhamos as atividades dos alunos que não foram viajar e tivemos mais tempo para nos organizar por aqui... Como eu tive um estágio de ouvinte enquanto estava no hospital, aprendi a lidar com a necessidade dos outros de contar histórias, ou seja, agreguei à minha experiência vivida as experiências narradas por outras pessoas - desde que entrei na faculdade Walter Benjamin está sempre presente me fazendo relacionar teoria-prática! - por isso, não foi tão frustrante... A ironia é que eu deveria fazer relatórios diários sobre as observações das atividades da escola, mas eu, como boa procrastinadora que sou, acabei deixando e deixando e deixando... e quando percebi, os relatórios pareciam Gremlins quando se deixa pingar uma gota de água! Multiplicaram-se! Apesar dos pesares e reclamações típicas (porque mesmo ficando encantada com tudo, como eu já disse, não aconteceu um milagre) parei para escrever meus relatórios e depois juntei com os das minhas colegas e fui ler (todos), conclusão? fiquei mais encantada! É absolutamente incrível como três pessoas escrevem coisas muito diferente observando a mesma situação! E aí vem teoria de novo: como a narração das pessoas constroem a história, como as coisas vão se costurando e se relacionando se forem bem analisadas, bem aproveitadas...
Os alunos da oitava série tinham como tema norteador da viagem para MG: Inconfidência Mineira (óh!!!) e o Arcadismo... partindo, então, dos princípios Clássicos "carpe diem" relacionando memórias, experiências vividas, narradas, concluí que não preciso ser fiel aos fatos (e somente aos fatos!), pois como diria a Emília, de Monteiro Lobato: "quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta ideia do escrevedor. Senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros." Por isso mudei... de "cortISOLADA" para "(in)confidente".

domingo, 8 de agosto de 2010

Em contrapartida... a recíproca é verdadeira.

Nada pode ser tão (ruim ou) perfeito; tudo pode melhorar!

sábado, 31 de julho de 2010



Nada, nada é tão ruim que não possa piorar.


♫ let it be...

domingo, 4 de julho de 2010

quase-título

Esse novo capítulo era pra ser intitulado alguma coisa do tipo “sem gosto, sem cheiro e sem cushing”, mas feliz ou infelizmente (ou as duas coisas) não será esse o título. Por quê?
Talvez eu já tenha comentado, mas eu simplesmente não entendo o que as pessoas pensam quando nos dizem “é, a gente só dá valor pras coisas depois que perdemos ou quando existe algum problema” Isso não é verdade! Ok, pra algumas situações pode ser, não serei radical... A questão é...
Depois da cirurgia, fiquei mais ou menos umas duas semanas sem sentir cheiro, nem gosto... A sensação é muito estranha, você sente fome, sente vontade de comer, mas come como se fosse uma obrigação e sem sentir prazer nenhum! É frustrante! Confesso que não escrevi antes sobre isso, porque estava morrendo de medo de não sentir mais cheiro/gosto nunca mais na vida! Aí que se encaixa a frase citada anteriormente... Quando eu dizia que a minha recuperação estava boa, vários “alguéns” repetiam "mas pelo menos depois disso se sabe o quanto era bom e não se dava valor" - acho que ninguém pensa muito quando fala isso.. Parece que seria como se eu antes não desse valor pra isso, mas eu, mais do que ninguém, sei muito bem que eu SEMPRE valorizei um cheirinho de perfume, ou de café recém passado de manhã cedo, do gosto da pizza da minha tia, do bolo de maçã feito pela minha vó... é quase como o episódio de Proust com o cheiro de Madelaine – um bolinho que ele sentiu o aroma e fez lembrar da infância - , são coisas que ativam a memória e mandam alguma informação pro cérebro dizendo “isso é maravilhoso, aproveite”. Antes da cirurgia meu cérebro estava perfeito e recebia essas informações, não vou receber melhor essas informações só porque fiquei um tempo sem elas. Essa mania de achar que precisamos sempre passar por um problema pra depois dar valor a alguma coisa específica, isso está errado! Cheguei a cogitar a possibilidade de tanto ouvir isso, pensei “mas eu achava que dava valor pra sentir gosto; adoro cheiro, gosto, comida, perfume... o que eu precisava fazer pra provar isso? tenho que fazer outdoors descrevendo todo o prazer que sinto quando tomo uma xícara de café?” Não, não é assim. Fiquem tranqüilas, pessoas. As coisas não acontecem simplesmente para nos castigar, ou para “nos dar uma lição”, as coisas acontecem, porque acontecem, oras. Claro que não tem problema sair contando pra todo mundo o quanto você gostou de alguma coisa, as pessoas gostam de sugestões e dicas de coisas boas, mas não precisamos ficar esperando acontecer um problema pra só aí começar a falar do que se gosta.
Por exemplo, podem me chamar de maluca, mas eu gosto do meu nariz, acho lindo. É, isso mesmo.
No meio dessas intempéries, cheguei a sonhar com isso no hospital, um pesadelo na verdade, que tinha acordado como o personagem do Gogol, sem nariz! Mas aí acordei e me olhei no espelho... Depois de ter ficado com dois cones dentro dele, inchado, pingando e descascando, parecendo o Rudolf (aquela rena do papai Noel que tem uma lâmpada vermelha como fucinho) ele voltou ao normal, fazendo parte novamente do meu rosto, como deveria ser (mesmo eu parecendo o piu-piu, com as bochechas crescendo desenfreadamente e a boca sumindo no meio da face), meu nariz voltou a ser lindo, até achei que ele ficaria bem sozinho (fora do meu rosto) porque parece que não se encaixa um nariz “normal” -que eu ainda reconheço como “o meu nariz” - no meio de um rosto de uma estranha, mas percebi que cada um tem o nariz que combina consigo, sempre há quem possivelmente não goste, mas aí tem opções - na maioria das vezes corre-se o risco de ficar parecendo o Michael Jackson (R.I.P.), eu não recomendaria, acho que seria mais legal se fizessem como o dentista do Veríssimo, que resolveu usar um nariz de mentirinha e provocou maior polêmica, se a intenção é chocar, vamos fazer direito!
Bom, mas voltando à explicação do ex-título... Não poderia utilizá-lo pelo simples fato de que já voltei a sentir cheiros, gostos e o principal... não estou livre do cushing. Deve ser porque sou uma pessoa muito cativante. À primeira vista, na maioria das vezes, começam me achando muito quieta, metida, tende-se a me detestar, mas aí me conhecem, continuam me achando metida, mas se passaram do primeiro estágio e não me detestaram aí é porque são guerreiros mesmo e não vão conseguir se desapegar de mim tão cedo. O cushing provavelmente foi parecido, no começo eu era metida e estava quieta (nem sabia que tinha), agora não estou mais quieta (porque sei que tenho) e continuo metida, mas ele não me deixou depois da primeira cirurgia. A doença não conhece o ditado “quando um não quer, dois não brigam”. Na realidade acho que eu fui muito boazinha, aceitei cirurgia sem revoltas, estava indo tudo muito bem, eu estava agüentando esses processos “tranquilamente” (seja lá o que isso queira dizer) e isso foi um problema.
Depois de 10 dias de cirurgia, cheguei na consulta de retorno me recuperando maravilhosamente. - nem parecia que eu tinha passado por um procedimento que envolvesse meu cérebro, todos achando isso uma coisa muito boa, de certa forma até eu (mesmo que eu não estivesse notando NENHUMA diferença de antes da cirurgia e essa indiferença estivesse martelando na minha cabeça) – e vendo essa recuperação muito rápida, a médica da endocrinologia diz “isso não é bom, você está muito bem, era pra você estar muito mal!” e as marteladinhas na minha cabeça viraram um bate estaca daqueles de início de construção de um super Shopping Center.
A cirurgia não teve o efeito esperado. Eu tive certeza que não estava curada minutos antes de me encontrar com a médica. Dessa vez, fomos somente eu e meu pai para SP, chegamos +/- 6h40 no HC para conversar com a endócrino antes de ir na neuropsiquiatria – que eu tinha consulta as 7h30, pergunto para o recepcionista sobre a médica e ele responde que ela ainda não chegou, soltei um palavrão tão automaticamente - por ter ficado irritada que poderia chegar atrasada na consulta na neuro – que até meu pai ficou com pena do recepcionista que não tinha culpa de NADA, percebi que com certeza o nível do meu cortisol não poderia ter baixado pra eu ter ficado tão irritada com uma coisa tão pequena e ter forças para ter sido tão mal-educada.
Com a retirada do tumor, era pra eu ter tonturas, náuseas, anorexia e vários outros tipos de mal-estar, pois o nível do meu cortisol era pra ter baixado muito repentinamente e meu organismo teria que se readaptar, porém, o nível de cortisol não baixou e meu organismo continuou o “mesmo”. A cirurgia na realidade serviu para a raspagem da sinusite. O resultado da biópsia, do que eles supostamente achavam que pudesse ser o tumor, ainda não saiu, mas já era pra eu sentir a diferença (que infelizmente não sei qual é). Nunca quis tanto me sentir mal na vida. Dizem que mulher complica as coisas, só que a opção que me oferecem é de se sentir mal para estar bem e eu estou me sentindo bem, mas estou mal (????) e o pior (ou melhor, já nem sei mais) é que estou bem! Ok, é confuso, muito. Saí de lá sem saber quais os próximos passos, já que essa primeira cirurgia não foi eficaz. Já sabia que existia a possibilidade de isso acontecer, tem casos de pessoas que fizeram 3 cirurgias na hipófise, pois a retirada do tumor não foi completa, ou o tumor não foi encontrado. Tem outros casos que se retiram as adrenais (as glândulas produtoras do cortisol), porque a hipófise é a comandante, ela manda informação pras glândulas produzirem, se não se encontra a falha na gerência o que temos que fazer? Mandar embora os funcionários, porque se não tem pra quem mandar informação aí ela não pode fazer nada, certo? Mas eu ainda não sei o que será feito, não tive mais notícias. Ainda não decidiram o que me dizer e o que fazer... A coisa mais frustrante pra uma pessoa controladora é saber que você não controla coisa alguma - o pior, você não consegue nem controlar a si mesmo.
Por enquanto... continua ressoando na minha cabeça “você tem que ter paciência”, a frase mãe das frases mais chatas do (meu) universo.