terça-feira, 23 de outubro de 2012

Paradoxo da sapiência, ou, qual a moral da história?

Toda vez (que eu viajava pela estrada... ) que eu me disponho a abrir o arquivo com a minha dissertação eu travo. Então, pra não perder a viagem, dessa vez eu abri a aba de postagem do blog... não que eu tenha qualquer coisa interessante pra falar, ou alguma coisa que valha a pena ser compartilhada nesse momento, mas só pra não perder o hábito da escrita, que, na verdade, não existe. 
Ninguém tem hábito de escrita, assim como ninguém tem "hábito de leitura". Quando alguém fala que "o brasileiro precisa adquirir o hábito da leitura", eu fico pensando: "o brasileiro deveria adquirir o hábito de dar seta no trânsito, de jogar lixo no lixeiro, de ser educado com idosos, de parar de reafirmar que pra tudo existe 'o jeitinho brasileiro'... E outra coisa muito importante: parar de afirmar e se identificar com a afirmação que "brasileiro deixa tudo pra cima da hora!". 
Eu queria tirar essa coisa que me colocaram na cabeça, porque meu subconsciente assimilou isso de uma forma, que eu não dou conta de tudo que tenho que fazer "em cima da hora". Porque eu nem tenho que fazer nada em cima da hora, mas se tenho tempo pra fazer, não consigo. Já me disseram: "o segredo é a disciplina!", mas se for esse o segredo mesmo, o segredo tá muito bem guardado, porque eu não descobri como me disciplinar. 
Depois que meu último exame deu tudo ok, digamos que o Cushing não é mais desculpa pra nada, ou seja, se eu não consigo fazer qualquer coisa, a culpa é minha. Mas, sinceramente? Eu acho que o Cushing nunca foi desculpa pra nada! Até porque se foi, no período que eu descobri até a última cirurgia, eu tive tantas "conquistas" que posso até agradecer ao cushing então... Tá, nada a ver eu citar o Cushing falecido agora, o caso é: eu estou muito bem, obrigada, etc e tal... PORÉM, eu estou sofrendo com outra doença e essa doença já me acompanhava antes e às vezes eu chego a pensar se essa doença não foi o que me deixou com cushing. Lógico que é a maior viagem e parece uma teoria da conspiração, mas às vezes faz sentido (pelo menos pra mim).
A doença que eu me refiro é a "doença acadêmica": a obrigação de estar sempre produzindo, escrevendo, lendo, cumprindo horários na universidade, de pesquisa, de aulas... Tudo isso nos deixa com um nível de estresse tão elevado que acaba desregulando as produções normais de hormônio de qualquer ser humano. Em consequência disso, como o cortisol é hormônio do estresse, meu organismo endoidou e lançou um tumor na minha hipófise pra conseguir produzir tanto cortisol que meu corpo estava pedindo... mas é aquela coisa, tudo quando é demais faz mal, aí deu no que deu. 
Um monte de blablabla, mas faz sentido, vem dizer?
Pois então... agora que o cortisol foi embora e eu estou com insuficiência adrenal, meu problema da doença acadêmica tá tomando proporções maiores, acho que meu organismo tá meio idiota e não tá respondendo aos estímulos mentais que eu preciso pra escrever o que deveria... 
E daí eu me pergunto: o que eu deveria escrever? *pergunta de um milhão de dólares*
É complicadíssimo achar que deve escrever um zilhão de coisas e achar que também não dá conta de escrever nem uma mísera coisa. Há quem diga que sábio é aquele que tem consciência que não sabe praticamente nada. Paradoxo da sapiência: o sábio que sabe que não sabe. E eu digo: pqp! Se fosse assim eu era uma gênia! Posso colocar isso no meu lattes?
Eu sei que todo mundo passa por dificuldades e todo aquele blablabla de livros de autoajuda que eu sempre escrevo, mas a gente cansa de ficar empacado batendo na mesma tecla, né? Tudo bem que eu já bati em várias teclas aqui, agora, mas não são as teclas certas. Quero minha dissertação do mestrado pronta amanhã sem eu precisar pensar muito nas teclas, só ir digitando, como se fosse a coisa mais normal do mundo, como se eu tivesse o hábito da escrita (que não existe).
A minha crise dessa coisa de "hábito" do sei lá o que é pelo tema da minha dissertação, sim, lógico. Meu tema de pesquisa basicamente é literatura em sala de aula (nos anos iniciais do ensino fundamental). O que eu acho interessante é que TODO MUNDO afirma que ler literatura é muito importante, leitura faz da gente uma pessoa melhor e todo aquele papo que todo mundo que vive no mundo moderno, numa sociedade grafocêntrica, conhece. O caso é: tá, ler literatura é importante, eu também acho, mas eu acho porque eu gosto e se eu não gostasse? Será que eu acharia a mesma coisa? Será que a gente não acha importante certas coisas simplesmente porque a gente não gosta? O que faz a gente não gostar das coisas? *pronto, minha cabeça explodiu agora* 
Então... a parte da "moral da história" lá do título... é. O título (provisório, porque na dissertação tudo é provisório até que chegue o dia da impressão final) da minha dissertação é relacionado a isso. Nem sei se eu poderia ficar escrevendo aqui, vai que alguém rouba meu título genial, né? Mas não tem problema, já tá registrado no lattes e no comitê de ética mesmo, se começarem a usar pelo menos o meu é datado! (se ligaram na minha super ameaça disfarçada, né? cof cof) Qual a moral da história? Afinal, história precisa de moral? O que se considera história? Chatice, né? Eu acho o máximo. Pena que justamente o que eu acho o máximo é o que me deixa doida. 
A gente vive procurando respostas, criando perguntas, complicando a vida... pesquisas acadêmicas, pra mim, se resumem a isso: inventar problemas pra poder ter uma pesquisa. Não, eu não acho isso uma coisa ruim, pelo contrário, acho que esse é um dos objetivos do ser humano: investigar. Talvez todo mundo tenha um pouquinho de detetive dentro de si, (vulgarmente conhecido como: síndrome de fofoqueiro) mas isso não quer dizer que toda investigação seja relevante... Daí que volto pro lance da moral da história... será que tudo precisa de um sentindo? Talvez eu conclua o mestrado e descubra que tô na área errada... ou talvez não exista essa coisa de certo e errado. Ou talvez esteja tudo errado. AAAAAAAAAAAAHHHHHHHHH...

domingo, 30 de setembro de 2012

You better run, better run faster than my bullet (ou, hard e com emoção)

Mais de um mês desde a última postagem, voltei com boas notícias! 
(Não, não estou muito mais calma e organizada e ponderada e nada desse tipo de "ada". Eu disse que eram boas notícias e não notícias impossíveis.)
Então... ontem foi meu aniversário, agora tenho 23 anos. (essa é uma "boa" notícia, mas não é o que eu ia dizer) Bom, eu deveria começar pelo começo, mas estou meio anacrônica. Hoje eu estava pensando no meu "currículo". 23 anos, formada em Letras, mestranda em Educação, um tumor e 3 cirurgias no cérebro, 1 cirurgia pra retirada das adrenais, 1 cirurgia de adenoide, nenhum osso quebrado, cabelos loiros, cabelos ruivos, cabelos pretos, cabelos loiros de novo, 1 piercing (que "sumiu"), 2 tatuagens, um afilhado, um show de um dos Beatles, um show de um Nirvana, vários shows do meu irmão, algumas aulas (ministradas por mim), alguns concursos, algumas lágrimas, alguns sorrisos, alguns desejos... 
O mais louco disso tudo é pensar que o que eu tinha planejado pra quando eu tivesse 23 anos eu tenho. Pensava em estar formada, morando sozinha, fazendo mestrado e com saúde. E, adivinhem só (sim, a notícia boa!!!) eu estou com saúde! Na verdade eu já estava, mas a questão é: NÃO, EU NÃO TENHO MAIS CUSHING! Meus exames estão oficialmente livres do cortisol extra! Aliás, meus últimos exames indicavam um índice abaixo da quantidade possível para análise. Isso poderia ser perigoso, se eu tivesse sintomas de outra síndrome, se eu estivesse caindo pelos cantos, sem conseguir praticamente me manter em pé. Mas não, eu sou a incrível Rafaella, com dois L. O quase nada de cortisol que estou tomando em comprimido são mais do que suficientes pra me manterem em pé, e não me fazem ter nenhum sintoma de fraqueza significativo. Aí que novamente eu entro naquelas loucuras de que eu devo ter super-poderes. 
Enfim, o que me peguei pensando hoje no meu momento filosófico enquanto lavava louça é que lógico que eu não planejava ter Cushing no meio do caminho, mas eu tive, só que planejei estar bem e estar onde estou agora. Não importa o que passei, o resultado alcançado foi o que planejei. (rimou, ui) Claro que tenho muitos outros planos ainda, mas eu me imaginava mais ou menos como eu estou (só que mais magra! óbvio.) 
É esquisito dizer "não tenho mais cushing". Digamos que eu nunca tive, de verdade. Nunca senti que eu tivesse que me privar de alguma coisa em decorrência da doença, do tumor e de todas essas coisas que parecem aterrorizantes. Parece que eu só falo disso, mas é esquisito falar de alguma coisa que, como agora eu não tenho mais, eu poderia simplesmente apagar do meu passado, dizer que nunca aconteceu. Mas acho que relembrar isso me faz uma espécie de veterana de guerra, faz de mim mais forte (apesar de eu mesma me achar uma fracote), parece até que foi tudo invenção da minha cabeça pra colocar um pouco mais de emoção na minha vida. Imagina que monótono seria se eu só tivesse feito uma graduação normal, sem ter que ficar internada no meio do caminho, se eu fosse calminha e meiga e não tivesse terminado namoros, se eu fosse uma filha e irmã exemplar que não discutisse e não brigasse e não desse xiliques, se eu tivesse ganhado bolsa no mestrado sem ter problema de ter acabado de fazer (mais uma) cirurgia no cérebro e quase não conseguir assinar os papeis... Imaginem que chato seria se eu não tivesse o prazer de começar a tomar bebida alcoólica, depois de achar que eu seria proibida pro resto da vida (sendo que antes eu nem bebia e não fazia diferença nenhuma). Imaginem que chato seria se eu continuasse magrinha como eu era e não tivesse nenhuma "estria de cushing"... 
Essas marcas são minhas cicatrizes de guerra, minhas provas, meus lugares de memória. Numas aulas do mestrado, há uns dias,  estávamos discutindo sobre memória coletiva, memória individual, memória-história e essas coisas... Os textos da disciplina fala(va)m sobre importância de histórias de vida (dentre outras coisas e uma discussão muito mais abrangente que isso, mas não vem ao caso), e eu me perguntei: será que a minha história vai ter importância pra alguém, além de mim (e minha mãe, meu pai, minha família e tals)? Que tipo de importância? O que é importante? O que deve ser contado?
Eu leio tanto Alice que já cheguei até a pensar que essas "pedras no caminho" podem ser tudo fruto de sonhos. O passado passou. Será que passou mesmo? Como eu acredito no passado? A gente vê o passado através do presente e mesmo assim é uma coisa muito rápida. Por exemplo, comecei a escrever esse post há umas duas horas... Fico escrevendo, apagando, pensando, selecionando palavras, lembrando... e o passado só se "concretiza" quando eu digito a palavra pra eternizar a fração do passado que eu quero tornar público. Nesse exato momento, estou escutando a música "Pumped up kicks", da banda "Foster the people". Eu queria tornar pública agora a sensação de satisfação que eu tô sentindo e a lembrança boa que essa música me traz, mas é impossível. Não tenho como colocar em palavras o que eu sinto numa fração de segundos e nem sei explicar. Essa música me lembra a primeira viagem que fiz junto com meu irmão, pra SP, que não foi pra eu ir pro hospital, foi pra eu ir a um festival de música, pra não me preocupar com cushing. A sensação de quando eu estava lá foi tão satisfatória quanto a satisfação de saber que passei por um monte de coisas ruins, mas superei e tô aqui escrevendo. 
É inexplicável a nossa necessidade de querer se explicar. Escrever me dá essa possibilidade e ao mesmo tempo me tira essa possibilidade. Quando a gente escreve, a gente seleciona palavras e momentos pra serem registrados, mas essas escolhas nem sempre são as que exprimem o que nós queríamos, de fato. 
Agora eu nem sei o que eu queria exprimir, pode ser que eu esteja só divagando, mas é porque estou bem. 
Quando eu tinha muito "fato" pra contar - na minha fase cushingniana - é porque eu estava vivendo "altas aventuras", mas agora que venci o cushing, dei um UP na minha vida e possivelmente eu não precise mais citar essa doença. Posso deixar o passado passar e viver o presente pensando em outros planos, sempre mantendo a saúde nos meus pontos de chegada. Eu não excluo do caminho as intempéries, porque eu escolhi viver a vida no modo "hard e com emoção". 
Desculpem-me os que vivem comigo e não escolheram essa opção, se quiserem me acompanhar vão ter que correr! (prometo que ajudo!)
Sempre que lembro dessa "minha escolha", falo pra mim mesma: sobreviver é fácil, quero ver ser eu! E aí, em seguida, meu subconsciente responde: Challenge accepted! 


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

chorar é bom

Tem gente que chora de tristeza, tem gente que chora de felicidade, tem gente que chora por desespero, tem gente que chora de raiva, tem gente que chora de decepção, tem gente que chora de medo, tem gente que chora pelos outros, tem gente que chora por si mesmo, tem gente que chora com filme triste, ou com filme bonitinho, ou com filme de terror, tem gente que chora por nada... eu faço tudo isso e não tenho vergonha de admitir.
Chorar é uma catarse, purifica a gente, purifica a mente. Não traz solução, traz soluços, mas mesmo que não seja resposta pra nada, ajuda a aceitar as coisas, ou pelo menos a botar pra fora, vomitar o que o coração não aguenta... Sim, eu chorei quando vi o resultado do meu exame e meu cortisol continuava alto, chorei porque é difícil aceitar que você passou por 3 cirurgias, ficou internada em hospitais diferentes, longe da sua casa, tentou várias dosagens de remédios, foi em vários médicos, já leu sobre todas as possibilidades... É difícil aceitar que já são 4 anos com uma doença que parece não ter fim, saber que você contraria todas as estatísticas e todo aquele bla bla bla...
Aí me dizem e eu fico pensando com dor na consciência "mas tem gente que tá pior que eu"... Existir pessoas com problemas piores que o meu não diminui o meu sofrimento, nem apaga os meus problemas. Mas chorar pensando nisso elucida, limpa os pensamentos, ou só deixa eles molhados...
Aí me disseram: "Rafa, mas pensa que tu és muito interessante, eu gostaria de te estudar!" Claro né, uma aberração linda e de olhos azuis até eu ia querer estudar! Pena que sou eu mesma! 2 anos "estudando" a doença já tá bom,  não quero me graduar, um tecnólogo em cushing já tá bom, agora chega.
Claro que me desesperei em ver que meu cortisol ainda estava alto, chorei, liguei pra minha mãe, meu irmão ouviu e praticamente me intimou a ir pra casa (achei cute, mesmo que quando eu chegue lá ele me me chame de chata o tempo todo) mandei e-mail e mensagem pra médica (as 23h!).
Ela me ligou no outro dia e me disse muito "reconfortantemente": "Fala, sua desesperada! Não se assusta assim, vamos trocar o remédio, tu pega a requisição de exame aqui e faz outro exame depois que tomar o outro remédio, eu vi teu anatomopatológico (vulgo: resultado da cirurgia) e tu não tens mais as adrenais é impossível tu produzires cortisol."
Não sei se isso me deixou mais calma ou só conformada com a minha situação de aberração. Mas em todo caso, eu recebi o telefonema quando estava no shopping center com a minha mãe, então eu já estava mais calma. Mesmo uma aberração, se está fazendo compras com a mãe, consegue ser calma. (fica a dica!)
Agora eu tô melhor, já chorei, já ri, já saí, já troquei o remédio... só não fiz um novo exame (é o que me amedronta, mas ok)

Essa semana não tô muito "auto-ajuda", mas até que tô com uns pensamentos "auto-ajudantes", só não tô muito apta pra expô-los, porque esses pensamentos são rápidos e eles correm de mim quando eu consigo chegar perto de alguma coisa pra registrá-los.
Acho que meu projeto "verão 2013 com medidas perfeitas magicamente" vai ter que ser alterado pra "verão 2014 com muito suor e malhação". Fazer o que, né? Eu sempre falava pra minha mãe na minha adolescência (cof cof, me sentindo idosa) "eu queria tanto ser diferente!"
Agora toma na cara, Rafaella.
Sou diferente de todas as estatísticas de "praticamente 100% dos casos de cura após adrenalectomia". Eu sou o "praticamente"! Não era isso que eu pedia (eu acho)... acho que isso serve pra eu aprender a pedir melhor, ser mais específica. Deixar de ser preguiçosa na escolha das palavras, a gente tem que falar tudo que precisa, nem mais, nem menos.
Mas contrariando o que eu acabei de afirmar, vou parar de "falar", porque mesmo que eu precise falar outras coisas, não acho que agora seja o momento (até porque eu tô atrasada pra outras coisas, enfim...)
Não que escrever no blog seja uma coisa muito necessária, né? Mas é tipo chorar... escrever faz a gente se organizar e tentar colocar as ideias no lugar.
Chorar é bom. Escrever é bom. (sem analisar sintaticamente, por favor, obrigada)


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

cortisol 24h

Tenho poucas coisas a dizer...
frustração
decepção
desespero
aberração
incompreensão



CORTISOL LIVRE URINARIO *
   Metodo: quimioluminescencia

 * CORTISOL LIVRE..........: 361,26                               

(valor de referência: 55,5 a 286,0 ug/24h)
* OBSERVACOES *
   Volume tido como de 24 horas em ml: 1620
   Realizado DLE, RJ sob no: 002-16293-336

 Data e hora do registro da coleta: 06/08/2012 as 06:00

espero explicação, SOLUÇÃO. e só.
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tentativa de postar um PDF





Com ajuda de um primo meu, muito querido, consegui colocar o PDF direto no post! Vivas!

Esse livro eu fiz numa disciplina enquanto eu ainda estava na graduação.
Observação importante: Miguel é meu afilhado.







quinta-feira, 9 de agosto de 2012

o que será, que será?

E hoje foi mais um dia de consulta médica... o que era pra ser um dia de respostas. 
Mas não foi. 
Quer dizer, foi bem mais ou menos... 
Daqui 3 dias minha "adrenalectomia bilateral" vai fazer aniversário de 2 meses e nenhum quilo a menos. Minha endócrino (leia-se: médica endocrinologista) já me disse infinitas vezes que não tem como essa cirurgia ter dado errado, porque eu simplesmente não tenho como produzir mais cortisol.

Vamos às explicações: eu tenho um tumor hipofisário, no cérebro, e esse tumor produz ACTH em excesso. Esse ACTH é um hormônio que comanda a produção de outros hormônios, entre eles o cortisol. O cortisol é produzido SOMENTE nas glândulas suprarrenais (que é a mesma coisa que 'adrenais'). O ACTH em excesso mandava minhas adrenais produzirem muito cortisol, por isso eu tinha o cushing. Fiz várias cirurgias na hipófise pra tentar tirar o tumor, mas não deram certo, porque o tumor é tão ínfimo que não dava pra ver na minha hipófise mais ínfima ainda. Os médicos não quiseram retirar minha hipófise porque ela comanda a produção de vários outros hormônios, e isso me prejudicaria em muitas outras coisas, eu teria que repor todos os hormônios que o ser humano precisa pra ter uma vida saudável (e não são poucos). Então a opção foi retirar as adrenais que produziam cortisol, pois assim o ACTH não teria mais onde mandar, então não importa se ele está em excesso porque eu não teria como produzir mais cortisol (que era o que me fazia mal). Por esse motivo os exames de ACTH agora tem valores elevados, contrastando com os exames de cortisol (que devem ser) baixos. [eu ainda não sei o valor do meu cortisol, porque o resultado não saiu, mas com certeza deve estar baixo, porque meu ACTH tá bem alto]  

Cheguei na consulta, a médica me pergunta sobre tonturas, náuseas, perda de apetite, de peso e todas aquelas coisas que não aconteceram comigo... eu não tinha o que falar, ela não sabia porque não tinha acontecido e me perguntou se eu tinha certeza que meu remédio era de 5mg e se na farmácia não tinham dado 20mg enganado... Eu disse que tinha certeza (mas quando cheguei em casa fui conferir de novo, era 5mg mesmo, não sei se fiquei feliz ou triste). Aí ela me fala sobre uma paciente que fez cirurgia também há pouco tempo mas que já emagreceu 30kg e ela teve que aumentar a dose de cortisol porque a paciente passava muito mal. Imaginem minha decepção. Não que eu quisesse passar mal, muito menos emagrecer 30kg (porque se eu emagrecer tudo isso eu desapareço), mas aqui estou eu, sem saber se minhas reações são normais, se essa minha falta de concentração, meu sono desregulado, meu apetite normal, meu não-emagrecimento, e todas minhas pseudo-queixas são simplesmente uma reação diferente porque cada organismo é de um jeito, ou se eu tenho algum problema não catalogado ainda pela medicina.

Ah! E o ACTH alto não me prejudica em nada, pelo que a médica disse a única coisa que pode acontecer é o tumor crescer, mas como (acho que eu já disse isso) ele é minúsculo isso não tem problema, porque aí ele vai aparecer e aí é mais fácil fazer cirurgia pra tirar (sim, eu teria que fazer OUTRA cirurgia na hipófise), mas dizem que leva tempo, uns dez anos, ou mais (ou menos, sei lá).

Ah! [2] A única coisa que eu vi uma "mudancinha" foi meu rosto, tá afinando um pouquiiiiiiinho. Eu só fui notar porque parei pra ver fotos e comparar as datas, se não fosse isso eu ia jurar que tô a mesma coisa (porque nunca medi meu rosto com fita métrica, né). Pra não dizer que tô mentindo, vejam com seus próprios olhos clicando aqui.

Ah! [3] Uma informação inútil, mas que TODO mundo me questionava: sim, eu posso ingerir bebida alcoólica! Passei dois meses achando que não, porque eu li na bula da prednisona que não poderia e quando eu mencionava isso pra alguém... AQUELA cara de espanto surgia no rosto de quem quer que fosse, teve gente que me disse "ai, coitada! não pode beber? não queria tá na tua pele!" HELLO, PEOPLE! Eu tinha cushing! Eu tinha pressão alta, cansaço, estrias... TÔ GORDA por culpa do cushing! Beber é o de menos. Nunca fui muito disso mesmo (quando eu achava que não podia beber a minha vontade aumentou 200%, até porque antes eu nem tinha vontade... aquela história de que "o proibido é mais gostoso")
Bom, mas caso eu queira afogar minhas mágoas na bebida, pelo menos eu sei que não vai cortar o efeito do remédio.

Enfim, quer dizer, não tem fim nenhum, eu ainda vivo uma grande incógnita, porque nem sei direito que reações do meu organismo (ou falta delas) vem "a seguir"... daí eu fico naquela...

"Será, que será?
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho..."

sexta-feira, 20 de julho de 2012

agora é oficial: vou mudar! (ou, mudei?)

Essa história de "vou mudar" parece coisa de promessa de fim de ano (que a gente nunca cumpre), mas não é.
Até porque estamos no meio do ano e aí teria que ser "promessa de meio de ano" e isso não encaixa. Aliás, "em caixa" é o que resume bem essa "história de mudança".... Sim! É isso mesmo! Estou de mudança. Tá, eu já falei isso. Sim, eu tô um pouco nervosa, e é por isso que estou "gaguejando".
É difícil mudar, sabia?
Depois de passar por (mais) uma cirurgia contra o cushing, depois de quase um mês eu já esperava estar uma garota calma e serena... Quem esperava (assim como eu, por um milagre) uma pessoa meiga e djugo djugo, esqueça. Não tô falando pra decepcionar ninguém e nem pra fazer draminha, mas é que eu não vi/senti nenhuma mudança de humor (pra melhor) depois da cirurgia e é melhor não iludir ninguém, né?
No pós-operatório eu saí do hospital ainda com o dobro da dose de cortisol que estou tomando agora, (eu estava com 15mg - dois comprimidos pela manhã e um à noite - e agora estou com 7mg - um comprimido pela manhã e meio comprimido à noite) eu imaginava que ainda estava inchada e "irritada" por isso... mas sejamos realistas, quem consegue imaginar Rafaella Machado, na atual conjuntura, uma pessoa sossegada e em paz com o mundo? Eu não consigo... mas assim... eu tô tentando, juro.
Quem lê deve pensar "tá, então para de tomar esse veneno de uma vez!". Não, galerinha querida, eu não posso "Não ter cortisol", ninguém pode! Já me disseram que se eu ficar 3 dias sem tomar o remédio é caixão! ui, deuzolivre.
Ando meio deprê, não tô engraçada, não tô produtiva e nem tenho tragicomédias pra contar. Li em algum lugar que "insuficiência adrenal" pode causar "astenia", que seria "uma sensação generalizada de debilidade e falta de vitalidade, que se sente tanto a nível físico como intelectual, e que afecta a capacidade de trabalhar ou realizar tarefas simples. Não melhora com o descanso. (...) Estado geral alterado, fadiga muscular, problemas de concentração e de sono (...)." Dentre outras coisinhas mais... mas acho que eu não tenho isso, meu problema deve ser uma grande preguiça sem cura, que não me deixa fazer nada produtivo. Inclusive escrever. Aliás, este post eu comecei no dia 06 de julho e olha só, hoje é dia 19.
No dia do começo do post eu estava arrumando a mudança, agora já mudei (de casa). Minha intenção inicial era escrever alguma coisa meio ambígua e tal, querendo "anunciar minha mudança", como se fosse uma mudança dupla, de moradia e de comportamento...
Digamos que até que posso continuar dizendo que aconteceu "alguma coisa dupla". Eu ainda não sinto que mudei de casa e também não sinto que mudei de comportamento (continuo reclamona e todas aquelas coisas que todo mundo sabe).
Tô a cada dia mais manteiga derretida, mas acho que isso não é uma mudança, é só tipo um "level" a mais de choradeira.
Não sei mais o que eu já falei ou o que eu queria falar aqui, ando tão distraída que na verdade nem tenho muita vontade de falar alguma coisa... mas aí fico assim, falando e falando e falando e nada tem muito sentido ou parece ser conveniente... é... e como é de graça aí eu continuo...

Pra deixar as coisas mais claras... não, eu não fiz mais uma cirurgia em vão, porque, segundo minha médica: "Tens que pensar que esta cirurgia tem 100% de acerto". Essa foi a resposta que ela me deu a um email em que eu descrevia minha revolta por não sentir mudanças... A questão é que me fizeram propaganda enganosa dessa cirurgia. Me disseram que eu sairia de lá passando mal, com náuseas, tontura, perda (quase total) de apetite e mais um monte de coisas de doente. Eu saí muito bem do hospital, apesar da minha falta de vontade de fazer qualquer coisa, não passei mal nenhuma vez... aí eu penso "será que eu sou uma aberração e meu organismo reage de maneira diferente e jamais vista pelos médicos? será que eu sou assim tão forte que não preciso da dose recomendada a maioria dos portadores de insuficiência adrenal? será que eu sou a versão feminina do Hulk?"
A parte da versão feminina do Hulk explicaria bastante coisa (exceto o detalhe que eu nunca fiquei verde, mas roxa já fiquei e MUITO e com bastante facilidade!)

Relendo o parágrafo inicial, que eu não escrevi hoje, não ficou muito claro porque eu falei em mudança (de moradia) e que é difícil... Geralmente se a gente se muda pra uma casa melhor e tal nem é tão difícil, a questão é que eu me mudei sozinha, eu saí da casa dos meus pais, vim morar perto da universidade.
E aí me perguntam "mas por que, diabos, tu se mudou?" "se tu mora na mesma cidade, se tu tens tudo em casa, se tu se dá super bem com teus pais e irmãos, se tu tem tudo que tu queres em casa, se tu não precisas se mudar, se tu tens tudo, se tu não precisas, se tu tens tudo, se tu não precisas, se tu tens tudo (...)"
Não, eu não repeti porque eu fiquei completamente maluca (será?) é porque é isso que reverbera na minha cabeça... Foi difícil vir pra cá, mesmo sabendo que é só pegar um ônibus e já tô em casa de novo, quer dizer, na casa dos meus pais... uma vizinha minha (não de agora, de antes) me viu chorando e perguntou se eu ia pra Bahia ou pra outro país...
Quando eu era mais nova, antes de todas essas aventuras cushingnianas, eu "sonhava" em morar sozinha, perto da faculdade e tal... agora eu já nem sonhava mais. Mas sempre quis ser "independente". Eu não me mudava porque não tinha condições financeiras pra me manter sozinha. Agora eu "tenho", aí sabem o que eu descobri?
Descobri que dependência emocional é muito mais pior de horrível de sofrimento que dependência financeira.
A gente vive pensando em objetivos de vida. Eu, enquanto fazia trocentas cirurgias, vivia pensando que queria me livrar do cushing, em tese eu já me livrei, mas ainda não tô satisfeita, porque ele deixou vestígios que não me deixam esquecer que esteve em mim. Agora eu tenho outros objetivos, que é me livrar desses vestígios, enquanto isso continuo insatisfeita. Mas eu me pergunto, quando eu estive satisfeita? Acho que a gente não deve estar satisfeito nunca com o que temos, senão a gente nem tenta mudar. Mudar é bom, é o que faz a nossa vida ter objetivos é o que faz a gente querer viver. Eu digo que não vejo mudança em certas coisas, mas na verdade é porque eu ainda preciso de mudanças, porque eu ainda preciso ver muita coisa nessa vida...
Acho que a única coisa que a gente DEVE estar e ser satisfeito é com as pessoas que estão do nosso lado enquanto vamos atrás dos nossos objetivos. E isso eu não estou satisfeita.
Eu SOU satisfeita. Porque "ser" é muito mais forte que "estar". E não digo que as pessoas "estão ao meu lado", porque as pessoas que me fazem bem, que fazem parte de mim, elas me fazem "ser". Eu sou o que eu sou pelas pessoas que fazem parte da minha vida. E sempre vão fazer.

A gente sempre dá sentido às coisas conforme o momento que estamos passando. Não costumo postar imagens aqui, mas me mandaram essa e eu achei que se encaixava com essa história...


... meio deprê e monótono esse post, mas eu tô "em fase de Mudança", desejem-me sorte.

p.s. acho que eu escrevo "e tal" demais, mas enfim...