terça-feira, 18 de maio de 2010

a colheita do desprezo

Então, o que é arte? Não tenho pretensão nenhuma de achar uma definição, mas tenho a prepotência de fazer arte significar alguma coisa pra mim. E o que isso tem a ver com minhas divagações e relatos? Oras, tudo a ver. Primeiro porque voltei às aulas e a todo momento me vêm questionamentos do tipo “isso tem alguma utilidade? mas quem deu valor pra isso?” E é esse mesmo questionamento que todo mundo faz quando vê algum quadro de pintura abstrata, por exemplo. Arte não precisa ter utilidade, mas tem valor sim. Valor de culto? Talvez. O que eu acredito é que arte seja uma questão de ponto de vista. Pode ser que pareça relativismo, mas é só o que EU vejo como arte, que vai ser arte pra mim. Eu penso que a todo momento estamos valorando (e não valorizando) as coisas a nossa volta, buscamos classificar essas tais coisas e é isso que abre uma espécie de buraco negro no mundo real, porque não se consegue explicar as classificações feitas pelo MEU ponto de vista... É engraçado como costumamos buscar sentido nas coisas e se não encontramos acabamos desmotivados ou menosprezando tal objeto. Quando, por exemplo, encontramos uma poesia aparentemente babaca e dizemos “isso é poesia? isso até eu posso fazer! mas se fosse eu com certeza não teria o mesmo valor” Claro que pode fazer e realmente não teria o mesmo valor, primeiro porque você é uma pessoa diferente e não sabe as condições em que aquela poesia foi feita. Não que precisamos entrar na mente do poeta, mas devemos fazer as coisas significarem pra nós, mesmo que seja “isso são várias palavras jogadas ao acaso que não fazem o menor sentido”. Acho que o que é feito sem obrigação de ser alguma coisa determinada é arte a partir do momento que alguma coisa intuitivamente me diz que aquilo é arte.

Não sei se essas viagens fizeram bem pro meu senso crítico, porque ultimamente eu vejo arte em tudo. Da última vez que fui pra SP, por exemplo, no táxi indo para a pousada fui observando a rua, os prédios pixados desde o primeiro até o vigésimo andar, construções abandonadas, shoppings, hotéis, zilhões de carros em fila no trânsito... tudo aquilo formava imagens diversas e representavam alguma coisa pra mim e me perguntei “por que isso não pode ser arte?” Afinal, o Coliseu pela metade é arte, a Torre torta de Pisa é arte, pinturas encontradas nas cavernas são consideradas feitos incríveis... quem sabe daqui uns anos essas pixações não sejam veneradas? Eu, particularmente, deixando de lado todo o discurso das boas maneiras, admiro não só as pixações, mas todo o processo que as envolve, a vontade de transgressão e a originalidade daquele feito; nessa Era da reprodutibilidade técnica um prédio de vinte andares TODO pixado é uma coisa única, impossível de se reproduzir, mesmo que se fotografe, serão diversos ângulos e pontos de vista de fotógrafos diferentes, a fotografia é uma arte oportunista, ela captura uma parte da arte e se vale dela... Agora o que eu capturo das coisas é arte completa. Parece um pouco da idéia de dadaísmo, de tirar algum utilitário do seu contexto original e passar a venerá-lo como arte, mas pra mim não é questão de tirar um mictório do banheiro e colocar no museu e dizer que é arte, a questão é fazer significar. Pode ser uma visão muito subjetivista das coisas, mas e daí? Eu não consigo ver o mundo com os olhos dos outros, eu enxergo com os meus olhos e só posso saber das coisas partindo da minha visão (e audição e tato e etc)...

Nessa de enxergar arte em tudo, no dia do cateterismo tive minha última visão artística dos momentos no hospital e fiz minha constatação: Médicos, sem saber, podem ser poetas! (ah! e comediantes também...)

Última semana no hospital, ansiosíssima... sou avisada para estar pronta as 7 horas da manhã pra me preparar pro exame, sou chamada as 10h30, desço na maca para a sala dos cateterismos e espero até as 14h, lógico. A princípio tinham me colocado numa sala de espera junto com outras pessoas, não sei por qual motivo uma enfermeira resolveu me colocar numa sala sozinha do lado do local de exame, ouvindo tudo que os médicos falavam durante o exame de outro paciente. Eu estava tranqüila, já estava esperando há tanto tempo que a minha noção de tempo já estava meio defeituosa... já tinha até abstraído a idéia de estar com aquela famosa camisolinha aberta nas costas e que dentro de alguns minutos eu seria furada (e estaria acordada!) em local nada confortável... Enquanto o meu tempo defeituoso passava eu ouvia a conversa dos médicos “ah, nem terminei de fazer meu imposto de renda ainda”, “é, eu faço horas lá na tomografia também, tenho que ver como vai ficar isso”, “falando nisso, semana passada peguei um caso bizarro do P.S.” várias conversas aleatórias que me alienavam da minha situação e ao mesmo tempo me traziam pensamentos meio apavorantes... coisas do tipo “é, eles estão falando coisas do cotidiano então quer dizer que o exame é fácil, tranqüilo” e logo em seguida “ai, senhor, eles não estão prestando atenção no que estão fazendo, nem ligam pro paciente, vai que fazem alguma coisa errada” Enfim... contando por cima, o caso bizarro do P.S. foi a radiografia de um objeto não identificado dentro de um orifício que não deveria ter nada dentro. Sim, bem lá. Chutem só o que foi encontrado... dou cem reais pra quem acertar... Tudo bem, eu conto, só porque eu sei que ninguém acertaria mesmo... Pois é, por algum motivo que não consigo imaginar, uma criatura, supostamente um ser humano, inseriu uma berinjela dentro de si mesma, não conseguiu tirar e teve que ir para o Pronto Socorro e virou motivo de piada! Pelo menos sua identidade permaneceu obscura... os comentários foram vários “mentira! será que ele não tinha dinheiro pra um vibrador?”, “vai ver era naturalista, vegetariano”, “será que ele incorporou aquele macaco da piada? tava medindo pra ver se saía depois de comer e não saiu” e por aí vai...

Voltando para o meu contexto, depois de muito esperar, vieram me chamar para entrar na sala de cirurgia para o exame... ar condicionado ligado, eu tremia horrores, mas não era só de frio, comecei a ficar apavorada, porém, fingi que estava muito tudo bem, não podia fazer feio, afinal, eu queria ir embora o mais rápido possível. Sala com no mínimo uns 7 médicos, mais umas 3 enfermeiras, mais os médicos (não sei quantos eram) que ficavam na sala ao lado, monitorando as imagens no computador. Primeira etapa: anestesia local; eu pensava que iria dormir e só acordaria depois que tudo terminasse, doce ilusão. Lá estava eu, nua, com frio e apavorada... Deito na maca, eles prendem minha cabeça com fita crepe pra eu não mexer (afinal das contas, meu exame era na cabeça) e eu vejo o humilde tamanho da agulha da anestesia. Tudo bem, eu nunca tive problemas com agulhas mesmo, depois nem vou sentir mais nada. Ah, eu senti sim e dói... Já tinham me contado como era o procedimento do cateterismo, mas sentir e vivenciar aquilo é, no sentido benjaminiano , de fato, uma experiência única. Para amenizar o constrangimento e a tremedeira, fui coberta com vários panos que só deixavam duas aberturas na minha virilha, como se fosse um alvo (e era!), jogaram um líquido super gelado que deixou minha perna dormente pra poder aplicar a anestesia (que doeu do mesmo jeito), tudo suportavelmente dolorido, mas apavorante. Grudei minhas mãos e pernas na maca; de tão tensa que eu estava ficaram roxas. Depois da anestesia começou a novela pra encontrar o local certo que deveria ser colocado o introdutor (um instrumento que provavelmente parece uma caneta bic, porque, analogicamente, foi a grossura dos buracos que ficaram na minha virilha, dos dois lados). Pensem numa enfermeira inexperiente tentando encontrar a veia de um paciente que tem as veias bem fininhas que quase não aparecem e ela não pode errar porque essa veia não pode estourar de jeito nenhum, é mais ou menos isso, só que são médicos, e eles estão procurando a veia que vai levar o catetér (uma mangueira bem comprida que passa por dentro de mim pra chegar no objetivo, tipo a carga da caneta bic, só que bem mais comprida) até o meu cérebro pra poder fazer a coleta de sangue. Conseguiram do lado direito suficientemente rápido, mas do lado esquerdo... não sei dizer quanto tempo levaram, porque como eu já disse, minha noção de tempo estava meio afetada... só sei que em um determinado momento se ouve “olha, tá difícil, posso ficar o dia inteiro aqui e não vou conseguir, ou a gente marca pra outro dia ou vai direto” (direto, quer dizer, “vamos direto na jugular, chame o anestesista porque teremos que sedá-la, esse procedimento é muito mais perigoso e ela não pode estar acordada porque não pode se mexer de jeito nenhum”) Ah, meus medos se intensificaram, e não era nem o medo do procedimento, era medo de ter que sair dali sem ter feito o que deveria, e ter que esperar mais pra ter algum resultado, aí virei ‘macha’ e me pronunciei “ah, não, avisa pra minha mãe que vou demorar mais e pode chamar o anestesista”, só foi a médica virar pra telefonar pra minha mãe que o médico disse “ah! não precisa, consegui!” Nossa, que alegria, quase chorei de felicidade!

Imagens parecidas com radiografias apareciam em um monitor e os introdutores e os cateteres estavam nos seus devidos lugares, tudo agora era poético... Assim que o médico estava chegando com o cateter no cérebro ele me notifica “assim que eu chegar no local certo, você vai escutar um barulho, que a maioria das pessoas diz que é parecido com uma borboleta batendo as asas numa poça d’água”, não escutei nada... de repente... “TCHIBUM” uma turbina de um avião pifa e ele cai a toda velocidade no meio do oceano do meu ouvido. Ok, o catéter está onde deveria. É uma espécie de pressão contínua no ouvido, como se eu estivesse subindo uma serra e de repente aquele estalo, só que em proporções deveras aumentadas. Agora, dois tubos de cada lado são conectados aos cateteres para a coleta do sangue a ser examinado. Cada médico fica responsável por um tubo, pois a coleta deve ser feita simultaneamente para que a análise do exame seja bem sucedida, as primeiras miligramas são desprezadas e então fazem a coleta 3 vezes (enchem 2 tubos de cada lado, a cada vez, ou seja, 4 x 3, 12 tubos ‘uau, eu sei matemática!’) , com um intervalo de tempo entre elas... Aí, as instruções “Fulano fica com o lado direito, Sicrano fica com o lado esquerdo, Beltrano colhe o desprezo” e as risadinhas e surgiam mais motivações literárias “Ah, segundo o ditado, quem colhe tempestade é porque semeia vento e agora, pra colher desprezo precisa estudar medicina”, nessa altura do campeonato eu já estava zen de novo e fiquei pensando em possíveis títulos de efeito para livros best-seller imaginem: “A colheita do desprezo”, achei o máximo... O exame acabou 16h30, mais ou menos; não podia me levantar da cama até o outro dia (noite de reflexão acerca do meu suposto determinismo, vide post anterior) Depois de todas as agonias fui liberada do hospital no outro dia mesmo e tudo era lindo, tudo agora é arte em potencial...

domingo, 2 de maio de 2010

crise dos ouvintes (ou, determinações culturais).

Walter Benjamin que me desculpe, mas estou revendo meus conceitos... o “narrador” não está em crise, a crise é dos ouvintes. Acho que existem muitas pessoas que querem falar, mas as aptas a ouvir é que estão extintas. E não é um simples “ouvir”, é ter que estar aberto a suportar opiniões e pontos de vista e críticas e relatos e preconceitos e culturas e um turbilhão de coisas. Como diria Goethe, falar é uma necessidade, escutar é uma arte. Essa moda de blog, twitter e o escambal, por exemplo, se eu (e mais um milhão de pessoas) não tivesse o que “narrar” não teria porque criar essas ferramentas... tudo bem que a invenção da imprensa (livro, etc) foi mais ou menos uma nova forma daquela tradição dos mais velhos contarem histórias e etc e agora a internet é a “próxima geração” e estamos nessa correria da modernidade em que não conseguimos dar conta de todas as “(in)formações” que estão ao nosso alcance... mas é justamente esse o ponto, por não conseguirmos dar conta do que ouvir, nossos relatos acabam se tornando fluxos de consciência, opiniões e pontos de vista jogados em algum lugar, coisas que nem todos estão dispostos e/ou tem habilidade pra absorver... ou seja, volto a dizer que a crise é dos ouvintes. Não sabemos ouvir (ou ler, no caso). Mas quando se está no hospital, a gente (eu, pelo menos) aprende a ouvir tudo, e entender o tempo, e percebe ele e enquanto isso as coisas vão passando e você consegue perceber muito mais do que está passando junto com o tempo, inclusive as palavras das pessoas que vão passando... É, exatamente, bem assim confuso. O que eu percebo nesse meio tempo? Percebo que o que nós percebemos é cultural, que vivemos praticando rituais, que várias coisas que eu percebo já foram percebidas por outras pessoas, mas é incrível quando eu constato isso sozinha. Lá vou eu para relatos conectados à suposta teoria... Após o cateterismo – sim, finalmente o último exame! – fiz uma constatação durante a recuperação do exame, no hospital: a maneira como fazemos nossas necessidades fisiológicas é cultural. Parece ridículo, mas é verdade. Antigamente, as pessoas faziam xixi em penicos que ficavam no meio do quarto, depois criaram umas casinhas com buracos, depois de um bom tempo que criaram os banheiros e o vaso sanitário e papel higiênico e todas essas coisas maravilhosas; ou seja, aos poucos os costumes vão mudando porque a cultura vai mudando, novas invenções vão surgindo, novos valores vão surgindo, mas aí me deparo com a situação: feito o cateterismo você não pode sair da cama até o outro dia, traduzindo: faça xixi na “cumadre” (uma espécie de penico de alumínio) deitada na cama. Olha, admiro quem consegue... mas eu, travei completamente, a minha cultura, a minha época, os valores e a forma que fui criada simplesmente me condicionaram a fazer xixi no banheiro, é inexplicável o bloqueio da minha mente em relação a prática de fazer xixi num penico no meio do quarto. E eu fico me perguntando, “será que se eu tivesse nascido em algum outro lugar que as pessoas ainda façam xixi no penico eu talvez não tivesse ficado quase explodindo de vontade até o outro dia? esse bloqueio são questões psicológicas? meu cérebro é assim tão determinado?” Não sei, só sei que a sensação de alivio no outro dia quando fui no banheiro foi uma coisa tão boa que eu até esqueci que poucos minutos depois eu teria que tirar o curativo (leia-se: pedaços de esparadrapo superultramegapower aderente envolta das minhas pernas, fazendo uma pressão imensa para que os belos buraquinhos do cateterismo não sangrassem de jeito nenhum, quase trancando minha circulação de tão bem presos). Pior do que depilação com cera quente! Que diga-se de passagem, é mais um ritual meio idiota que nós fazemos por uma questão cultural, porque antigamente isso também não acontecia, mulheres tinham os “apêndices filamentosos da pele” bem compridinhos, barbear-se era coisa de homem... Mas eu também não sei como as criaturas conseguiam viver desse jeito, acho tão mais higiênico, sinto-me tão mais limpa sem “excessos”, assim como tomar banho, é um habito condicionado culturalmente, que pra mim é quase uma coisa catártica. Higiene é cultural, e nesse ponto sou extremamente etnocêntrica, adoro a sensação de um banho e agradeço por ter aprendido esses costumes, mas como não sou de outro jeito, não sei se talvez eu também não gostaria de tomar banho somente uma vez no mês, ou coisa parecida... Talvez Bakhtin me entenderia, somos presos a costumes e nem nos damos conta disso, às vezes nem sabemos quem foi que nos passou tais hábitos, é uma forma de ser que está implícita...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

seguindo a estrada dos tijolos amarelos.

Vivemos em uma cultura grafocêntrica que torna oficial apenas aquilo que está registrado, apesar de que mesmo as coisas escritas às vezes precisam ser confirmadas com falas repetidas...

Por exemplo, vôos domésticos; as instruções de segurança que são encenadas pelos comissários de bordo estão todas desenhadinhas e descritas em cartões de papelão atrás dos assentos, mas sempre são repetidas e ainda fazem questão de dizer no final “cartões com informações de segurança encontram-se nas bolsas a sua frente...” Estou ouvindo bastante essas instruções ultimamente... e toda vez que sento leio “use seat bottom cushion for flotation” e fico imaginando o avião caindo na água e eu tentando desprender a parte de baixo do assento pra usar de boinha... É toda uma questão teatral, tem o roteiro, as falas, as encenações, o cenário e o figurino (lógico!) Dizem que o curso de comissário(a) é difícil, mas só consigo pensar num curso de maquiagem e mímica. Será mesmo que existe uma avaliação pra repetir aquelas frases prontas das instruções, com aquele inglês típico “lê como se escreve”? Essa "Era da tecnicidade"... tem que ter diploma pra tudo, até pra fazer “ceninha”.

O pior é saber que essas coisas são necessárias, e existem pessoas despreparadas pra lidar com coisas básicas. Tá certo que o que parece básico pra mim, pode não ser básico pra outra pessoa, porque a vivência dela é diferente da minha e ela pode nunca ter precisado de determinadas informações (como as instruções de vôo), mas aí me deparo com a minha situação (que é a de inúmeras pessoas) quando se está num hospital, o mínimo que se espera é que as pessoas que dão informações saibam lidar com pessoas, saibam dar as informações! Não, doce ilusão... É por termos o hábito de perguntar, que as informações escritas não são suficientes, percebe-se que as orientações são mal-formuladas e “quem não se comunica....” se perde mesmo. Se alguma informação quer ser transmitida de maneira eficiente, deve-se SEMPRE pensar em como o outro receberia aquela mensagem, primeiro de tudo pensar “quem é o outro?” É lógico que não somos analistas, ninguém tem poder de ler pensamento ou coisa parecida, pelo menos eu não tenho, mas não precisa ser um gênio pra conseguir se comunicar, aliás, acho até que gênios devem ter até um pouquinho mais de dificuldade... o ponto é: adaptar a maneira como as coisas são ditas para serem compreendidas facilmente e não só isso, serem também “absorvidas”, que as pessoas leiam determinada informação e que aquilo fique claro e ela consiga agir por si mesma, que não precise perguntar nada a ninguém...

Exemplificando... a primeira vez que vim pra cá, entramos no Prédio dos Ambulatórios, tinhamos que encontrar um elevador e ir até o sétimo andar, ok, simples... mas não! Existem vários elevadores e cada um pára em determinados andares, isso não está escrito em lugar nenhum, ouvimos alguém dando essa informação pra um outro alguém, agora mais um impasse qual elevador pegar? Paramos pra perguntar “siga a faixa verde e amarela”, Não tinha faixa verde e amarela, só tinha faixa amarela, “deve ser essa”, chega até o final da faixa amarela, nada, pergunta pra mais alguém, “ah, vai até o final do corredor que vai começar a faixa verde e amarela”, ou seja, primeiro era só amarela e chegar até a verde e amarela implicaria primeiro passar somente pela amarela, informação corrompida, me senti a Dorothy do Mágico de Oz... Enfim, encontramos, mas somente porque perguntamos, pois as informações (plaquinhas, faixas e etc) não eram suficientes, num lugar imenso desse, seria plausível que informações de localização básicas fossem mais claras. O ditado “quem tem boca vai à Roma”, inicialmente era “quem tem boca vaia Roma”, nessas horas penso em como explicar essa transformação... (acho que tô viajando, mas faz sentido!) Então, somente quando você tem discernimento de como as coisas deveriam ser, você consegue chegar em algum lugar, metendo a boca no trombone.

Orientações são boas se forem simples, completas e práticas... Mais um exemplo... Vim pra cá com a minha mãe, ficaram três homens em casa, ah! e mais um gato, não posso esquecer dele. Em condições normais de temperatura e pressão, homem já é desprendido de tarefas domésticas, imaginem sozinhos e com um gato, então imaginem as condições de um apartamento nessa situação em 20 dias. Precisei tomar providências preventivas, fiz uma lista de orientações básicas, sempre pensando em pra quem eu faria, ou seja, a escolha das palavras e dos exemplos tem que fazer sentido pra eles... eis a lista:

Dicas e Regras básicas para manter a casa organizada e habitável!

- É expressamente proibida a entrada de ANIMAIS no quarto da Rafaella.

- Manter as portas fechadas para o Abreu [o gato] não demarcar território.

- Checar as caixas do gato (de areia e de comida), para ter certeza de que ele não se confundiu. Mantê-las limpas para que ele não use a SUA CAMA como banheiro.

- Não deixar toalhas acumulando no cesto de roupas, pois em pouco tempo todas ficarão pretas!

- Verificar se o nível da água (+ sabão em pó e amaciante) está compatível com a quantidade de roupas na máquina (antes de lavar!)

- A limpeza do banheiro implica: (não jogar papel no vaso sanitário!) dar descarga até desaparecerem os fluidos; deixar os azulejos e o piso do Box livre de larvas e mofo; varrer o chão e passar pano (e LAVAR os panos logo após o uso!)

- LAVAR os copos logo após o uso. Pois, caso contrário, em pouco tempo todos os copos do mundo estarão na pia e você terá que tomar água fazendo conchinha com a mão.

- Abrir o congelador de vez em quando, para não deixar um urso polar se criar lá dentro.

- Dar uma geral na geladeira, pelo menos, uma vez na semana. Comida guardada muito tempo fica verde, cria pêlo e dá medo!

- Tirar e LEVAR o lixo TODOS os dias (mais de uma vez por dia se estiver transbordando ou fedendo!)

- Quando algum produto estiver acabando anote para comprar ANTES que acabe. Pois você pode acabar tendo que usar a mão como papel higiênico, por exemplo.

- Computador, videogame e CIA LTDA não são carentes! Podem esperar você fazer suas tarefas PRIMORDIAIS e não vão ficar depressivos...

- Passar aspirador e tirar o pó, pelo menos três vezes na semana, ou, a qualquer momento em que se perceba que os móveis e o chão, na realidade, NÃO são de veludo.

- Não faça armadilhas nos armários! Arrume de maneira que as coisas não se joguem em cima do primeiro sortudo que abrir a porta.

- Cada coisa tem o seu lugar, preste atenção no seu local de origem e coloque-a novamente no MESMO lugar a qual pertence, após ser usada!

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Fui clara? Não exatamente. Mas pra quem eu escrevi, sei que me fiz entender. Num primeiro momento deram risadas, fizeram piada, mas pelo menos eles pegaram a essência da coisa e sabem o que deve ser feito, não que tenham seguido tudo lindamente, mas agora têm consciência do que fazer (simplesmente porque está registrado!). E sei ainda que entenderam todos os “duplos-sentidos” implícitos...

Não que eu seja a “senhora informada” (talvez muito pelo contrário... hahaha), mas sei que um pouquinho de senso todos têm, só falta colocar pra funcionar...

A doença mais comum entre as pessoas é a dificuldade de serem autônomas; o pior é que ninguém pode ser curado completamente disso...

segunda-feira, 26 de abril de 2010

filme trash de sessão da tarde.

Um hospital é um grande palco de uma tragicomédia. Isso não é paradoxal, uma vez que as comédias eram feitas a partir de grandes tragédias, porém, uma mudança básica era a caracterização dos personagens. Tento não ser maldosa nas minhas observações, mas há momentos que uma pontinha de humor, talvez inadequado, nos rodeia e não tem como escapar...
Começarei pelo tema “inclusão social”. Dia da Ressonância da minha linda cabecinha. Dia de passear pelo hospital com aquele lindo pijaminha azul, parecendo uma presidiária. Desço até algum andar misterioso, acompanhada da enfermeira da endocrinologia. A enfermeira que me acompanhava voltou para o sétimo andar e lá fico eu esperando ser furada para o acesso da agulha do contraste (líquido pra ver melhor as imagens da ressonância). Outra enfermeira tenta meu braço esquerdo, só enfiar a agulha e eu “é normal esse enjôo? tá doendo.” e a enfermeira “tens certeza que não estás grávida?” uma pergunta totalmente desnecessária, principalmente porque na hora meu braço ficou roxo e qualquer ser normal teria notado que ela errou minha veia e que estava inchando sem ter injetado nada, depois que seria ridículo passar mal só porque colocou a agulha, grávidas também não tiram sangue pra fazer exames? Comecei a ver tudo branco e não conseguia ficar sentada na cadeira, mais uma enfermeira veio e tirou a agulha, pedi pra tentar a veia na mão, ok, conseguiu, mas mesmo assim ficou roxo (e ainda estou com a marca!). Aí me deitam na maca porque eu já estava meio tonta, sendo que era pra ser um exame extremamente tranqüilo, claro, tirando da mente a ideia de que você ficará durante uma hora e meia fechada num tubo que parece um caixão, sem poder se mexer e ouvindo um baita barulhão “tu tu tu tu tu tu tu tu, tá tá tá tá tá, piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, péééééééé (...)” e também sem contar com o detalhe de que sou claustrofóbica (e neurótica, principalmente!). Mas como eu estava apenas na primeira semana do meu curso de paciência, então nada de pensar muito, é só abstrair, fechar os olhos e não abrir durante o exame todo; a sala parece um frigorifico, colocam um esparadrapo na sua cabeça para não mexer de jeito nenhum, jogam um cobertorzinho e dão uma campainha pra você apertar “caso aconteça alguma coisa, nós paramos o exame” frasezinha assustadora, mas é só pra fazer ceninha. Depois de toda aquela eternidade de olhos fechados, passando frio e quase ficando surda, acabou. O ouvido sai zumbindo, mas está tudo bem. Aí novamente espera a enfermeira vir te buscar pra voltar pro sétimo andar (mais um exercício de paciência, 30 minutos esperando caladinha...), chegou, vamos para o elevador, um caminho diferente de antes, dessa vez um corredor mais estreito e silencioso, só para funcionários, um elevador antigo, primeira porta aberta manualmente, depois uma grade, todo de madeira por dentro, uma voz do além “qual andar?” não vi nada... olhei pra baixo... Uma anã pilotando o elevador! Um elevador de madeira à manivela!
Pensem em um filme trash de terror, foi exatamente como me senti! Pior mesmo foi segurar o riso, mas sabe como é, tudo a gente supera...
Próximo exame, dia da tomografia, agora é a hora da “prova do curso de paciência”. Acorda cedo, toma banho, come uma maçã, vem a enfermeira “vão te chamar pra tomografia, tens que ficar de jejum a partir do café” ok, é só a partir do café então não tem problema, desço as 7h pro exame, lá vem perguntinhas de alergia e sei lá o que “sim, já fiz uma tomografia, mas fiquei com manchas roxas no rosto e o médico preferiu fazer sem contraste porque poderia ser alergia e minha mãe já teve choque anafilático (ficou sem respirar) numa crise alérgica e concordou por precaução.” Aí pronto, mais uma espera, porque dessa vez teria que ser com contraste, então, liga pra médica pra saber o que fazer “ah, ela não chegou ainda, mas já peço pra ligarem pra radiologia” Nessa espera da ligação, fica a Rafaella sentadinha esperando e aquele entra e sai de pessoas de todos os lugares... Imagens: uma moça com duas bolsinhas transparentes penduradas num cinto, uma com um líquido amarelo e outra um líquido marrom, ui! aí ela me pergunta “por que estás aqui? cê não parece doente”, deu pra sacar que era uma comparação... ainda bem que não pareço! Percebe-se, nessas horas, que nós julgamos os outros a partir do nosso olhar, da nossa situação mesmo; um velhinho de havaianas com unhas compridíssimas e pretas! ganhava do Zé do caixão fácil fácil, esperava também há bastante tempo, subiu sem fazer o exame porque tinha comido uma maçã e tinha que estar de jejum, comecei a apavorar “putz, tô há esse tempo todo aqui esperando, nem vou falar que também comi, não vou subir pra descer depois, ah! mas será que dá alguma coisa? bom, mas já passou 4h mesmo, acho que não tem problema”; de repente chegam enfermeiros da emergência com alguém na maca, mas só vejo os pés e ouço a discussão “não podemos fazer com ele assim desorientado, somente se estiver sedado” buscam sedativo, aplicam e viram a maca, uma caveira com dentes podres e babando começa a olhar pra mim! e nada de ligação, a enfermeira da radiologia liga novamente pra endocrinologia “ah! não avisaram nada que ela estava aqui? bom, mas e a médica está aí agora?” Nada, espera mais um pouco, os médicos da radiologia vem conversar comigo “bom, o procedimento padrão é aplicar um antialérgico, podemos te dar um medicamento corticosteróide e...” Mas corticóide!? É investigação de cushing! Pra que mais? Eu tenho cortisol sobrando... “ah, é mesmo, temos que esperar sua médica ligar então” E se eu não os lembro desse “pequeno” detalhe? Ok, passou... Das 7h às 11h30 lá estou eu em silêncio, a enfermeira passa novamente e pergunta “mas você não fez ainda?”; “não, tô esperando ligarem...” aí a médica liga e diz pra fazer sem contraste. Faço o exame, 10 minutos. Saio do exame e “por que tinha que ficar de jejum?”, “ah, é só por causa do contraste”, “hum, então eu nem precisava?”, “é.” Ufa! Em parte revoltada por estar morrendo de fome, em parte aliviada porque tinha comido uma maçã furtivamente e estava livre de ter qualquer reação e ter ficado em silêncio. Aí espera de novo alguém vir buscar, mais uma hora... “ainda não subisse? ninguém veio te buscar?”, “não...”, “mas eu já chamei, nossa te esqueceram aqui hoje, heim”, “é, e dizem que eu não tenho paciência”, “nossa, então hoje foi pra te testar mesmo!” Viva! Mais pontos para chegar perto do diploma.
Exame sérico de dosagem de hormônio com estímulo de DDVAP. Primeira vez na “Sala de testes, número 13”. Dessa vez o tema é “Fenótipos e estereótipos”. Senta na cadeirinha do lado de um menino que aparentava ter 10 anos, o braço parecia um graveto, enfermeira custou pra conseguir tirar sangue, mas tava indo, o pai do menino sentado esperando, um moço negro (inclusive com um corte de cabelo igual parecendo que o menino era seu clone), e do lado dele um senhor bem velhinho, de bengala, que estava esperando a mulher dele, que era uma senhorinha bem velhinha também (ambos brancos); aí o menino passa mal e a enfermeira diz pra médica responsável na sala “chama o pai dele que tá ali sentado esperando”, a médica levanta e olha pros dois homens sentados e pergunta “qual dos dois é o pai dele?” Nossa, mesmo a pessoa mais desprendida de estereótipos veria que não é questão de educação, é só constatar fenotipicamente que só podia ser um dos dois! Dava pra ver nos olhos do pai da criança aquele sentimento de vergonha alheia, todos que estavam na sala se olharam e eu só conseguia imaginar os pensamentos “Ela só pode estar brincando...” Aí chega a minha vez, acham minha veia tranquilamente, tiram sangue, deixa o acesso, daqui a 15 minutos aplica o medicamento, colhe o sangue novamente, espera mais 15 minutos, colhe de novo, depois mais 15, colhe de novo, e de novo e de novo e de novo... uma hora e meia fazendo isso e retorna pro quarto... Chega lá “Rafa, tivemos que te trocar de quarto porque o outro estava de reforma aí o quarto que você estava virou quarto de homem”, “Ah... que maravilha...”, Entro no quarto pra pegar minhas coisas, uma convenção de médicos e alunos ouvindo as historinhas dos pacientes homens, ouço um trecho de uma das narrações “é, antes da cirurgia da hipófise eu calçava 50, aí depois de tirar o tumor comecei a calçar 48...” Uau! Hipófise também, ui, que ervilhinha poderosa, heim... Bom, fui pro outro quarto, dessa vez dividido com mais 6 pessoas! Mas lá vamos nós para mais uma provação...
Segunda vez na sala de testes, dessa vez outro paciente foi junto, de outro quarto... Um “menino” de 225cm! Hospital de anões e gigantes... Muito simpático o moço, fomos conversando pelo caminho e ele bateu a cabeça num espelho quando saiu do elevador por que estava falando comigo e não viu, já não falo muito, mas aí mesmo resolvi ficar quieta. Chegamos na sala aquela coisa de furo aqui, pega veia ali, aplica medicação e etc e aquele moço enorme começa a passar mal numa cadeirinha minúscula, as enfermeiras ficam apavoradas, mas logo passa e ele já está conversando comigo de novo. TV ligada pra passar o tempo por que não se pode dormir, algum cantor sertanejo num comercial e o pequeno grande moço comenta “ah, eu gosto de bastante música, mas sertanejo me acalma, sabe...”, e eu “Ah, eu não gosto de sertanejo não, sou um pouco chata (modesta) com essas coisas” e ele “gosta de rock né? quando te vi lá no corredor eu logo pensei que gostavas de rock”, ; “é, isso, mas por que logo pensou?”; “mas não gostas desse rock de agora desses meninos que usam calça apertada? não tens cara que gosta disso, tens cara que gosta daquelas coisas mais pesada, heavy metal?” Bom, ele não me respondeu porque logo pensou isso, não sei como meus trajes, de pijaminha azul do hospital, denunciaram isso, mas, como diria meu irmão mais novo, me senti “lisonjeada pelo elogio regozijante (sem regurgitar!)”...
Então... Constato que de todas as situações podem-se arrancar sorrisos...
Mesmo em meio a um circo de horrores (?), ainda há momentos em que sua autoestima é uma boa companheira.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

fora do corpo (ou, a princesa e a ervilha).

Fluxo de consciência não tem ordem cronológica, vou e volto no tempo e no espaço, jogo palavras ao relento, é bom, é terapêutico. Já falei que não gosto de livros de autoajuda, mas cada vez que escrevo me sinto quase como um Paulo Coelho, isso é tão deprimente (se fosse pra ganhar o rico dinheirinho dele acho que eu ficaria bem alegre), enfim...

Nessa história de ir e voltar, nunca viajei tanto como nesses últimos meses (tanto no sentido literal como no figurado). Por exemplo, estou na minha casa agora. Sinto a melhor sensação do universo e ao mesmo tempo sinto que não estou aqui, porque minha mente ainda está no HC, não por completo, mas uma parte significativa. Como diz minha mãe, “pode ser ectópico, fora do corpo!” – já desenvolvo isso melhor - Ainda bem que a parte da mente que não tá comigo agora é a parte doente. Fui liberada por bom comportamento...

Então, vamos à lá Jack (estripador), por partes... Eu estou bem, (apesar dos pesares) ótima, na verdade. É uma questão de como a gente encara a doença. Como já comentei, a problemática maior do cushing (no meu caso) é encontrar a fonte de produção desse cortisol/ACTH desregulado. Começa por aí, a nomenclatura. Essa tal fonte de produção, pode ser “oh! meu deus! um tumor!” ou sejamos menos dramáticos e podemos dizer que a fonte é um adenoma. Se for medido o nível de preocupação de alguém que recebe a notícia de um tumor, e comparado a de alguém que recebe a de um adenoma (que é a meeesmíssima coisa) com certeza vai notar uma diferença significativa em relação às reações. Talvez por isso os médicos prefiram usar linguagem técnica – por não saber lidar com emoções a flor da pele dos pacientes, nós, leigos – Acho que funciona um pouco, mesmo eu sendo uma pessoa esclarecida, sabendo que os dois termos se referem à mesma coisa; prefiro usar o termo “adenoma”, “tumor” assusta muito.

Segunda coisa, a localização. Essa produção está acontecendo em algum lugar, normalmente acontece em uma glândula que por algum motivo desconhecido ficou enlouquecida e saiu espalhando cortisol por todo meu corpitcho. As glândulas responsáveis pela produção desse hormônio são as supra-renais que são controladas pela hipófise, que se localizam, respectivamente, acima dos rins e no cérebro, porém, contudo, todavia... por algum outro motivo não identificado essa produção pode acontecer em algum outro órgão qualquer (não tão qualquer assim, mas vamos generalizar) e essa seria a “produção ectópica” – Do gr. éktopos, ‘que está fora de lugar’. Ok, não explicou muito, pode ser em qualquer lugar, então? Não é bem assim, mas resumindo a novela é localizar pra retirar. Viva o relativismo.

Isso me lembra um conto do Andersen, a “Princesa e a ervilha”, quase me sinto fazendo parte da nobreza. Uma glândula minúscula do tamanho de uma ervilha (no meu caso, menor ainda) que altera uma pá de coisas na minha vida.

Nessa busca pela ervilha estragada, eu fiz trocentos exames laboratoriais e de imagem – cada dia de exame foi um episódio digno de ser contado com detalhes (depois...) – mas todos inconclusivos (ou os resultados demoram séculos), O último, que supostamente será o decisivo, foi marcado com um intervalo de duas semanas, ou seja, eu ficaria internada no hospital sem fazer absolutamente NADA durante duas semanas, surtando e chorando que nem criança pequena, sem poder ir no cinema, ou tomar café (decente), ou comer comida com sal, ou ver a luz do dia sem grade na frente, ou sem poder reclamar de andar nas calçadas esburacadas, sem rir das historinhas dos taxistas, sem um monte de coisas...

Esse exame decisivo é o cateterismo bilateral e simultâneo do seio petroso inferior, inicialmente eu achava que era uma coisa e soube que é outra, assustou um pouquinho mais, mas tudo bem. O que assustou? Não foi o nome, não. Foi a descrição do procedimento mesmo. Simplificando, agulhas mais grossas que o “normal” que serão colocadas em lugares não muito legais, ou seja, um catéter será colocado na minha virilha pra chegar a supra-renal e outro em alguma veia que consiga colher sangue do cérebro (?), para comparar os níveis do hormônio em cada local e saber se há diferença na dosagem e tchanan! lá estará o problema que será solucionado.

Por uma semana estou “ectopicamente” bem. Depois voltarei ao HC, pra ficar muito bem e voltar pro meu lugar.

É comum as pessoas recorrerem a seus deuses buscando respostas ou um milagre. Não procuro motivos por que eu tenho tal doença e não procuro uma cura milagrosa, pelo contrário. Só quero saber o que eu tenho e curar, não por um milagre, mas porque foi estudado e se tem uma solução, porque um milagre seria uma coisa única, excepcional, inexplicável. Quero que as soluções sejam explicadas, porque isso resulta em novas curas, o que me ajudou pode ajudar outras pessoas, mas o meu deus pode não ser o deus de outra pessoa e essas coisas acabam complicando o andamento da natureza, então prefiro não colocar essa responsabilidade em cima de algo inexplicável. Acho que pedir pra deus uma coisa dessas não é certo. Deve-se deixar cada um com seu ofício. O que eu penso de deus? Mais uma vez começa pela nomenclatura. Deus (com letra maiúscula) é uma entidade criada pra subsidiar problemas sem respostas e muitas vezes transforma algumas pessoas em fanáticos que não conseguem distinguir realidade e metáfora. Mas o meu deus (com letra minúscula) é outro tipo de subsidio, é mais do que isso, é algo inominável, é força, é alguma coisa que deve vir de mim mesma, mas que depende de tudo que está em minha volta. Eu não pediria pro meu pai fazer a minha cirurgia, por exemplo, só porque eu confio muito nele. Deixo isso pros médicos, mesmo sabendo que meu pai faria de tudo pra me deixar saudável, porque cada um faz o que lhe cabe e seria crueldade incumbir alguém (ou alguma coisa) de uma tarefa tão específica, é muita prepotência achar que nós podemos fazer isso (tirando chefia de trabalho, etc – mesmo assim ainda tem uns prepotentezinhos em demasia). Não é que aquele alguém seja incompetente, muito pelo contrário, aquele alguém é muito especial, mas de uma maneira peculiar. Acho que os que dão forças pra sermos autônomos, são os merecedores de nossa admiração, e é essa força que eu chamo de deus. Tenho vários deuses na minha vida.

Num dia no hospital, uma senhora companheira do meu quarto recebeu visita de um senhor muito religioso que estava contando causos pra tentar animá-la. Eis a história “estava viajando com a minha família de carro pra não sei onde e de repente o carro pára, Fulano abriu a tampa do motor, bateu com um cabo de vassoura, e nada... só saiu ferrugem, nem uma gotinha de gasolina! ‘é agora? vamos cantar os hinos da igreja! Deus vai nos ajudar!’ aí cantamos sem parar, e seguimos viagem! o fusca da família andou 90km só com o combustível da nossa fé! e quando ia passar a ponte? tinha caído! a gente continuou cantando os hinos e conseguimos! atravessamos o rio! irmã, é a mais pura verdade! tudo pode acontecer!” Eu e minha mãe estávamos nos segurando horrores pra não dar risada da seriedade daquele “relato”. Esse tipo de fanatismo que não concordo, mas por outro lado, aquela pessoa era um deus, porque estava tentando dar forças pra senhora (apesar da historinha hilária), o problema é que esse Deus do fanático não dá autonomia a ele, e pra mim a força e a forma de encarar as coisas devem partir de nós mesmos (sem querer parecer psicologia da autoajuda de novo, mas já parecendo). No filme da minha vida, eu sou a protagonista, a diretora e a produtora, mas os coadjuvantes não são só figurantes, são essenciais pra que eu tenha referência de que sou a principal, pois eu me constituo a partir do que eu não sou, tendo isso como referência, não sou o outro, mas preciso muito, infinitamente de outros...