quinta-feira, 23 de agosto de 2012

chorar é bom

Tem gente que chora de tristeza, tem gente que chora de felicidade, tem gente que chora por desespero, tem gente que chora de raiva, tem gente que chora de decepção, tem gente que chora de medo, tem gente que chora pelos outros, tem gente que chora por si mesmo, tem gente que chora com filme triste, ou com filme bonitinho, ou com filme de terror, tem gente que chora por nada... eu faço tudo isso e não tenho vergonha de admitir.
Chorar é uma catarse, purifica a gente, purifica a mente. Não traz solução, traz soluços, mas mesmo que não seja resposta pra nada, ajuda a aceitar as coisas, ou pelo menos a botar pra fora, vomitar o que o coração não aguenta... Sim, eu chorei quando vi o resultado do meu exame e meu cortisol continuava alto, chorei porque é difícil aceitar que você passou por 3 cirurgias, ficou internada em hospitais diferentes, longe da sua casa, tentou várias dosagens de remédios, foi em vários médicos, já leu sobre todas as possibilidades... É difícil aceitar que já são 4 anos com uma doença que parece não ter fim, saber que você contraria todas as estatísticas e todo aquele bla bla bla...
Aí me dizem e eu fico pensando com dor na consciência "mas tem gente que tá pior que eu"... Existir pessoas com problemas piores que o meu não diminui o meu sofrimento, nem apaga os meus problemas. Mas chorar pensando nisso elucida, limpa os pensamentos, ou só deixa eles molhados...
Aí me disseram: "Rafa, mas pensa que tu és muito interessante, eu gostaria de te estudar!" Claro né, uma aberração linda e de olhos azuis até eu ia querer estudar! Pena que sou eu mesma! 2 anos "estudando" a doença já tá bom,  não quero me graduar, um tecnólogo em cushing já tá bom, agora chega.
Claro que me desesperei em ver que meu cortisol ainda estava alto, chorei, liguei pra minha mãe, meu irmão ouviu e praticamente me intimou a ir pra casa (achei cute, mesmo que quando eu chegue lá ele me me chame de chata o tempo todo) mandei e-mail e mensagem pra médica (as 23h!).
Ela me ligou no outro dia e me disse muito "reconfortantemente": "Fala, sua desesperada! Não se assusta assim, vamos trocar o remédio, tu pega a requisição de exame aqui e faz outro exame depois que tomar o outro remédio, eu vi teu anatomopatológico (vulgo: resultado da cirurgia) e tu não tens mais as adrenais é impossível tu produzires cortisol."
Não sei se isso me deixou mais calma ou só conformada com a minha situação de aberração. Mas em todo caso, eu recebi o telefonema quando estava no shopping center com a minha mãe, então eu já estava mais calma. Mesmo uma aberração, se está fazendo compras com a mãe, consegue ser calma. (fica a dica!)
Agora eu tô melhor, já chorei, já ri, já saí, já troquei o remédio... só não fiz um novo exame (é o que me amedronta, mas ok)

Essa semana não tô muito "auto-ajuda", mas até que tô com uns pensamentos "auto-ajudantes", só não tô muito apta pra expô-los, porque esses pensamentos são rápidos e eles correm de mim quando eu consigo chegar perto de alguma coisa pra registrá-los.
Acho que meu projeto "verão 2013 com medidas perfeitas magicamente" vai ter que ser alterado pra "verão 2014 com muito suor e malhação". Fazer o que, né? Eu sempre falava pra minha mãe na minha adolescência (cof cof, me sentindo idosa) "eu queria tanto ser diferente!"
Agora toma na cara, Rafaella.
Sou diferente de todas as estatísticas de "praticamente 100% dos casos de cura após adrenalectomia". Eu sou o "praticamente"! Não era isso que eu pedia (eu acho)... acho que isso serve pra eu aprender a pedir melhor, ser mais específica. Deixar de ser preguiçosa na escolha das palavras, a gente tem que falar tudo que precisa, nem mais, nem menos.
Mas contrariando o que eu acabei de afirmar, vou parar de "falar", porque mesmo que eu precise falar outras coisas, não acho que agora seja o momento (até porque eu tô atrasada pra outras coisas, enfim...)
Não que escrever no blog seja uma coisa muito necessária, né? Mas é tipo chorar... escrever faz a gente se organizar e tentar colocar as ideias no lugar.
Chorar é bom. Escrever é bom. (sem analisar sintaticamente, por favor, obrigada)


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

cortisol 24h

Tenho poucas coisas a dizer...
frustração
decepção
desespero
aberração
incompreensão



CORTISOL LIVRE URINARIO *
   Metodo: quimioluminescencia

 * CORTISOL LIVRE..........: 361,26                               

(valor de referência: 55,5 a 286,0 ug/24h)
* OBSERVACOES *
   Volume tido como de 24 horas em ml: 1620
   Realizado DLE, RJ sob no: 002-16293-336

 Data e hora do registro da coleta: 06/08/2012 as 06:00

espero explicação, SOLUÇÃO. e só.
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tentativa de postar um PDF





Com ajuda de um primo meu, muito querido, consegui colocar o PDF direto no post! Vivas!

Esse livro eu fiz numa disciplina enquanto eu ainda estava na graduação.
Observação importante: Miguel é meu afilhado.







quinta-feira, 9 de agosto de 2012

o que será, que será?

E hoje foi mais um dia de consulta médica... o que era pra ser um dia de respostas. 
Mas não foi. 
Quer dizer, foi bem mais ou menos... 
Daqui 3 dias minha "adrenalectomia bilateral" vai fazer aniversário de 2 meses e nenhum quilo a menos. Minha endócrino (leia-se: médica endocrinologista) já me disse infinitas vezes que não tem como essa cirurgia ter dado errado, porque eu simplesmente não tenho como produzir mais cortisol.

Vamos às explicações: eu tenho um tumor hipofisário, no cérebro, e esse tumor produz ACTH em excesso. Esse ACTH é um hormônio que comanda a produção de outros hormônios, entre eles o cortisol. O cortisol é produzido SOMENTE nas glândulas suprarrenais (que é a mesma coisa que 'adrenais'). O ACTH em excesso mandava minhas adrenais produzirem muito cortisol, por isso eu tinha o cushing. Fiz várias cirurgias na hipófise pra tentar tirar o tumor, mas não deram certo, porque o tumor é tão ínfimo que não dava pra ver na minha hipófise mais ínfima ainda. Os médicos não quiseram retirar minha hipófise porque ela comanda a produção de vários outros hormônios, e isso me prejudicaria em muitas outras coisas, eu teria que repor todos os hormônios que o ser humano precisa pra ter uma vida saudável (e não são poucos). Então a opção foi retirar as adrenais que produziam cortisol, pois assim o ACTH não teria mais onde mandar, então não importa se ele está em excesso porque eu não teria como produzir mais cortisol (que era o que me fazia mal). Por esse motivo os exames de ACTH agora tem valores elevados, contrastando com os exames de cortisol (que devem ser) baixos. [eu ainda não sei o valor do meu cortisol, porque o resultado não saiu, mas com certeza deve estar baixo, porque meu ACTH tá bem alto]  

Cheguei na consulta, a médica me pergunta sobre tonturas, náuseas, perda de apetite, de peso e todas aquelas coisas que não aconteceram comigo... eu não tinha o que falar, ela não sabia porque não tinha acontecido e me perguntou se eu tinha certeza que meu remédio era de 5mg e se na farmácia não tinham dado 20mg enganado... Eu disse que tinha certeza (mas quando cheguei em casa fui conferir de novo, era 5mg mesmo, não sei se fiquei feliz ou triste). Aí ela me fala sobre uma paciente que fez cirurgia também há pouco tempo mas que já emagreceu 30kg e ela teve que aumentar a dose de cortisol porque a paciente passava muito mal. Imaginem minha decepção. Não que eu quisesse passar mal, muito menos emagrecer 30kg (porque se eu emagrecer tudo isso eu desapareço), mas aqui estou eu, sem saber se minhas reações são normais, se essa minha falta de concentração, meu sono desregulado, meu apetite normal, meu não-emagrecimento, e todas minhas pseudo-queixas são simplesmente uma reação diferente porque cada organismo é de um jeito, ou se eu tenho algum problema não catalogado ainda pela medicina.

Ah! E o ACTH alto não me prejudica em nada, pelo que a médica disse a única coisa que pode acontecer é o tumor crescer, mas como (acho que eu já disse isso) ele é minúsculo isso não tem problema, porque aí ele vai aparecer e aí é mais fácil fazer cirurgia pra tirar (sim, eu teria que fazer OUTRA cirurgia na hipófise), mas dizem que leva tempo, uns dez anos, ou mais (ou menos, sei lá).

Ah! [2] A única coisa que eu vi uma "mudancinha" foi meu rosto, tá afinando um pouquiiiiiiinho. Eu só fui notar porque parei pra ver fotos e comparar as datas, se não fosse isso eu ia jurar que tô a mesma coisa (porque nunca medi meu rosto com fita métrica, né). Pra não dizer que tô mentindo, vejam com seus próprios olhos clicando aqui.

Ah! [3] Uma informação inútil, mas que TODO mundo me questionava: sim, eu posso ingerir bebida alcoólica! Passei dois meses achando que não, porque eu li na bula da prednisona que não poderia e quando eu mencionava isso pra alguém... AQUELA cara de espanto surgia no rosto de quem quer que fosse, teve gente que me disse "ai, coitada! não pode beber? não queria tá na tua pele!" HELLO, PEOPLE! Eu tinha cushing! Eu tinha pressão alta, cansaço, estrias... TÔ GORDA por culpa do cushing! Beber é o de menos. Nunca fui muito disso mesmo (quando eu achava que não podia beber a minha vontade aumentou 200%, até porque antes eu nem tinha vontade... aquela história de que "o proibido é mais gostoso")
Bom, mas caso eu queira afogar minhas mágoas na bebida, pelo menos eu sei que não vai cortar o efeito do remédio.

Enfim, quer dizer, não tem fim nenhum, eu ainda vivo uma grande incógnita, porque nem sei direito que reações do meu organismo (ou falta delas) vem "a seguir"... daí eu fico naquela...

"Será, que será?
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho..."

sexta-feira, 20 de julho de 2012

agora é oficial: vou mudar! (ou, mudei?)

Essa história de "vou mudar" parece coisa de promessa de fim de ano (que a gente nunca cumpre), mas não é.
Até porque estamos no meio do ano e aí teria que ser "promessa de meio de ano" e isso não encaixa. Aliás, "em caixa" é o que resume bem essa "história de mudança".... Sim! É isso mesmo! Estou de mudança. Tá, eu já falei isso. Sim, eu tô um pouco nervosa, e é por isso que estou "gaguejando".
É difícil mudar, sabia?
Depois de passar por (mais) uma cirurgia contra o cushing, depois de quase um mês eu já esperava estar uma garota calma e serena... Quem esperava (assim como eu, por um milagre) uma pessoa meiga e djugo djugo, esqueça. Não tô falando pra decepcionar ninguém e nem pra fazer draminha, mas é que eu não vi/senti nenhuma mudança de humor (pra melhor) depois da cirurgia e é melhor não iludir ninguém, né?
No pós-operatório eu saí do hospital ainda com o dobro da dose de cortisol que estou tomando agora, (eu estava com 15mg - dois comprimidos pela manhã e um à noite - e agora estou com 7mg - um comprimido pela manhã e meio comprimido à noite) eu imaginava que ainda estava inchada e "irritada" por isso... mas sejamos realistas, quem consegue imaginar Rafaella Machado, na atual conjuntura, uma pessoa sossegada e em paz com o mundo? Eu não consigo... mas assim... eu tô tentando, juro.
Quem lê deve pensar "tá, então para de tomar esse veneno de uma vez!". Não, galerinha querida, eu não posso "Não ter cortisol", ninguém pode! Já me disseram que se eu ficar 3 dias sem tomar o remédio é caixão! ui, deuzolivre.
Ando meio deprê, não tô engraçada, não tô produtiva e nem tenho tragicomédias pra contar. Li em algum lugar que "insuficiência adrenal" pode causar "astenia", que seria "uma sensação generalizada de debilidade e falta de vitalidade, que se sente tanto a nível físico como intelectual, e que afecta a capacidade de trabalhar ou realizar tarefas simples. Não melhora com o descanso. (...) Estado geral alterado, fadiga muscular, problemas de concentração e de sono (...)." Dentre outras coisinhas mais... mas acho que eu não tenho isso, meu problema deve ser uma grande preguiça sem cura, que não me deixa fazer nada produtivo. Inclusive escrever. Aliás, este post eu comecei no dia 06 de julho e olha só, hoje é dia 19.
No dia do começo do post eu estava arrumando a mudança, agora já mudei (de casa). Minha intenção inicial era escrever alguma coisa meio ambígua e tal, querendo "anunciar minha mudança", como se fosse uma mudança dupla, de moradia e de comportamento...
Digamos que até que posso continuar dizendo que aconteceu "alguma coisa dupla". Eu ainda não sinto que mudei de casa e também não sinto que mudei de comportamento (continuo reclamona e todas aquelas coisas que todo mundo sabe).
Tô a cada dia mais manteiga derretida, mas acho que isso não é uma mudança, é só tipo um "level" a mais de choradeira.
Não sei mais o que eu já falei ou o que eu queria falar aqui, ando tão distraída que na verdade nem tenho muita vontade de falar alguma coisa... mas aí fico assim, falando e falando e falando e nada tem muito sentido ou parece ser conveniente... é... e como é de graça aí eu continuo...

Pra deixar as coisas mais claras... não, eu não fiz mais uma cirurgia em vão, porque, segundo minha médica: "Tens que pensar que esta cirurgia tem 100% de acerto". Essa foi a resposta que ela me deu a um email em que eu descrevia minha revolta por não sentir mudanças... A questão é que me fizeram propaganda enganosa dessa cirurgia. Me disseram que eu sairia de lá passando mal, com náuseas, tontura, perda (quase total) de apetite e mais um monte de coisas de doente. Eu saí muito bem do hospital, apesar da minha falta de vontade de fazer qualquer coisa, não passei mal nenhuma vez... aí eu penso "será que eu sou uma aberração e meu organismo reage de maneira diferente e jamais vista pelos médicos? será que eu sou assim tão forte que não preciso da dose recomendada a maioria dos portadores de insuficiência adrenal? será que eu sou a versão feminina do Hulk?"
A parte da versão feminina do Hulk explicaria bastante coisa (exceto o detalhe que eu nunca fiquei verde, mas roxa já fiquei e MUITO e com bastante facilidade!)

Relendo o parágrafo inicial, que eu não escrevi hoje, não ficou muito claro porque eu falei em mudança (de moradia) e que é difícil... Geralmente se a gente se muda pra uma casa melhor e tal nem é tão difícil, a questão é que eu me mudei sozinha, eu saí da casa dos meus pais, vim morar perto da universidade.
E aí me perguntam "mas por que, diabos, tu se mudou?" "se tu mora na mesma cidade, se tu tens tudo em casa, se tu se dá super bem com teus pais e irmãos, se tu tem tudo que tu queres em casa, se tu não precisas se mudar, se tu tens tudo, se tu não precisas, se tu tens tudo, se tu não precisas, se tu tens tudo (...)"
Não, eu não repeti porque eu fiquei completamente maluca (será?) é porque é isso que reverbera na minha cabeça... Foi difícil vir pra cá, mesmo sabendo que é só pegar um ônibus e já tô em casa de novo, quer dizer, na casa dos meus pais... uma vizinha minha (não de agora, de antes) me viu chorando e perguntou se eu ia pra Bahia ou pra outro país...
Quando eu era mais nova, antes de todas essas aventuras cushingnianas, eu "sonhava" em morar sozinha, perto da faculdade e tal... agora eu já nem sonhava mais. Mas sempre quis ser "independente". Eu não me mudava porque não tinha condições financeiras pra me manter sozinha. Agora eu "tenho", aí sabem o que eu descobri?
Descobri que dependência emocional é muito mais pior de horrível de sofrimento que dependência financeira.
A gente vive pensando em objetivos de vida. Eu, enquanto fazia trocentas cirurgias, vivia pensando que queria me livrar do cushing, em tese eu já me livrei, mas ainda não tô satisfeita, porque ele deixou vestígios que não me deixam esquecer que esteve em mim. Agora eu tenho outros objetivos, que é me livrar desses vestígios, enquanto isso continuo insatisfeita. Mas eu me pergunto, quando eu estive satisfeita? Acho que a gente não deve estar satisfeito nunca com o que temos, senão a gente nem tenta mudar. Mudar é bom, é o que faz a nossa vida ter objetivos é o que faz a gente querer viver. Eu digo que não vejo mudança em certas coisas, mas na verdade é porque eu ainda preciso de mudanças, porque eu ainda preciso ver muita coisa nessa vida...
Acho que a única coisa que a gente DEVE estar e ser satisfeito é com as pessoas que estão do nosso lado enquanto vamos atrás dos nossos objetivos. E isso eu não estou satisfeita.
Eu SOU satisfeita. Porque "ser" é muito mais forte que "estar". E não digo que as pessoas "estão ao meu lado", porque as pessoas que me fazem bem, que fazem parte de mim, elas me fazem "ser". Eu sou o que eu sou pelas pessoas que fazem parte da minha vida. E sempre vão fazer.

A gente sempre dá sentido às coisas conforme o momento que estamos passando. Não costumo postar imagens aqui, mas me mandaram essa e eu achei que se encaixava com essa história...


... meio deprê e monótono esse post, mas eu tô "em fase de Mudança", desejem-me sorte.

p.s. acho que eu escrevo "e tal" demais, mas enfim...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

surtei e liberei os comentários, vamos ver até quando eu aguento.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

adrenalectomia videolaparoscópica bilateral

Toda vez que eu saio de uma cirurgia fico pensando num título apropriado e estou num clima meio autoajuda. Dessa vez eu não tô nesse clima e nem quero pensar num título muito criativo.
Sim, fiz outra cirurgia, a adrenalectomia videolaparoscópica bilateral, traduzindo: tirei as duas glândulas suprarrenais. Agora não produzo mais nadinha de cortisol.
Essa cirurgia foi a última etapa contra o cushing, agora tenho que andar com uma pulseirinha dizendo que eu tenho "Insuficiência adrenal", porque em qualquer situação de estresse eu preciso tomar dose extra de cortisol em comprimido.
Não fiz muito alarde em redes sociais dessa vez, mas como eu não aguento, preciso "colocar pra fora".

Fiquei no Hospital Baía Sul, um dos mais caros de Florianópolis. Bela fachada. De todos os que eu passei, foi o mais despreparado. A cirurgia ocorreu tudo bem, os médicos - que são contratados pelos pacientes e não têm relação direta nenhuma com o hospital - foram ótimos e competentes.
Depois de ter sido diagnosticado o cushing e depois de eu ter passado por tantos médicos, ficamos (eu e o pessoal aqui de casa) calejados de procurar médicos com boas referências. Se tem uma coisa que eu aprendi foi: referência é essencial em tudo na vida.
Esse hospital nós não tínhamos referência, mas o médico (urologista, indicado pela minha endócrino, que eu confio 100%) operava lá e optou por esse por ser mais "Novo" e ter menos riscos de infecção e etc... Tudo bem, menos riscos de infecção por ter menos pacientes, mas em compensação também tem menos preparo e mais descaso.
Minha mãe foi colocar o carregador do celular na tomada, o espelho da tomada caiu. Fomos ligar o ar condicionado porque a janela não abria e tinha uma reforma no prédio do lado e a batição e o barulho eram significativos, aí o botão caiu e não ligou. Pedimos uma toalha de banho à noite, no outro dia de manhã pedimos de novo e a resposta foi "temos uma briga constante com a rouparia" (detalhe: a toalha não veio!)
Daí eu pergunto: como assim isso é um hospital caro? Cadê os gestores desse lugar?

A cirurgia foi na terça-feira, fui direto para a UTI e passei menos de 24 horas.
Mas... aquelas coisas de UTI, impossível dormir, morrendo de dor, aí, pra melhorar: enfermeiros que pensam que só porque estamos imóveis nós somos bonecos e ficam falando alto e fazendo palhaçada como se não tivesse ninguém ali.

Pausa para descrever a cirurgia:
As adrenais são glândulas que ficam próximas dos rins, pra retirada delas (no método por video) foi necessário fazer 5 furos na minha barriga. Um acima do umbigo, um abaixo do seio direito, um entre os seios, um abaixo do seio esquerdo e outro um pouco mais pra baixo do lado esquerdo. Eu não quis perguntar muitos detalhes e preferi saber só do principal, porque já tô cansada de procedimentos cirúrgicos e tudo o mais... o que eu sei é que dentro de um desses furos (do lado esquerdo embaixo do seio, que deve ter uns 2 ou 3 centímetros) foi inserido um tubo pra colocar gás dentro da minha barriga! Esse gás servia pra visualizar melhor os órgãos dentro de mim - pra "separar" os órgãos, dar uma distância pro médico poder mexer, ou algo do tipo - e também pra poder fazer o procedimento com a câmera e tudo o mais... ou seja, minha barriga foi inflada. Nem preciso dizer que esse gás me deixou pior que um baiacu, né?

Pois é, em tese, cirurgia na cabeça é mais perigosa, todo mundo fica apavorado se sabe que fiz cirurgia "no cérebro". Mas, sinceramente? Acho que essa foi bem mais dolorosa. Claro que eu estava sob efeito de anestesia geral, mas a recuperação, por ter cortes e detalhes do tipo, é mais chatinha... Me senti mais inútil que da outra vez, porque até pra levantar da cama precisava de ajuda. Imaginem uma barata de barriga pra cima que fica se debatendo tentando se virar e não consegue. É mais ou menos isso. Ainda tô toda dolorida, com curativos, não durmo desde terça-feira, pareço um zumbi e ainda tô com uma marca roxa que parece que levei uma pá nas costas. E só porque eu não consigo nem rir, porque minha barriga dói horrores, daí tô achando graça em qualquer babaquice que falam aqui em casa. (não é bem "qualquer", mas, dá pra entender, né?)

Como eu sei que o pessoal gosta de ler coisas trágicas, preciso contar uma parte sangrenta - literalmente. Quando eu já tinha saído da UTI, estava no quarto, cheia de fios e soro e aquela coisa toda. Mas o acesso que eu tinha pro soro e pra medicação já estava há muito tempo e precisava ser trocado. Ok. Nunca tive problema pra "ser furada", já tô craque... mas, as queridas em treinamento que tentaram pegar minha veia não estavam craque. Uma tentando e a outra olhando, reclamou mil vezes e fez brincadeirinhas dizendo que deixei as veias em casa e blablabla e eu fingindo que tudo estava bem e percebi que ela tava nervosa, então melhor nem falar nada pra não piorar a situação. Primeira tentativa: minha mão, aí a querida número 1 pede pra querida número 2 abrir o soro, começa a correr e minha mão a inchar, ou seja, tava fora da veia. Nem falei nada. Minha mãe só disse: tá inchando, tá fora, tira isso aí. Querida número 1 tirou e foi atrás de outra veia, ficou batendo no meu braço inteiro e apertou tanto com um garrote que tava quase decepando meu pulso, aí eu falei: tô vendo e sentindo pulsar aqui ó (apontei com o dedo), ela concordou disse que era ótima e que ia conseguir e ficou tagarelando, aí furou, pedi pra tirar o garrote (porque já não precisava mais, já que ela já tinha furado e meu braço já tava doendo, claro que não falei nada disso, só pensei), ela tirou e pediu pra querida número 2 abrir o soro de novo, aí ela abriu, aí minha veia começou a escorrer muito sangue e não deixou o soro correr, aí as duas arregalaram os olhos e pegaram uma toalha de rosto pra tentar estancar o sangue que não parava, a toalha ficou completamente manchada de vermelho. Eu só respirei fundo e falei "posso tomar banho primeiro? depois vocês tentam de novo". Por dentro eu queria arrancar a cabeça delas, mas deixar mais nervosa as pessoas que vão te furar não é uma boa estratégia. Aí ok. Depois tomei banho e tudo o mais, as duas foram chamar a enfermeira chefe pra tentar, pela terceira vez. Deitei na cama, olhei pro outro lado e respirei fundo. AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH, PARA, CACETE, PELO AMOR DE DEUS, NÃO TÔ SENTINDO MEU DEDO! POR FAVOR, EU TOMO OS REMÉDIOS EM COMPRIMIDO!
É, a querida número 3 furou alguma coisa que não era pra ter furado e meus dedos das mãos começaram a se contorcer e eu não estava conseguindo movimentar voluntariamente e doeu tanto que eu xinguei até a última geração da família dela. Pedi desculpas depois, lógico. Mas... só pra me deixar bem mais calma, ela pergunta pras outras duas "qual era a medicação que ela precisava tomar intravenosa agora?" As duas respondem "não sei, vou olhar no prontuário", aí elas voltam e dizem "ela não tem mais medicação", aí ela pergunta de novo "e por que vocês estavam tentando acesso nela?" As duas ficaram se olhando e não sabiam responder!
Ótima situação, heim? Daí ainda dizem que eu não tenho paciência.

Não dá ainda pra todos ficarem felizes porque era pra eu estar mais calma, porque não produzo mais cortisol extra e etc. Na verdade ainda tô com muito cortisol, porque tô tomando uma dose muito alta no pós-operatório.
Enfim, a luta contra o cushing acabou! A nova luta agora é uma surpresa pra mim! (e pra todo mundo que me conhece e está ao meu redor, logicamente)


Bom, acho que chega, não tô muito inspirada e essa dor nas costas e na barriga tá me impossibilitando de me deixar mais tempo na frente do computador.


A cirurgia deu certo, vim pra casa hoje, já consigo levantar sozinha, mas olha... quero distância de cirurgia e hospital por um longo longo longo longo longo tempo!

Espero em breve dizer que tô mais calma e menos chata...
embora eu ache que isso não tinha tanto a ver com cushing e lamento decepcioná-los e confessar assim...

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Post atualizado em 26 de setembro de 2013:
Apenas um adendo, sobre o Hospital Baía Sul. Meses depois da minha cirurgia, minha mãe fez uma cirurgia lá, a experiência dela foi outra completamente diferente, mas o caso é: ela fala muito bem do tratamento que teve e as instalações do hospital haviam melhorado bastante. Meu irmão também fez uma cirurgia lá e eu já fiz outros procedimentos lá depois disso, todos ótimos, sem reclamações. Então, não julguem o Hospital por esse post, cada um pode ter experiências diferentes (até eu mesma, em outro momento!). Meu objetivo aqui não era fazer propaganda contra (absolutamente!!!), mas apenas relatar o meu "momento" e a maneira como eu via a situação na época. Hoje estou bem e essa cirurgia foi a definitiva, que me curou finalmente. (como pode ser visto nos posts posteriores) Enfim, fica aqui a consideração. (: