sexta-feira, 19 de abril de 2013

quando eu fui, eu tinha ido


escrever é preciso
viver não é preciso
sorrir é impreciso
chorar é aviso
correr é impossível
gritar é permitido
viajar é proibido
sanidade é comprimido.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

sobre a incompletude

uma mesa embaixo de uma janela, com vista para uma praia deserta.
uma casa aconchegante.
férias, sem prazos, sem pressão, sem perfeccionismo.
do lado uma parede inteira com prateleiras cheias de livros. lidos. não lidos. novos. velhos.
frio. uma xícara de chá.
almofadas coloridas no sofá embaixo da outra janela. um gato.
uma chuvinha fina deixa pingos no vidro, eles apostam corrida.
na cozinha, talvez uma sopa só pra passar o tempo. daqui a pouco a fome vem.
cheiro bom. a mesa da sala de jantar está muito grande.
a da cozinha está muito fria.
louças limpas.
corpo quente. estômago cheio. mente vazia.
o quadro da parede da sala convida para um passeio.
os olhos recusam, a alma suplica.
não é um convite.
o gato muda de posição e volta a dormir.
a sala está vazia.

terça-feira, 5 de março de 2013

sobre memória e esquecimento, ou, sobre felicidade e dor, ou ao contrário.


Conversando com a minha mãe, no hospital essa semana, a gente falava sobre a maravilha que é "esquecer". Ela teve que passar por uma cirurgia, em consequência da doença que ela tem, Crohn. No hospital é sempre um clima ruim, enquanto pacientes, ficamos de baixo astral e o mal-estar é constante. No entanto, eu, que passei por 4 cirurgias delicadas em +/- 3 anos, tentei de alguma maneira animá-la, dizendo que já não lembro das dores e do sofrimento que foi ficar no hospital. Ela passou a pior noite da minha vida junto comigo, quando meu cérebro dançava na minha cabeça. Foi uma sensação terrível, mas hoje já não sei mais descrevê-la, porque meu corpo esqueceu (ainda bem!). O caso é que esse processo de lembrar e esquecer é uma coisa tão louca, mas tão necessária e tão automática na nossa vida que a gente nem percebe e nem dá valor. Aliás, a gente não dá valor a inúmeras coisas quando estamos saudáveis, mas eu lembro de já ter falado disso e lembro também de comentar que odeio esses comentários do tipo "ah, mas às vezes a gente precisa passar por uma coisa ruim pra dar valor"... Eu acho que não precisa não! Assim como eu acho que não precisamos lembrar de tudo (que já passamos) pra saber o que queremos ou não pras nossas vidas. Imagina só o que seria da nossa cabeça se nós lembrássemos de TUDO pelo que passamos, precisaríamos de um cérebro imenso, íamos parecer aquele personagem de animação "MegaMente"... Prefiro esquecer. Às vezes a gente briga consigo mesmo porque a memória não é tão boa e não decoramos "aquela matéria pra prova", ou esquecemos o guarda-chuva em casa e caiu uma tempestade na hora de voltar do trabalho... Mas aí vamos pensar como a Pollyanna, imaginem que pior seria se a gente esquecesse como respirar? E vamos problematizar a situação... enquanto fazemos qualquer coisa no dia-a-dia, esquecemos que estamos respirando, mas nosso corpo inteligente lembra sozinho pra nós podermos lembrar de outras coisas que julgamos mais importantes. 
Olha que interessante, julgamos que 'OUTRAS COISAS' são mais importantes que respirar, mas quando estamos num hospital, respirar parece uma coisa extraordinária, uma benção, uma dádiva, qualquer coisa genial e maravilhosa. Dei o exemplo de 'respirar', pra não dar um exemplo mais nojento, porque sou uma garota comedida (cof cof). 
Semestre passado, a última matéria que eu fiz no mestrado, por coincidência ou não, era sobre memória. (e várias outras coisas, que não convém ficar enumerando e que, óbvio, algumas coisas eu esqueci mesmo) Não lembro qual autor exatamente, Pollak ou Halbwachs ou...?, discutia a questão da memória silenciada... é um caso complicadinho, parece paradoxal... existem as lembranças que geralmente atribuímos às coisas boas, nostalgias, mas existem lembranças que não são bem-vindas... Nem toda "ativação de lembrança" é boa como a Madeleine de Proust. Algumas memórias querem não ser lembradas, essas são as dores (no meu caso, a dor no cérebro dançarino, que eu lembro só da situação, mas não quero lembrar da dor nunca!). É engraçado como as pessoas geralmente querem falar das lembranças boas, mas as lembranças ruins preferem que sejam "apagadas" e, por isso, calam. O mais estranho é que geralmente, pras coisas ruins existem mais ouvintes que pras coisas boas. 
Vê-se o fenômeno "compartilhamento em redes sociais", compartilha-se muito mais desgraça que coisas boas. As redes sociais são como o Big Brother (não o da TV, o de Orwell mesmo), mas pioradas. As pessoas compartilham na rede a todo instante informações desnecessárias, como quem diz "oi, estou aqui! Lembrem que eu existo!". O que me intriga é saber se lembraríamos (bem ou mal) dessas 'tais pessoas' se a vida privada não fosse tão pública, como hoje em dia. Como as pessoas viviam antes da internet? Eu já tinha nascido antes disso. Nem eu lembro! 
Lembrar e esquecer são coisas tão comuns e ao mesmo tempo tão complexas. Essa necessidade de compartilhar a vida nas redes sociais deve ser consequência de algum tipo de medo de ser esquecido, ou de não ser lembrado (e isso não é a mesma coisa! e eu já falei disso! e eu acho que tô muito repetitiva. não. vamos dizer que eu só tô lembrando)
Eu, com meu blog e redes sociais e tudo o mais, faço parte dessa "massa" apavorada que compartilha a vida por aí, pra ser lembrada. E, como diz a Emília (sim, a do Monteiro Lobato), o escrevedor de memórias escreve de um jeito que o leitor fique fazendo grande ideia do escrevedor. Óbvio que eu seleciono o que quero que seja mostrado, assim como nosso cérebro seleciona o que a gente quer (e/ou precisa) lembrar... Porém, ao contrário das teorias sobre a memória silenciada - geralmente as memórias ruins são silenciadas - , (sem entrar no mérito do que seriam memórias ruins, academicamente falando os exemplos eram as memórias da guerra, assim como na crise do "Narrador" do Benjamin e aí eu lembro de já ter falado da "crise dos ouvintes") eu saio distribuindo memórias mucho loucas de situações pessoais relacionadas a momentos em hospital e etc. Pra uma pessoa normal, memórias em hospital não são coisas boas (pra mim também não, óbvio!), mas a questão é: eu ajeito as minhas memórias como eu quero, registro lembranças e torno públicas da maneira como eu gostaria que elas ficassem na memória de outras pessoas. Eu acho memórias de hospital coisas ruins, mas eu transformo (ou tento, né) em coisas não tão ruins, digamos que sejam despojos de guerra. Os outros é que julguem da maneira como quiserem.
(Ultimamente o que parece que eu tento mostrar pras pessoas é que hospital pra mim é fichinha, difícil mesmo é a vida acadêmica, mas... né?)
Convenhamos que a maneira como as pessoas querem ser lembradas hoje em dia é um pouco bizarra e o mais bizarro é a incrível habilidade de sair julgando e falando sobre a vida pública dos outros, como se não tivessem teto de vidro. Eu nem lembro mais porque eu comecei a falar disso (olha, que incrível!), mas lembrei de um monte de outras coisas e também lembrei de olhar no relógio e lembrei que eu preciso dormir, porque amanhã cedo eu vou pro hospital de novo, pra ficar com a minha mãe e pra lembrá-la que dor é passageira, como tudo na vida. menos o amor, principalmente o de filha. e desse eu não esqueço. :)


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

um teatro de alguma coisa.



Tenho costume de só escrever sobre alguma coisa depois que essa "alguma coisa" já passou, ou talvez, não esteja me incomodando, ou "alguma coisa assim". Não sei se posso dizer que "alguma coisa" passou. Na verdade, muitas coisas passaram e várias coisas estão passando e outras ainda vão passar. Não tenho muita vontade de vir aqui e escrever e contar causos. Talvez junto com as minhas adrenais tenha ido a minha motivação/inspiração pra escrever. (Espero que não tenha ido TODA a motivação pra escrever, porque senão eu não acabo a minha dissertação nunca) 
Já escrevi e apaguei umas duzentas vezes parágrafos inteiros e acho que não vou conseguir gostar de "qualquer coisa" que eu escrever. Não sei ainda porque eu persisto, mas talvez seja isso que eu precise, de persistência. 
Ando lendo "coisas" de outras pessoas e penso que eu não teria capacidade de escrever tão bem, aí lembro que um dia eu pensava que qualquer coisa era digna de "um texto", "uma tese", "qualquer coisa". Só de pensar em parar na frente de uma tela em branco com um cursor piscando já começo a suar frio e o coração a bater mais forte. Não sei se é uma doença que assola pessoas na pós-graduação, final de graduação, etc., ou se é só algum tipo de encosto que esbarrou em mim e ficou. 
Queria descobrir uma fórmula mágica que faça com que a gente consiga ver tudo lindo. Não basta ser daltônico pra ver tudo cor-de-rosa (nem gosto de rosa), e nem pensar em álcool, a ressaca é ainda pior. Quem não gostaria de tirar umas férias de si mesmo? Tirar férias de pensamentos, do mundo, de dor... É tanta coisa e ao mesmo tempo não é nada, é só a nossa mente pregando uma peça. Uma peça bem ruim, daqueles dramas que a plateia vai saindo antes de acabar. Algumas pessoas ficam, mas é só porque elas fazem parte da peça também... Às vezes dá vontade de sair no meio da peça e mudar tudo, fugir do script, mas aí eu lembro que não consigo mais escrever, não saberia escrever um novo roteiro. E aí lembro que a peça tá só no começo...

domingo, 13 de janeiro de 2013

boletim médico


Material: SANGUE
* HORMONIO ESTIMULADOR DA TIREOIDE (TSH) *
Metodo: quimioluminescencia 3a. geracao
* DOSAGEM DO TSH.......: 5,87

Valor de referência: 
> 18 anos..: 0,55 a 4,78 uUI/m


Dá pra imaginar meu estado de espírito (e de corpo também), né?
Se não consegue imaginar, então leia e saberá: sintomas do hipotireoidismo ou entrevista com Dr. Marcello Bronstein (sim, é o endócrino famoso que me colocou no HC em SP)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

I would prefer not to... be.

uma coisa que fica martelando na minha cabeça nesse período "dissertativo" da minha vida é a afirmação barthesiana de que a língua é fascista, porque nos obriga a "dizer". eu "digo" coisas mesmo sem ter dito nada e é isso que nos coloca numa posição inferior a alguma coisa (à língua(gem)? ao poder do discurso? a uma força maior? a sei lá o que...), que nem sabemos, de fato, definir. os supostos diálogos sem palavras que acontecem a todo instante poderiam ser imensos livros filosóficos sobre coisas da vida. infinitas teorias já poderiam ter sido registradas se alguém tivesse a capacidade de reverter o silêncio em palavras e organizá-las em textos, em papeis, em arquivos digitais, ou tabuinhas esculpidas. infelizmente eu não sou uma dessas pessoas e olha que meu silêncio é bem barulhento, dentro da minha mente. 
a postergação da escritura, tanto aqui, como academicamente falando, só gera mais e mais escritos perdidos em algum lugar no "mundo dos livros não escritos". leio muito e, na verdade, leio pouco. escrevo muito e, na verdade, escrevo pouco. um dia me disseram que quem sabe que não sabe é um sábio. eu poderia ficar satisfeita com essa afirmação, mas eu não sei nem o que é um sábio, há quem diga que é um elogio, eu acho que é uma maldição. não quero ser amaldiçoada, não quero saber tudo, mas a partir do momento que me deram um mínimo "saber" já me deram uma pontinha da maldição do "querer saber mais" e nunca vou saber o suficiente pra ficar satisfeita. isso é frustrante, mas ao mesmo tempo é uma forma de ter sempre um objetivo. às vezes dá vontade de escrever infinitas confissões sobre pensamentos escondidos em algum lugar, que fazem uma pequena aparição momentânea, mas aí eles somem de novo e a coragem e a convicção que estavam com eles desaparecem junto. não sei bem se é questão de coragem, porque não é algo de que eu tenha medo. só acho que é muito difícil decidir o que se acha digno de ser compartilhado, ou registrado. escrever, pensar, cogitar possibilidades quando se está sozinho é quase como tentar sair de um buraco tentando puxar os próprios cabelos. não leva a lugar algum, a gente permanece no mesmo lugar... e com a cabeça doendo. por outro lado é libertador escrever (ou dizer) quando não se tem receio de ser julgado, um dia eu achei que eu não tinha, mas só achei e agora (me) perdi. 
a verdade verdadeira é que é (que é que é que é...) tanta coisa pra se ter opinião, são tantos acontecimentos, tantas discussões, que eu canso, desisto antes mesmo de dizer (escrever, argumentar, fazer) qualquer coisa... parece que de nada vai adiantar ter uma opinião que está bastante consistente na nossa cabeça, mas não tem jeito de entrar na cabeça de outra pessoa. pra que se dar ao trabalho então? pra que querer mudar? pra que agir? se eu posso ficar parada, não mostrar o que eu acho, o que eu penso, o que eu sinto... mas aí não vai acontecer nada. e não acontecer nada não é uma coisa muito emocionante ou satisfatória. não vai piorar, mas também não vai melhorar nada. não vai mudar nada. eu não quero o "nada". em contrapartida, i would prefer no to
eu preferiria não ter distúrbios hormonais, eu preferiria não ter que lidar com burocracia, eu preferiria não ter obrigação de escrever, eu preferiria não pensar na minha aparência física, eu preferiria não ter frustrações, eu preferiria não ter responsabilidades, eu preferiria não ter que explicar minhas decisões, eu preferiria não ter que tomar decisões, eu preferiria não depender de ninguém, eu preferiria não achar que existem injustiças no mundo, eu preferiria não me sentir mal ao ver alguém doente, eu preferiria não ter apenas uma visão ocidental do mundo, eu preferiria não estar insatisfeita com política, religião e a sociedade, eu preferiria não estar cheia de dúvidas, eu preferiria não ser egocêntrica, eu preferiria não... ser. (?)
"eu preferiria não", mas eu sei que eu preciso "sim" fazer infinitas coisas, mesmo preferindo não fazer... talvez eu apenas esteja num momento bartlebyano demais e eu não consiga escrever/dizer o que eu gostaria, mas como a língua(gem) é fascista, ela me obriga a dizer, mesmo que seja qualquer coisa que eu nem queira dizer... por isso eu digo. por isso eu escrevo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

atazagorafobia



Acho que em tempos modernos, em tempos de internet, em tempos efêmeros, o compartilhamento de inúmeras coisas que parecem ser lixo eletrônico, palavras sem fundamento ou qualquer coisa para motivo de risadas é só mais uma maneira das pessoas se manterem visíveis. O medo de se tornar invisível, ou de ser superado é o que move esse vício aparentemente sem propósito. É uma consequência da sobrevivência em rede, da vivência em sociedade, uma sociedade cheia de anseios e individualismos que em uma fração de segundos nos une e nos distancia. A vontade de mudar o mundo é o que move os corações, mas ninguém pensa no que é o mundo. Eu não penso no que é o mundo. Eu luto por um lugar melhor, mas apenas por saber que existe lugar pior. Só não sei o que é lutar.
Em tempos de exposição, em tempos de circulação, em tempos de discussões rasas, em tempos de opiniões formadas sobre tudo, quem não finge que sabe? Todos são donos da verdade, todos são investigadores, detetives de causos inventados. O segredo é: duvidar. O desejo é: conspirar. A realidade é: esperar. O fato é: repetir. O medo é: sumir.