domingo, 7 de abril de 2024

sacadas

pontes de conexão com o mundo
lugar pra respirar
pra olhar o céu 
pra chorar
pra desejar
pra conversar com o universo
pra suspirar e lembrar
aqui não tem sacadas
tem janelas com redes
que parecem grades
que me deixam presa
presa num passado que me arrasta
que não me deixa respirar
nem conversar com o universo
por vezes precisei correr 
sair porta afora 
pra poder absorver um pouco 
do ar da rua
e tentar lembrar de quem eu sou.

terça-feira, 2 de abril de 2024

preciso comprar lâmpadas

como saber se ainda é amor?

como viver todos os dias pensando em ti?

como continuar seguindo em frente se olho sempre pra trás?

teria como ser mais difícil?

eu sei que na tua mente eu irei por onde tu fores

e tu sabes que tu também vai me acompanhar

como seria uma vida sem ter te conhecido?

eu penso todo dia que eu não queria conhecer essa vida

mas eu também queria outra vida

talvez eu tenha criado uma ideia na minha cabeça

talvez a ideia seja quem tu és

e talvez eu também seja apenas uma ideia

mas essas ideias iluminaram nossos caminhos por um tempo

e agora os caminhos estão na penumbra

como eu vou conseguir seguir em frente, se tudo que eu vejo é escuridão?

como eu vou encontrar meu caminho, se agora eu vivo na sombra?

quando eu vou ter uma ideia pra iluminar o meu próprio caminho?

a lâmpada do corredor queimou.

quarta-feira, 20 de março de 2024

karukasy

 descobri que aquele sentimento que tenho nos fins de tarde tem um nome específico em tupi. karukasy.
mas ainda não sei o nome pra sensação de que tu ainda vai chegar em casa.
não sei o nome do sentimento da confusão que tem dentro do meu peito, quando eu te digo não.
não sei o nome que se dá pro vazio que eu sinto por saber que a coisa certa é a que dói.
às vezes, eu penso que é saudade.
às vezes, eu penso que é tristeza.
mas eu acho mesmo que a angústia de não saber o nome faz parte do processo que me destroça por dentro.
talvez se eu descobrir é porque não importa mais.

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virei metáfora 


ontem, a casa era grande

eu cabia sempre nos mesmos lugares: 

sentada no mesmo lugar do sofá, 

deitada no mesmo lugar da cama

eu não sentava, 

ou deitava, 

ou ficava em pé 

em outros lugares, 

não tinha espaço 

hoje, a casa diminuiu 

ficou pequenina

mas agora tem mais espaço

e, curiosamente, 

eu me expandi

abro as portas e caminho 

por todos os cômodos, 

eu caibo em todos eles

nesse paradoxo de poder 

se expandir num 

espaço pequeno...

agora, 

eu me sinto a casa.

terça-feira, 19 de março de 2024

cheiros


abri o perfume que quase não foi usado
lembrei que esse é cheiro da noite, das noites
anoiteceu
lavei os cheiros antes de dormir
agora, o que mais me falta é o cheiro
aquele cheiro, o outro
o cheiro do abraço
o cheiro do sono
o cheiro do cafuné
o cheiro da pele
adormeço
e acordando é que eu vejo o tempo passar
o cheiro de choro

domingo, 10 de março de 2024

domingo

segunda-feira, recomeço 
terça-feira, não lembro das escolhas
quarta-feira, as lágrimas lavam a dor
quinta-feira, eu esqueço de comer
sexta-feira, eu esqueço de pensar
sábado, acordo sem ter pra onde olhar
domingo... o domingo é o vazio crescendo.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

sentimentos, crises e pandemia


Que loucura. Depois de um ano sem escrever, estou eu aqui de volta, em meio a uma pandemia. Muita coisa mudou nesse ínterim: o mundo inteiro está em quarentena, as aulas agora são online, as pessoas vão ao mercado de máscara, os antigos e famosos "motoboys" (que podem ser girls e podem não estar usando moto, e sim bicicleta, carro, a pé...) agora são os mais procurados e, também, explorados por nós e pelo capitalismo. 
Hoje, em uma aula online com oitavos anos, resolvi parar pra conversar com estudantes sobre o que estavam sentindo, pensando, ou como estavam agindo e transformando suas rotinas nesse período. É incrível como a falta de interação presencial afeta a gente e todas as coisas que estávamos acostumados. 
Muita gente afirma que, agora em tempos de isolamento social, as pessoas têm muito mais tempo para fazer coisas que não faziam antes. Temos mesmo? Ou estamos atolados em trabalho, em tarefas, em culpa por não estarmos sendo "produtivos" o suficiente de acordo com... quem? Me incomoda muito esse discurso de "não te faltava tempo, faltava disciplina" bla bla bla bla! Mais uma baboseira capitalista que exige de nós, em meio a uma pandemia, sermos máquinas de produzir conteúdo, máquinas de criação de ideias supostamente geniais, ou até "oportunistas". Estamos em crise. Crise de saúde. Crise emocional. Crise ambiental. São tantas crises que é difícil saber quais crises vêm primeiro. Inclusive, na atualidade, as pessoas podem ser divididas pelas suas prioridades nas crises. Há quem ache que o que vem primeiro é a crise financeira. Esses, normalmente, exigem dos que estão mais preocupados com a crise de fome que eles trabalhem pra manter o capitalismo girando. 
É tanta crise que eu até esqueci da minha antiga crise da escrita e lembrei que esse blog existia.
Vendo os posts antigos, eu iniciei esse diário virtual em abril de 2010.  DEZ anos atrás. É tempo. É mudança. Quem imaginaria que aquela Rafaella isolada em um quarto de hospital, que estava internada fazendo exames e que depois descobriria um tumor no cérebro, iria estar viva e saudável, passando uma crise mundial de saúde pra contar história...
Quando eu era bem mais nova, lembro de pensar que nada importante ou emocionante acontecia na minha vida. Nunca tinha quebrado um braço. Nunca tinha visto uma revolução. Nunca tinha tido um grande amor. Eis que um tumor no cérebro começou a mudar tudo que eu conhecia e sabia. Depois disso, veio o feminismo. Que baita revolução que o feminismo fez na minha vida! Fez eu entender relações de gênero, fez eu empoderar meninas, fez eu me envolver e me interessar por política. O feminismo fez eu entender que a sociedade é política. Eu me formei. Eu me tornei mestre. Eu descobri que minha mãe tinha uma doença autoimune. Eu casei. Eu trabalhei muito. Eu fui demitida. Eu sofri injustiças. Eu me recuperei. Tudo isso aconteceu pra eu morder a língua da Rafaella do passado que queria emoção. Agora estou eu aqui, há um mês em isolamento social dentro de casa, passando por uma pandemia mundial que daqui a muitos anos estará nos livros de História (junto com várias análises críticas sobre um líder de Estado completamente incompetente).
Lição disso tudo: a gente tem que cuidar com o que deseja. 
Mas a gente tem que aprender a viver, também. Tem que aprender a aproveitar os momentos "pequenos" e ver que isso também importa. Eu tô dentro de casa há um mês, tentando inovar em conteúdos online, morta de dor nas costas de ficar na cadeira em frente ao computador e corrigindo redações. Mas eu também tô vendo minha enteada começar a gostar de ler e ler livros inteiros em pouco tempo, eu tô conseguindo cozinhar com calma, eu não tô perdendo tempo dentro de um ônibus 4 horas por dia, eu tô vivendo bem (dentro do possível e dos meus muitos privilégios, por ter onde morar e ser uma pessoa com emprego) e eu quero lembrar disso daqui uns anos como um aviso pra todos mudarem seus hábitos, sua forma de ver o mundo. 
Acho que, embora eu esteja surtando com pressão psicológica, emocional e tudo o mais por causa de uma pandemia, eu vejo que é o momento da gente refletir, nem que seja 5 minutos, sobre como queremos ser daqui pra frente. Se queremos aceitar toda essa pressão do capitalismo acima de nossa saúde física e mental. Se vamos aceitar tanta gente não podendo escolher entre ficar em casa e correr riscos na rua indo trabalhar. Se vamos tentar mudar. 
Sei que normalmente eu escrevia e sempre finalizava com uma baita reflexão ou tinha um fechamento que me agradava, mas esse texto não tem um fim, porque eu ainda estou no meio de todo esse furacão e não sei quando vai ser o fim. Espero que os livros, ou e-books, de história daqui uns anos falem sobre como essa pandemia foi um divisor de águas.
Falando em água, é o que eu queria agora: um mergulho na água do mar, bem limpinha, depois de não ter ninguém nas ruas sujando...

E o que vocês querem agora? E pro futuro?

domingo, 19 de novembro de 2017

Sobre distâncias.

A primeira vez, que eu lembro, que tive que lidar com distâncias foi quando eu tinha uns 9 anos de idade e fui morar em Joinville, porque meu pai foi transferido do trabalho. Eu fiquei longe da minha família, dos meus amigos, dos lugares que eu estava acostumada. O pouco tempo, em números, em que fiquei naquela cidade, me pareceu uma eternidade, porque eu estava longe de tudo que - a princípio - me fazia ser eu. A partir daí, eu fui aprendendo a lidar com distâncias do meu jeito: ficando só eu e a escrita, seja lendo ou escrevendo. 
Eu entendi que nada, nem ninguém estava impossibilitado de estar distante. A escrita, sim, poderia não ser distante. Não ser distante de mim.

Depois disso, lembro de ter lidado com distâncias de diversas formas, mas as que mais marcaram foram as distâncias que não eram físicas. Quando eu fiquei internada, eu fiquei longe da minha casa e da minha família de novo, mas não foi só fisicamente. Os relacionamentos não são os mesmos depois que as pessoas passam por problemas que não sabem explicar. A gente fica marcada. As distâncias deixam cicatrizes.
Conforme o tempo vai passando, a vida adulta vai cada vez mais dando as caras, as distâncias vão se tornando mais frequentes. As amizades vão se distanciando fisicamente, cada um toma um caminho que sonhou, planejou, ou que surgiu. As distâncias físicas, aí, se tornam também emocionais, e a gente vai conhecendo outros tipos de distâncias. 
A gente vai descobrindo que uma pessoa do lado pode estar distante. A gente descobre que pode parecer distante, mesmo sem querer. 

A gente descobre que as distâncias deixam tantas marcas que a gente se distancia até de si mesmo.

A gente lê o noticiário, as redes sociais, e tenta se distanciar da realidade. 
A gente se distancia das ideias que um dia passaram na nossa cabeça. 
Eu um dia pensei que se a gente conversasse com qualquer pessoa, as coisas poderiam se resolver.
As distâncias são tão traiçoeiras que elas não esperam muito tempo pra aparecer. 

A gente vive buscando encurtar as distâncias. 

Eu vivo tentando encurtar distâncias. Eu vivo querendo o amor do meu lado. 
Por isso eu escrevo.