quarta-feira, 21 de junho de 2017

Água: remédio pras feridas do corpo e da alma.



Feriadão. Uma semana para o inverno. Florianópolis. Praia. Água gelada. Paz.

Desde pequena, sempre gostei de estar perto do mar, o mar me fez e me faz mais forte. Hoje, quando preciso me acalmar, um passeio à beira mar e fones de ouvido são terapêuticos.

Em muitos momentos de crise, daqueles que a gente acha que não tem solução, longe do mar, eu abri a torneira do chuveiro, me joguei debaixo d'água e deixei os pensamentos me banharem, junto com a água corrente e, às vezes, com as lágrimas. 

A água lava os sentimentos ruins, a dor e faz a gente enxergar melhor. 

Às vezes, um mergulho desobstrui as vias nasais... e os pensamentos.
Às vezes, a gente preferiria que a água não tivesse nos feito enxergar melhor, porque a realidade talvez não seja o que queremos ver.

Aí a gente mergulha outra vez.
Aí a água gelada nos lembra que só estando vivo pra sentir o prazer da água tocando no corpo.

Aquela gota deslizante que percorre todas as curvas é o desejo de liberdade.

Água salgada é liberdade.






terça-feira, 13 de junho de 2017

Como cheguei até aqui: cushing, gordofobia e feminismo.

Dia desses, saí de casa de manhã cedo. Como manezinha conhecedora do clima de minha cidade, fui encapotada trabalhar, com várias camadas de roupa. Porém, eu não ficaria o dia inteiro fora, então não coloquei nenhuma camiseta de manga curta por baixo, saí com uma blusinha preta do pijama mesmo. À tarde, por um acaso, acabei indo me encontrar com uma amiga e fiquei com calor. Ela insistiu pra eu tirar o casaco, eu disse que não, porque estava com uma blusa do pijama, que era muito apertadinha, e ela soltou a máxima "Nossa, tu era a última pessoa que eu ia pensar que se preocupava com essas coisas...". Fiquei pensativa depois disso... O que era "se preocupar com essas coisas"?
Eu penso nessas coisas. Eu penso em várias coisas. Eu também penso no que os outros pensam.
Me acho bonita? Sim, na maioria das vezes, mas não 24h. Feminista sim. Insegura, às vezes, também. Também nasci nessa sociedade cheia dos padrões de comportamento e beleza, já sofri muito pra chegar até aqui. Já tive épocas de me achar feia 24h por dia. Essa época passou, porque encontrei Jesus o feminismo. Mas a gente tem que entender que ninguém é tão desconstruído, tão "superior" a ponto de estar totalmente livre das amarras sociais ou de preocupações diversas... Por que estou falando tudo isso? Pra voltar um pouco no tempo e contar sobre o "chegar até aqui"... Bom, vamos direto ao ponto...

Quem me conhece sabe de toda minha saga contra o cushing e o tumor hipofisário, enfim, passei por muitos procedimentos médicos, por várias mudanças no meu corpo, por muitos problemas hormonais que mudavam meu humor, minha autoestima e, principalmente, meu relacionamento com os outros e comigo mesma. Inicialmente, antes de ter o diagnóstico e perceber visivelmente a mudança que vinha ocorrendo no meu corpo, eu sofria muito. Sofri, dentre muitas outras coisas, preconceito. Esse preconceito me fez, hoje, abrir meus olhos e ter empatia por coisas que eu nunca imaginaria. O preconceito que sofri tem nome e é bem conhecido por aí: GORDOFOBIA.

O próprio nome já é bastante sugestivo e dá para ter uma noção do que representa na sociedade dos padrões de beleza. A gordofobia, muitas vezes, vem disfarçada de cuidado com a saúde, ou de "gosto pessoal", ou de "divergências", mas na verdade é puro preconceito... Eu sofri muito por isso, porque eu também acreditava que não era certo ser gorda, que eu estava ficando feia, que pessoas gordas possivelmente não seriam amadas. Isso é muito forte. A gente propaga essas coisas sem nem pensar e ISSO TÁ TUDO ERRADO.

Não é certo pensar que alguém é bonito em detrimento de outros apenas pelo peso, ou pela cor da pele, ou pela textura do cabelo, ou pela classe social, ou seja lá quais outros muitos preconceitos que a gente ajuda a propagar, porque aprende desde pequena! 
Eu parei para pensar em tudo isso depois que me curei do cushing, mas se eu tivesse acesso a todas essas discussões maravilhosas sobre feminismo - como tenho hoje - tenho certeza que não teria sofrido nem metade do que sofri... 

O problema da gordofobia, no meu caso (e de muita gente, provavelmente), é que aquela frase supostamente inocente que as amigas fala(va)m "ah, tô me sentindo tããão gorda hoje" (pesando 50kg) eram como agulhadas em mim, ou socos no meu estômago. Aquele "me sentindo gorda" soava pra mim como "eu tenho 50kg e me sinto gorda, você está com 80kg e está HORROROSA". Sofri, quando comecei a sentir os sintomas do cushing e fui procurar ajuda médica. Como o cushing faz o organismo aumentar a produção de cortisol no corpo e este hormônio em excesso faz engordar, eu só ouvia dos médicos "você tem que se gostar, precisar emagrecer". Tudo que a gente ouve corrobora com a gordofobia, confirma o medo de ser excluída por mudanças na aparência. Eu estava doente, ser gorda não era minha doença, mas foi o que os médicos até então me faziam acreditar, além de toda a sociedade...

Até meus 16 anos, eu era uma menina bem magra, com 40 e tantos quilos, que tinha problemas de autoestima porque não tinha curvas. Detestava ir à praia, usar roupas curtas, ou qualquer tipo de roupa que mostrasse muito do meu corpo. Depois, com o cushing, meus preconceitos vieram todos à tona e bateram na minha cara pra eu acordar e perceber que todos os corpos são lindos. Feliz ou infelizmente, eu consigo enxergar isso hoje. Infelizmente porque precisei passar por um tumor para ter empatia e para ver como outras pessoas se sentiam. Felizmente porque hoje eu consigo enxergar a beleza com outros olhos (gostaria de já enxergar há tempos...).

O que tudo isso tem a ver com o início da história? Insegurança faz parte da gente, não está errado ter altos e baixos, a gente se desconstrói e se reconstrói aos poucos... mas a gente precisa se fortalecer, a gente precisa olhar pra quem está do nosso lado e pra nós mesmos. Às vezes, nossos preconceitos estão misturados com medo. Não está certo propagar preconceitos. Não está certo ter medo do que é fora do padrão. Não está certo sofrer para se enquadrar em um padrão que exclui e prejudica a todas e todos. Não está certo julgar os outros pelo que são. 

A gente não nasce desconstruído... a bicha lacradora, a negra tombadora e a feminista empoderada também têm inseguranças e não nasceram "prontas", pelo contrário, todo mundo tem sofrimentos e, como diz um amigo meu, cicatrizes na alma (no meu caso, no corpo também, literalmente)... Esses sofrimentos nos fizeram chegar onde estamos, mas esses sofrimentos não são as únicas coisas que nos definem. Gosto de acreditar que são justamente as conversas positivas acerca dos meus sofrimentos que me fizeram enxergar a beleza das coisas e das pessoas. 

Hoje, me sinto muito mais bonita do que quando pesava os 40 e tantos quilos. Hoje, convivo com minhas estrias, com minhas muitas cicatrizes de muitas cirurgias, com celulite, com uma barriga nada chapada e, sim, eu amo meu corpo. Eu tenho inseguranças, muitas, mas eu tenho consciência de ser quem eu sou. Esse amor, porém, não apareceu da noite pro dia. Esse amor foi construído com muito sofrimento, mas também com muitas alegrias e com a ajuda de muitas mulheres maravilhosas que passaram (muitas ainda estão!) pela minha vida e me fizeram entender que eu sou uma pessoa privilegiada, em todos os sentidos.

Minha felicidade hoje é ser uma pessoa saudável - que convive com pessoas lindas - que pode contar sua própria história... 


domingo, 23 de abril de 2017

Eu, tu, nós: treze razões, nove verdades e baleias coloridas.

Nos últimos dias, a internet foi tomada por treze razões, nove verdades, baleias coloridas, muitas mentiras, vários problemas... Como sempre, sendo professora e viciada no mundo virtual, eu reflito sobre as situações e sobre como alguns debates atuais podem contribuir para conscientização e/ou ajudar algum(a) estudante... Pensando nisso tudo, porém, eu voltei alguns anos no tempo e me vi novamente no Ensino Médio. 
Nas redes sociais, tanta gente julga e exige dos outros, mas será que ninguém lembra de como é/foi difícil passar por determinadas fases da vida? 
Eu comecei minha paixão por livros porque, com 8 anos, me sentia sozinha na escola e passava recreios na biblioteca. No Ensino Médio, apesar de não me sentir mais tão sozinha, eu convivia com muitos amigos que se mutilavam; eu chorava sem motivo; eu ficava noites sem dormir pensando que eu deveria ser e fazer tanta coisa e não sabia se valia à pena; eu exigia tanto de mim mesma nos estudos que tinha dores de cabeça intermináveis; eu não admitia que pudesse não passar no vestibular, embora meus pais dissessem que não tinha problema; na minha mente, eu carregava o peso do mundo nas costas; eu odiava que as pessoas dissessem que era "só uma fase"; eu me sentia sozinha mesmo com muitos amigos...
Meu escape sempre foi a escrita e a leitura, comecei a escrever em blog quando eu tinha uns 13 ou 14 anos - antes disso eu já escrevia em diários desde os 8 anos. Também sempre tive apoio dos meus pais, sempre tive alguém para conversar, mas nem sempre isso é possível e tem gente que não dá conta de "sentir demais". Quando estava saindo do Ensino Médio, com crises existenciais (que permanecem) , com exigência do vestibular e logo em seguida um tumor como cereja do bolo, eu pensava em tanta coisa ao mesmo tempo que as lágrimas já eram minhas fiéis companheiras... 
Passar no vestibular, superar o tumor e ser professora foram meus objetivos e apenas por um motivo: eu queria, na minha mente de adolescente, ajudar outras pessoas a passarem por essa fase, eu queria que fosse mais fácil para outras pessoas e, se eu pudesse ajudar de alguma forma, essa seria minha "missão". Fazer este blog, inicialmente, por exemplo, era um escape de quando eu estava internada. Hoje, sei que ele ajuda muitas pessoas que passam ou passaram pelo Cushing. Sei, também, que os debates em sala de aula e conversas com estudantes ajudam muitas e muitos deles a passarem por determinadas coisas que não são conteúdos escolares. Eu não sou a Madre Teresa de Calcutá, mas ajudar outras pessoas me ajuda. Ninguém precisa fazer esforços hercúleos para ajudar alguém, ter empatia já é um começo, escutar o outro já é um começo, sorrir para alguém já é um começo...
Hoje, quando me sinto mal, coloco uma música bem alta, apago a luz e danço sozinha, deixo as lágrimas virem - assim como quando eu era adolescente - porque não preciso me reprimir, sei que colocar pra fora ajuda... mas depois disso, lavo o rosto e me fortaleço, porque sei que lá fora outras pessoas também passam por isso e eu não estou sozinha.

Pode parecer simplório, pode parecer ridículo, pode parecer insignificante, mas fazer as pazes com o espelho nos ajuda a ser melhor, também. Sejamos melhores, sendo nós mesmos, sendo melhores juntos.




terça-feira, 28 de março de 2017

O que eu vou fazer com essa tal liberdade?

No início desse ano, pedi às alunas e alunos dos segundos anos do Ensino Médio, depois de algumas discussões, que escrevessem uma crônica sobre Liberdade. Os textos, dos mais variados pontos de vista, fizeram-me refletir sobre inúmeras coisas e - para variar - estudantes me deram um baile na criatividade e em lições.
Dentre os textos, um deles foi iniciado com muitos desvios de ortografia e de norma padrão da Língua, discorrendo sobre a liberdade de escrever sendo uma pessoa com problemas sociais e psicológicos; à medida que eu ia lendo - e me surpreendendo com a escrita, pois era de estudante que eu já conhecia, com excelentes notas e que normalmente não cometia equívocos de ortografia - eu refletia sobre o assunto. Ao final do texto, nova surpresa: uma assinatura. Texto em primeira pessoa, como se fosse uma carta de despedida de alguém que sofria preconceitos das mais variadas formas, inclusive linguístico. Porém, o eu lírico era de quem achou a carta e a transcreveu, refletindo sobre a situação da falta de liberdade de "ser". Um soco na minha cara. Outro texto, descrição da aula, desde o momento em que entrei na sala, até a hora da escritura, em que eu - com a ~autoridade~ de ser professora, - solicitei o texto, sem que alunas e alunos pudessem escolher a temática, dentre outras reflexões acerca do sistema de ensino (!!!!). 
Próxima aula. Outro assunto. Outra turma. Primeiros anos do Ensino Médio. Dia oito de março. Igualdade de gêneros. Identidades. Feminismo(s). Debates. Perguntas. "Professora, por que as feministas não gostam de receber parabéns no dia da mulher?"; "Professora, por que existe dia da mulher e não do homem?"; "Professora, por que as feministas não lutam para ter alistamento militar, ou pela licença paternidade?"; "Professora, feminismo é o contrário de machismo?"; "Professora, mas qual é o tipo de feminismo que não pode se depilar?"; "Professora, mas como existem mulheres que não são feministas?"; "Professora, mas a gente não tem espaço para dar nossa opinião"; "Professora, como eu sei que não estou sendo preconceituoso?"; "Professora, como uma mulher pode oprimir outra mulher?". Tudo ecoava na minha cabeça e eu só conseguia pensar nos textos escritos pela outra turma. Comecei do início, contando quem eu era, por que eu estava ali e por que eu pedi para todo mundo sentar no chão e fazer perguntas.
Ser professora é lidar com pessoas e dúvidas reais, é todo dia ter desafios. Não é como lidar com comentários raivosos de internet, onde as pessoas não estão olhando nos olhos umas das outras. Ser professora é ter consciência de que meus ideais e meus posicionamentos não são a verdade absoluta, é ter o cuidado de responder perguntas refletindo sobre as escolhas das palavras e deixando claro àquelas pessoas que estão na minha frente que elas são livres para criticarem, questionarem ou reformularem certos conhecimentos. Ser professora é saber que estamos em constante formação, é se desconstruir e aprender com as outras pessoas dentro da sala de aula. Ser professora é estar em constante interação. Ser professora é, basicamente, ser uma pessoa. Isso pode parecer redundante, tautologia, mas muita gente não tem consciência disso. Muita gente acha que ser professor é ser doutrinador. Muita gente acha que ser professor é usar sua autoridade para formar um exército de pessoas que pensam igual. Muita gente acha que ser professor é poder limitar os pensamentos de outras pessoas. Muita gente acha que ser professor é ser ditador. Muita gente que acha essas coisas não tem relação nenhuma com Educação, não estudou para ser educador(a) e - na maioria das vezes - nem defende a Educação. De todas as professoras e professores que eu conheço, nenhum deles faz parte dessa gente. 
As respostas das perguntas lá de cima? Foram construídas em conjunto com todas as pessoas que estavam dentro daquele ambiente. Estudantes entenderam que sala de aula é lugar para perguntas. Estudantes entenderam que uma professora pode ter posicionamentos diversos e respeitar opiniões alheias. Estudantes entenderam que Igualdade pode receber vários nomes, alguns chamam de Feminismo (e que não existe só um tipo de feminismo, assim como não existe só um tipo de mulher!). Estudantes entenderam que existem estereótipos sobre inúmeras coisas, sobre feminismo é só mais uma delas. Estudantes entenderam que às vezes somos preconceituosos, mesmo sem perceber. Estudantes entenderam que existem diferenças entre homens e mulheres, mas também existem diferenças entre as próprias mulheres. Estudantes entenderam o que é privilégio. Estudantes entenderam que na minha sala de aula podem questionar, criticar e serem livres para fazerem escolhas, mas que tudo na vida tem consequências. 
Ser uma professora feminista é ter o objetivo de ensinar que sala de aula é lugar de respeitar opiniões, posicionamentos, histórias de vida. Ser professora linguista e feminista é aprender a aceitar que, às vezes, as pessoas têm nomes diferentes para as mesmas coisas e algumas pessoas têm medo de usar certas palavras, porque podem ser socialmente prejudicadas. Ser professora literata e feminista é entender que as subjetividades existem, mas podem ser desconstruídas e, às vezes, isso acontece naturalmente. Ser professora feminista é entender que estudantes são seres em formação, assim como eu. Ser professora feminista é lutar pelos direitos das e dos estudantes serem o que quiserem. Ser professora feminista é vibrar de felicidade quando estudantes querem ser pessoas melhores e lutar do teu lado para que outras pessoas sejam felizes sendo como quiserem.

P.s. Comecei esse post pensando em falar sobre inúmeros assuntos acumulados, sobre o projeto Marias vão com as outras, sobre eu ser libriana e não saber o que fazer com a tal liberdade, sobre o tumor finalmente estar diminuindo... Mas as palavras saem livremente da minha mente para os meus dedos de forma diferente do que eu planejo, então... o que eu fiz com a liberdade de hoje foi esse post. :)

sábado, 7 de maio de 2016

Sobre tumor no cérebro, radiocirurgia estereotáxica e paradoxos (ou não).

"Professora, mas a gente sabe que tu tens teus problemas (sim, tenho alunos no Facebook) e mesmo assim tu SEMPRE dá aula de bom humor, tu mostra que gosta de dar aula pra gente!"

E é com essa epígrafe que começo meu texto... 

Toda vez que eu escrevo, não consigo dissociar a "Rafaella ser humano com vida social" da "Rafaella professora", talvez por que maior parte da minha vida - agora - seja dominada pela profissão. Dia desses eu passeava pelo shopping com minha mãe e vi um quiosque de almofadas. Na hora, pensei e falei "deve ser muito deprimente vender almofadas, a vendedora tá ali parada olhando pro além e o tempo não passa", mais rápida ainda, minha mãe responde "mas ela não tem que preparar aulas, não tem que corrigir redações, não leva trabalho pra casa!". Fiquei com isso na cabeça. Pode ser bom que nada aconteça, porque depois nada acontece e tecnicamente se está livre, Mas pode ser bom ter muito o que fazer, porque muito acontece e os dias são mais inspiradores. Parece um paradoxo, não? Mas é simples: algo bom pode ser ruim e algo ruim pode ser bom. (Meus alunos responderiam rapidamente essa com "depende do contexto, né profe?")
E esse basicamente é o resumo do que eu quero falar: uma coisa pode ser positiva ou negativa, dependendo do ponto de vista. 

Bom (ou ruim, né?)... Como muita gente já sabe, eu tenho um tumor no cérebro. Inicialmente (lááááá em 2009), quando eu descobri, não havia imagem nos exames, o diagnóstico de Cushing (sobre isso, clique aqui) em decorrência do tumor hipofisário veio depois de um cateterismo (sobre isso, clique aqui). Depois de toda a Odisseia de tratamento e cura do Cushing (sobre isso, clique aqui), eu sabia que poderiam ocorrer outros problemas posteriores. 
O tumor no cérebro libera(va ?) um hormônio, o ACTH (já falei várias vezes sobre isso em vários posts...). Esse hormônio, em ordem inversa, controlava a produção de cortisol (o famoso hormônio do stress - no caso, ele CONTROLA o stress, quando está em quantidades equilibradas, mas em níveis elevados e descontrolados, obviamente, faz o contrário: estressa muito mais, física ou emocionalmente). Como eu fiz a adrenalectomia bilateral (sobre isso, clique aqui), ou seja, retirei as glândulas que produzem cortisol (porque, no meu caso, o hormônio estava descontrolado) , eu não produzo mais cortisol, maaas continuo (continuava?) produzindo muito ACTH pelo tumor, porque o tumor continuava lá no cérebro brincando de me deixar bronzeada (a melanodermia, que já falei em vários posts). O "porém" do tumor continuar lá produzindo hormônio e mandando "informação" pra lugar nenhum (porque eu não tenho mais as glândulas para quem o tumor mandava informação pra produção de cortisol) é que o tumor poderia crescer, porque estava sendo muito estimulado pela produção hormonal que não era "liberada". A última cirurgia que me curou do Cushing foi em 2012. O tempo passou correndo e não percebi que já se foram 4 anos. Todo ano eu faço ressonância magnética pra controlar o tumor (e nunca tinha aparecido nas imagens, porque o tumor era ínfimo, tinha milímetros insignificantemente problemáticos) e ano passado, não sei por que cargas d'água, não fiz ressonância. No começo deste ano, como sempre fazia, retornei à consulta com minha endócrino e fiz a ressonância e... tchanam! Lá estava o diagnóstico: formação neoplásica recidiva de macroadenoma de hipófise, também conhecido como Síndrome de Nelson (sobre isso, clique aqui). Não me surpreendeu o laudo, eu sabia que ocorreria cedo ou tarde, mas foi muito rápido. Me veio um turbilhão de lembranças sobre todo o tratamento, os exames, as cirurgias e isso me entristeceu. Uma das opções, em 2011, no começo do tratamento e depois da primeira cirurgia, era a radiocirurgia. Naquela época a radio era feita com um arco estereotáxico (clique aqui para ver imagens do que é isso), e quando vi um paciente com aquilo, apavorei e até escrevi um post sobre o filme de terror que  me fez lembrar! (sobre isso, clique aqui) Esse ano, quando o tumor estava lá com seus dois centímetros, a única opção seria a radiocirurgia (para explicações sobre isso, clique aqui), porque o local do tumor não se chega com cirurgia "normal" (como as outras duas que já fiz, a transesfenoidal - clique aqui sobre isso). Claro que lembrando daquela imagem de 2011, apavorei. Quando fui à consulta com o radiologista, porém, ele me acalmou, pois hoje em dia aquele arco foi "aposentado" e o paciente fica com uma máscara não invasiva (ou seja, que não fura minha cabeça). Fiquei feliz da vida com a notícia... até fazer a máscara (para imagem da máscara clique aqui). Nunca tive problemas com claustrofobia para fazer ressonância magnética, mas naquele dia, quando aquele silicone começou a endurecer no meu rosto, preso à maca... comecei a bater loucamente com a mão na parede e pedir pelamordedeus pra tirar aquilo da minha cara que eu não estava conseguindo respirar. Foi só uma mini-crise-de-pânico. Passou. As enfermeiras tiraram, respirei fundo, colocaram de novo e eu comecei a refletir sobre a vida, o universo e tudo o mais, e esqueci onde estava. Saindo dali, imaginei que demoraria, pelo menos, umas duas semanas pra me chamarem pra radiocirurgia, de fato.
Menos de uma semana, eu nem tinha me preparado psicologicamente pra ter crise claustrofóbica de novo e eu já estava lá (ontem, no caso). Pela manhã, dei aula normalmente, segurando o choro, e ouvi aquela frase lá do começo do texto, sem nem ter mencionado absolutamente nada aos alunos. Me acalmou durante as aulas. Chegando em casa, banho e logo em seguida ia para o procedimento. Tenho certeza que todo mundo sabe o que significa banho em momentos de tristeza/medo: lágrimas e reflexões. Saí do banho e lá vamos nós. O médico me acalmou, depois de ter visto minha cara inchada. O procedimento foi relativamente rápido, demorou mais para as enfermeiras e os médicos encontrarem a posição certa para iniciar a irradiação. 
É apavorante ficar com aquela máscara na cara? É! Mas sabe o que mais apavora? A luta contra a própria mente. O problema maior é controlar a mente e os pensamentos, autocontrole, basicamente. A maior parte do tempo fiquei pensando em coisas do cotidiano e o que eu tinha pra fazer na escola, ou em alguns momentos recentes que foram positivos, enfim, abstraindo a situação. Claro, alguns momentos o pensamento escorregava e eu abria os olhos, começava a prestar atenção na minha respiração, na dor que sentia na testa por causa daquela máscara apertando, aí concentrava e passava. No último momento que eu já estava quase desistindo, comecei a sentir a máscara apertar meu nariz, queria chorar, espirrar... acabou. Ufa. Depois do procedimento, só farei ressonância magnética novamente daqui seis meses, para controle. A dose de irradiação foi única. Deu tudo certo... tirando a dor de cabeça extraordinariamente insuportável que me deu à noite, mas que nada tinha a ver com o procedimento, foi supostamente de tensão, (tenho traumas de dor de cabeça, principalmente por causa da última cirurgia) enfim... Acabou. Estou aqui, agora escrevendo este texto sem dor de cabeça. 
E feliz, mesmo na dor (aquela que não dá pra localizar...)

Já devo ter falado sobre isso, todo ano eu escrevo "uma carta para mim mesma", no site "FutureMe.org". Ontem eu recebi uma, e chorei, como sempre... Finalizo como finalizei a carta há um ano:

Corte mais os cabelos se der vontade, seja mais você, não se arrependa, não espere nada de ninguém, confie somente nos seus sentimentos. E só.

Seja feliz em cada momento, mesmo nos ruins.

Amo você. E eu. E nós.



sexta-feira, 6 de maio de 2016

No banho, suas lágrimas se confundiam com a água corrente.
Não sabia se a vermelhidão dos olhos era resultado da água quente ou do pranto.
A confusão se estendia pela dúvida sobre o motivo da tristeza.
Seria a dor da doença ou da vida?
Seria a lembrança de todo o sofrimento sentido a cada picada de agulha?
Seria a corrida diária contra o tempo?
Seria a pressão de ser?

Seria a pressão de sentir.
A dor que não é física pelas agulhadas.
A dor de sentir e omitir.
A dor de ser. Ser o que? Quem?

As lágrimas oscilavam entre os momentos de reflexão.
A batida da música camuflava os soluços estridentes.
O tempo continuava gritando e batendo na porta.

"Está na hora!" se ouvia ao longe.

As lágrimas cessavam.
Não por alegria.

Por necessidade.



terça-feira, 22 de março de 2016

Is it too late now to say sorry? (ou, sobre aprender a perder)

Quem diria que algum dia eu começaria um texto intitulado com a letra de uma música do Justin Bieber? Eu, há uns tempos, nunca diria. Vejam, porém, como isso é possível.
Eu já falei em algum outro texto sobre minhas fases musicais, não estou na fase belieber, fiquem calmos, (a não ser quando toca na balada, ou quando meu irmão coloca pra tocar em casa, porque.. né? quem é que resiste a esse refrão? - E outra: eu diria até que estou numa fase remember-adolescência-punk rock, por influências externas, mas isso é papo pra outro texto. topic: OFF.) mas eu diria que isso serve de exemplo pra analisar a sociedade atual e o quanto as pessoas pré-julgam e "odeiam" sem saber do potencial das coisas (e pessoas). Não queria falar de política, mas nesses tempos sombrios (como diria Dumbledore) é inevitável. Meu posicionamento aqui, na verdade, vai soar mais como uma reflexão sobre o ensino e sobre a vida (e o universo e tudo o mais, como sempre).
Nos últimos meses aconteceram muitas coisas na minha vida, inclusive perdas. Perdas de gente querida, perdas de certezas e seguranças, muitas perdas. Cada uma delas veio com uma dor, mas também com um ensinamento (nem que fosse o de "toma na cara, levanta e continua andando). Eu já escrevi alguma vez que eu detesto aquele papo de auto-ajuda sobre "só dar valor quando se perde", mas sabe que isso começa a fazer um pouco de sentido? Primeira vez que essa frase fez "plim" na minha cabeça foi num dia que me olhei no espelho: eu usava um short e um top, dentro de casa. Parei e pensei "preciso fazer academia", depois eu pensei "não necessariamente para emagrecer, tô bem assim, afinal já estive com 80 kg, né?" E nisso me veio à mente tudo que eu passei até o momento, agora com meus 60 kg e sem Cushing. Nesse caso, passei por um bocado de coisas ruins e inseguranças e bad-vibes pra poder me sentir bem com meu corpo. Esse exemplo fez eu repensar meus pensamentos, consequentemente, meu olhar sobre o que se passa em minha volta. Minha primeira conclusão foi: a gente não sabe perder. "Perder? Como assim?" É, perder, em todos os âmbitos da vida...
Somos preparados desde o nascimento, durante nove meses, para "Ganhar a vida" e, quem está esperando do lado de fora, também é preparado. Quando alguém morre, porém, ninguém está preparado, não importa o tempo que se passe ao lado da pessoa. Viram? Essa é a perda mais clássica que todos sabem que vão passar e nós não aprendemos a lidar com ela. 
Um adolescente sai do Ensino Médio, estudou bastante, fez vestibular, não passou. Ele se preparou por muito tempo para "ganhar" aquela vaga, mas ele perdeu (porque ficou nervoso, porque não deu tempo, por qualquer motivo). Ninguém sabe o que dizer nesta hora, ninguém consegue tirar o sentimento de fracasso daquela pessoa. 
Traduzindo: nós não somos preparados para perder. 
Essa conclusão reflete no atual quadro político que o nosso país passa, muita gente não sabe "perder", toda e qualquer discussão acaba se transformando numa guerra e não há consenso. Há muito tempo eu não me abro publicamente sobre certos posicionamentos e opiniões minhas por pura preguiça e, também, por prezar pela minha sanidade e integridade física. Já passei por tanta coisa que não vou dar "sorte pro azar". Porém, "ficar quieta" me deixa tão mal quanto "vomitar" tudo que eu gostaria e ser "massacrada" pelos "opositores". 
Enfim... toda essa grande "introdução" sobre esse papo de "não saber perder" veio na minha cabeça quando fui na minha última consulta de rotina com a endocrinologista. Ela pediu exames, como de costume, os de sangue todos OK, mas o resultado da ressonância magnética veio com um "plus a mais" que nunca esteve nas ressonâncias anteriores: formação neoplásica recidiva de macroadenoma de hipófise, com 2cm. 
Há alguns anos, desde a última cirurgia em 2012, eu tinha colocado na minha cabeça que a minha novela em hospitais havia acabado. Aí esse resultado trouxe várias lembranças e isso me botou pra baixo. Aquele sentimento de "estou curada" deu lugar ao "PERDI", de novo. Dessa vez, porém, eu sei o que está acontecendo comigo, confio nos médicos, no diagnóstico e em mim mesma. Infelizmente, a cirurgia transesfenoidal (como as anteriores) não pode ser feita, pois o local que o tumor se encontra não é adequado para isso, mas existe outra possibilidade: a radiocirurgia. Inclusive, eu já falei sobre essa possibilidade (em 2011, vejam só), falei de um jeito meio assustador, mas quem sabe agora eu mude meu olhar (assim como eu mudei em relação ao Bieber, né? VAI QUE) - o link pro post de quando eu já falei sobre o procedimento é: HELLRAISER. Resumindo: o tumor, que antigamente era "invisível", agora cresceu. Isso aconteceu porque esse tumor produz o hormônio ACTH (que já falei algumas vezes, é o responsável por me deixar com esse bronzeado invejável - sqn), que manda(va) "informações" para as adrenais produzirem o cortisol. Como eu tinha o Cushing e meus níveis de cortisol estavam descontrolados, fiz a última cirurgia para a retirada das adrenais e hoje tomo o cortisol em comprimidos (com hormônios sintéticos, obviamente). PORÉM, o tumor continua mandando "informação" para as adrenais, mas elas não estão mais lá, portanto o nível de ACTH sobe exorbitantemente (porque ele era regulado em contraste com a minha produção de cortisol, que agora é inexistente) e esse nível exorbitante de ACTH faz com que o tumor cresça, isso se chama Síndrome de Nelson (e, sim, dá pra perceber que tenho um probleminha com as síndromes raras: Cushing, Addison, Nelson...)
Eu já sabia que isso aconteceria em algum momento, mas o tempo passa tão rápido que eu nem vi que já se passaram quatro anos da última cirurgia e esse tempo se perdeu e eu nem vi... O que eu vi, agora, depois de ter parado pra colocar a cabeça no lugar e "digerir" esse novo diagnóstico, é que eu sou outra pessoa completamente diferente - desde 2009, quando descobri o Cushing, ou 2012 quando fui curada do Cushing e, ser uma nova pessoa, coloca-me em outro posicionamento em relação às doenças e minha vida.
Já que não dá pra gente fugir do destino e das reviravoltas que a vida dá, com essas tragédias dignas da Antiguidade Clássica, nada melhor que escrever, como forma de catarse e isso continuar me dando forças pra lidar com as perdas e enfrentando novas batalhas...
Ah, e sobre aquele papo de política? Ou a gente pede desculpas, ou a gente lida com as perdas, né?