domingo, 2 de maio de 2010

crise dos ouvintes (ou, determinações culturais).

Walter Benjamin que me desculpe, mas estou revendo meus conceitos... o “narrador” não está em crise, a crise é dos ouvintes.
Acho que existem muitas pessoas que querem falar, mas as aptas a ouvir é que estão extintas. E não é um simples “ouvir”, é ter que estar aberto a suportar opiniões e pontos de vista e críticas e relatos e preconceitos e culturas e um turbilhão de coisas. Como diria Goethe, falar é uma necessidade, escutar é uma arte. Essa moda de blog, twitter e o escambal, por exemplo, se eu (e mais um milhão de pessoas) não tivesse o que “narrar” não teria porque criar essas ferramentas... tudo bem que a invenção da imprensa (livro, etc) foi mais ou menos uma nova forma daquela tradição dos mais velhos contarem histórias e etc e agora a internet é a “próxima geração” e estamos nessa correria da modernidade em que não conseguimos dar conta de todas as “(in)formações” que estão ao nosso alcance... mas é justamente esse o ponto, por não conseguirmos dar conta do que ouvir, nossos relatos acabam se tornando fluxos de consciência, opiniões e pontos de vista jogados em algum lugar, coisas que nem todos estão dispostos e/ou tem habilidade pra absorver... ou seja, volto a dizer que a crise é dos ouvintes. Não sabemos ouvir (ou ler, no caso). Mas quando se está no hospital, a gente (eu, pelo menos) aprende a ouvir tudo, e entender o tempo, e percebe ele e enquanto isso as coisas vão passando e você consegue perceber muito mais do que está passando junto com o tempo, inclusive as palavras das pessoas que vão passando... É, exatamente, bem assim confuso. O que eu percebo nesse meio tempo? Percebo que o que nós percebemos é cultural, que vivemos praticando rituais, que várias coisas que eu percebo já foram percebidas por outras pessoas, mas é incrível quando eu constato isso sozinha. Lá vou eu para relatos conectados à suposta teoria...
Após o cateterismo – sim, finalmente o último exame! – fiz uma constatação durante a recuperação do exame, no hospital: a maneira como fazemos nossas necessidades fisiológicas é cultural. Parece ridículo, mas é verdade. Antigamente, as pessoas faziam xixi em penicos que ficavam no meio do quarto, depois criaram umas casinhas com buracos, depois de um bom tempo que criaram os banheiros e o vaso sanitário e papel higiênico e todas essas coisas maravilhosas; ou seja, aos poucos os costumes vão mudando porque a cultura vai mudando, novas invenções vão surgindo, novos valores vão surgindo, mas aí me deparo com a situação: feito o cateterismo você não pode sair da cama até o outro dia, traduzindo: faça xixi na “cumadre” (uma espécie de penico de alumínio) deitada na cama. Olha, admiro quem consegue... mas eu, travei completamente, a minha cultura, a minha época, os valores e a forma que fui criada simplesmente me condicionaram a fazer xixi no banheiro, é inexplicável o bloqueio da minha mente em relação a prática de fazer xixi num penico no meio do quarto. E eu fico me perguntando, “será que se eu tivesse nascido em algum outro lugar que as pessoas ainda façam xixi no penico eu talvez não tivesse ficado quase explodindo de vontade até o outro dia? esse bloqueio são questões psicológicas? meu cérebro é assim tão determinado?” Não sei, só sei que a sensação de alivio no outro dia quando fui no banheiro foi uma coisa tão boa que eu até esqueci que poucos minutos depois eu teria que tirar o curativo (leia-se: pedaços de esparadrapo superultramegapower aderente envolta das minhas pernas, fazendo uma pressão imensa para que os belos buraquinhos do cateterismo não sangrassem de jeito nenhum, quase trancando minha circulação de tão bem presos). Pior do que depilação com cera quente! Que diga-se de passagem, é mais um ritual meio idiota que nós fazemos por uma questão cultural, porque antigamente isso também não acontecia, mulheres tinham os “apêndices filamentosos da pele” bem compridinhos, barbear-se é coisa de homem... Mas eu também não sei como as criaturas conseguiam viver desse jeito, acho tão mais higiênico, sinto-me tão mais limpa sem “excessos”, assim como tomar banho, é um habito condicionado culturalmente, que pra mim é quase uma coisa catártica. Higiene é cultural, e nesse ponto sou extremamente etnocêntrica, adoro a sensação de um banho e agradeço por ter aprendido esses costumes, mas como não sou de outro jeito, não sei se talvez eu também não gostaria de tomar banho somente uma vez no mês, ou coisa parecida... Talvez Bakhtin me entenderia, somos presos a costumes e nem nos damos conta disso, às vezes nem sabemos quem foi que nos passou tais hábitos, é uma forma de ser que está implícita...